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CHICO BUARQUE DE BUDAPESTE

27.07.2004 | Fonte de informações:

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Devia ser proibido debochar de quem se aventura a escrever romances. Aspirar ao ofício de romancista é um desígnio tão nobre, e tão alto, que o seu ruir, retilíneo, rápido, repulsa risos. Devia ser proibido também debochar de quem se aventura a ler Budapeste, o romance de Chico Buarque de Holanda. O compositor é tão fadado à felicidade no que faz, tão fecundo nos fás, que a fé dos fãs é facultada.

Desde já se diga que este artigo é uma leitura de Budapeste sem os olhos encandeados pelo brilho das canções de Chico. Aqui será lido Budapeste como um romance, como um livro que vem à literatura como todos os outros deveriam vir, com a força única e exclusiva da sua verdade e da sua arte.

Senhores passageiros, apertem o cinto. Desde o momento em que o narrador do livro “foi dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt”, os leitores críticos deveriam voar para outras plagas, saudosos de Praga. Isto porque a primeira constatação é a de que o narrador não é do ramo. Se um romance for um feixe de páginas, com palavra-puxa-palavra, um conjunto de sons, com ritmo, um devaneio, um brinquedo, um jogo de costas para o mundo, bom, já não está aqui quem estava antes. Se assim for, Budapeste é um excelente romance. Mas se o que desejamos, em boa-fé, paz e paciência e esperança, for um livro que nos torna melhores do que éramos antes, e “melhores” aqui expressa uma experiência de mundo que não conhecíamos, que alargou o nosso tempo de vida, pois nos acordou para o que não notávamos, e por isso nos fez mais humanos e mais sábios, senhores passageiros, apertem os cintos.

Budapeste é um livro que narra, ou melhor, é narrado por um ghost-writer... e já aqui começam os problemas. Daqui de cima do avião, de onde vemos Budapeste, percebemos que esta é uma narrativa sobre um tipo específico de imitação, a farsa. Porque fala de um indivíduo que vende a autoria do que escreve, e o produto vendido é um escrito à imagem e semelhança do comprador. Mas sobre a imitação mesma como o livro gostaria, uma imitação da imitação, como espelhos a se refletirem numa sala de espelhos, sua única imagem é um fosco, redondo e plano fracasso. Isto porque o ghost-writer é um José Costa com a cara, os vícios, os tiques, os maneirismos, o estilo, o vocabulário e a sintaxe de Chico Buarque de Holanda. Aquela declaração de Hemingway, de que escreveria um romance na primeira pessoa com um pé nas costas, por vezes é muito mal interpretada. Interpretam-na como se uma obra escrita com os verbos flexionados pelo pronome “eu” admitisse a transcrição do diário do escritor, ou melhor, ou pior, como se o “eu” narrador se confundisse com o “eu” pessoa física de quem escreve. Não sei se falo de corda em casa de enforcado, mas narrar é entrar na pele de um “eu” observado, mastigado, maturado, sentido, percebido, de experiência imaginado. Um imitar muito complexo, mistura de sentimento, intuição e inteligência. Alma e coração, diria. Em que medida, nem o demônio do Cervantes sabe.

Em Budapeste esse desprender-se, do narrador do narrado, não se faz porque:

1) Na linguagem, em vários trechos o narrador é um Chico Buarque piorado, porque a passagem do verso musical, contido, sintético, para a prosa não se faz sem trauma. Por exemplo: “Tinha cabelos muito finos que a brisa assoprava, com o Pão de Açúcar iluminado ao fundo, cor de abóbora...”. Quem não é carioca e nunca viu o personagem, pergunta-se, o que era cor de abóbora, o cabelo fino, o Pão de Açúcar, ou, licença poética, a brisa que assoprava ? Essa ambigüidade, que no verso é um prêmio, e na música, que Chico exerce com maestria, uma felicidade, na prosa nem sempre é um achado. Em outros trechos, o narrador rima na escrita, como no correr de um samba: “... ela não havia notado que o poeta era gay. Em Copacabana perguntei se queria parar num japonês...”, “ ... pensei em largar tudo e ir embora para Hamburgo”. Em outros, a frase vem com um ritmo que poderia ser acompanhado numa marcação, batendo com os dedos à mesa. “Está certo”, diriam os fãs, “isto é um defeito? Quantos autores gostariam de escrever com esse ritmo, como Chico?”. Tentaremos responder mais adiante. 2) Na verossimilhança ... antes uma ressalva: o personagem verossímil não é aquele papel carbono da vida real. Pede-se apenas que o autor não falte com a verdade. Só e somente. Que o personagem se acorde num corpo de um inseto, ou que passeie no inferno com o diabo, ou veja o fantasma do pai num castelo, ou assombre pessoas com um capote depois de morto, tudo isto pode ser bem verossímil, e mais importante, absolutamente necessário. Mas poderíamos ser poupados de um ghost-writer que vive como um compositor de sucesso. Sem trabalhar, consumindo, a comer e a beber, a pagar aulas de húngaro, sem prejuízo das suas despesas domésticas no Rio, o narrador passa mais de quatro meses num bom hotel em Budapeste! Está certo, concedamos, nisto vai uma licença ... da realidade. Que também deve ser invocada em muitos outros trechos, mas em um deles se destaca: quando na decadência, de volta ao Rio, o personagem sem dinheiro passa mais de 100 dias em um apartamento de hotel até ser cobrado! Come restos deixados nas bandejas pelos vizinhos, uma coxa de frango, algum queijo francês, meia taça de vinho... evidentemente, nem o autor nem o narrador jamais tiveram a experiência do que é viver com fome e desempregado em uma grande cidade. O autor não sabe o que é viver de favor, pedir emprestado sem ter com que pagar, ser expulso e voltar a bater na mesma porta, porque não se pode dar ao luxo de ter vergonha. A falta do primário, a ausência do inimaginável básico ele não conhece, porque caso contrário não escreveria, ao lembrar um tempo de miséria: “E uma noite eu estava posto em sossego, bebericando um uísque meio aguado, quando o telefone pegou a tocar...”. Estava onde mesmo? Telefone?! 3) A cidade, o nome do livro, é de um vazio imenso. “A cidade vazia” de Baden e Vinícius era mais plena, porque era a necessidade de tudo, sem encontrar satisfação de nada e em nada. A de Baden era aquele deserto noturno, de madrugada, em que os lobos passeiam e arrebentam no peito dos homens que bebem, bebem, e não encontram o remédio da embriaguez, pois vagam a lembrar o verso de Drummond, “há um momento em que todos os bares se fecham...”. Budapeste, não. Budapeste, no livro, é uma cidade atemporal, vazia de qualquer humanidade, é um verbete na enciclopédia, ou menos que isso, uma indicação, umas linhas e umas fotos de um folder turístico. Exagero? Vejam: “Realidade eram os passeios na ilha de Margit com suas atrações domingueiras, os aqualoucos do Danúbio, as corridas de carneiro, as marionetes eslovenas, o coral dos ventríloquos...”. Só podemos concluir que isso acontece porque o narrador foi a Budapeste a bordo de aviõezinhos de papel. Igualzinho a seu duplo, Chico Buarque de Holanda.

