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Por dentro das novelas

26.11.2002 | Fonte de informações:

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Como todos os brasileiros sabem, a (tele)novela é uma narrativa seriada, com duração média de 6 a 9 meses. Ao contrário da ficção literária ou cinematográfica, a novela raramente têm um único autor; primeiro porque se trata de um trabalho que demanda toda uma equipe de profissionais, segundo porque ela é definida no jargão do meio como "obra aberta", na qual as reacções do público, os índices de audiência e os acontecimentos políticos e sociais externos podem alterar o que estava previsto no roteiro.

Mas quando surgiu a novela? Quais são as especificidades da novela brasileira em relação à produção dos nossos vizinhos latino-americanos? Até que ponto as novelas influenciam o comportamento dos telespectadores? Vale a pena saber um pouco mais sobre essa nossa velha conhecida.

As origens O antepassado radiofônico do que hoje conhecemos como novela é a soap opera norte-americana - cuja tradução literal é "ópera de sabão". Tal denominação não é casual: nos anos trinta, as indústrias de cosméticos e produtos de limpeza tiveram a idéia de financiar a produção de programas dramáticos com a finalidade de conquistar o público consumidor feminino. O gênero funcionou muito bem no rádio, sendo em seguida transplantado para a televisão. Na América Latina, esse tipo de emissão melodramática se espalhou rapidamente, talvez em função do peso da tradição oral abaixo do Equador, que faz com que escutar uma boa história tenha para nós um valor todo especial.

O sucesso das telenovelas acelerou o desenvolvimento da televisão em vários países latino americanos, como Venezuela, Porto Rico e México, o que se explica pela capacidade desse tipo de programa de atrair verbas publicitárias e pelo seu modo industrial de produção, que incentiva a racionalização do trabalho e dos gastos. O grupo mexicano Televisa, por exemplo, é um dos maiores exportadores mundiais de telenovelas – de quem o SBT vem comprando programas desde 1991.

Entre as características comuns das novelas latino-americanas estão as histórias de amor (quase) impossíveis, as surpresas no meio da trama, a ascensão social pelo casamento, os conflitos familiares e a punição dos vilões no final. Em segundo lugar, a estrutura das telenovelas é baseada em oposições simples e maniqueístas, do tipo velho / jovem, rico / pobre, rural / urbano, para facilitar a compreensão do grande público. Além disso, sempre há um personagem com uma identidade secreta – não conhece seus pais, tem um irmão gêmeo, ou então um passado obscuro. Os efeitos de suspense e a fragmentação – quem não lembra das "cenas dos próximos capítulos" ? - representam estratégias para garantir que o público continue seguindo a história semana após semana.

As especificidades das novelas brasileiras Especialistas como José Marques de Melo e Gabriel Prioli afirmam que certos traços e nuances só existem nas produções brasileiras. A presença do humor é um deles. Na primeira metade da década de sessenta, a hoje extinta TV TUPI ainda adaptava histórias hispano-americanas para o público brasileiro. Mas em 1967 a novela BETO ROCKFELLER representou um verdadeiro marco: produzida exclusivamente no Brasil, ela foi além do tom "lacrimoso" do melodrama tradicional, introduzindo o humor e a descontração na telinha. Foi um grande sucesso e acabou fazendo escola.

Além do humor, o cuidado com a contextualização e a ambientação da narrativa é o segundo elemento típico das produções brasileiras. Numa novela mexicana, nem sempre o telespectador sabe em que época e em que região a ação se desenvolve. Aqui, ao contrário, os sotaques, as roupas, as cenas externas e a cenografia nos situam claramente. Em novelas históricas, como ESCRAVA ISAURA (1976) ou TERRA NOSTRA (1999), há todo um cuidado com a reconstituição dos figurinos, do mobiliário e das roupas. Já nas novelas que se passam no