O livro, como um todo, é uma sucessão de eventos que rumam para lugar nenhum. Há roletas-russas, cegueiras que não se confirmam, separações e voltas, ameaças de crimes passionais, reviravoltas na sorte inesperadas, casamento do inverossímil com a ignorância, até culminar com uma cena de melodrama da Pelmex: o narrador, confundido com um homossexual, é perseguido pelo filho, um skinhead que não reconhece o pai. Muito bem, se assim é, como se explica a unanimidade que cerca o, com o devido perdão, romance? Por que autores de reconhecido e justo valor literário, como José Saramago e Luís Fernando Veríssimo, dizem do livro maravilhas que este que lhes fala não viu? Será que falamos do mesmo livro?

Eu diria que a vida literária tem mistérios que o comum da gente não consegue explicar. Para nada esclarecer, ou expressar, esta seria uma boa resposta. Tentemos as más respostas, em razão, até, da sua sinceridade.

Primeiro. Os autores em público, nas opiniões publicáveis, muito se respeitam. Ninguém saberá o que um escritor acha verdadeiramente sobre outro longe de uma crise entre eles, ou fora da mesa de um bar. É, como diria, um exercício de diplomacia do espírito, para usar um eufemismo. Nas opiniões publicáveis, o bom leitor deverá ler no insinuado, ou no que se omite de ressaltar. O veneno, o sombra-luz, o drible do futebolista, a esquiva por um triz do toureiro, entre escritores são uma fina arte, em palavras.

Segundo. Um autor como Chico tem uma digna aura em torno de si. Ao ler um livro de Chico, a sua qualidade maior é ser de Chico. Um livro de Chico Buarque não se lê pelo livro em si. É uma obra de um artista que se fez na música, que namora a poesia, que flerta com o literário em suas letras. A sua obra de compositor, na fronteira do poético e da música, é de uma qualidade artística à beira da radicalidade. Mas, é natural, o artista quer mais, e foi do teatro à fábula, desta ao romance. Mas, também é natural, nem por isso nós, os da periferia, que não precisamos de boas relações de vizinhança com o criador, deveremos acrescentar mais vozes ao coro do “Chico, você é um romancista de gênio”.

Terceiro. O jornalista e pensador Paulo Carneiro, um lince de argúcia, já havia notado, ao voltar da Feira Literária de Parati: “Meu amigo Urá, tentam mostrar que literatura e rock’n’roll são farinhas do mesmo saco, mas as letras são a vítima, o rock o algoz”. E Chico, e Budapeste, e a Festa Literária de Parati, caem como uma luva nessa observação de Paulo Carneiro. Fizeram da literatura um produto cantável, do rock, ou do pop, uma expressão literária, e dos seus astros escritores. Nessa ótica, Shakespeare melhoraria muito se tocasse guitarra. O espaço para a reflexão, para a leitura e crescimento em silêncio (como crescem os bens duradouros), está marginalizado.

Quarto, por fim. Quando em todo o Brasil, de norte a sul, todos os jornais e revistas cantavam a nova balada de Chico, quando todos entoavam, de Budapeste, “devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira”, o jornalista e escritor Marco Albertim assim se expressava: “Esse clima de exaltação generalizado é a mídia do lucro fazendo a corte ao talento de fama”. E como é natural, o público se rendeu à literatura que se vende como um CD. De causar estranheza foi e é a falta do que os advogados chamam de contraditório, a defesa de um ponto de vista contrário a esse samba-exaltação, até mesmo entre escritores e intelectuais. A diplomacia do espírito também paga o seu tributo à idiotia?

Seria muito interessante, e salutar, que o próximo romance de Chico fosse enviado à editora dentro de um envelope pardo, sem outra indicação a não ser o nome do remetente, José da Silva, e um seu endereço em Teresina. Se publicado, muito agradável e pedagógica seria a recepção da crítica. Claro, se houvesse.

 
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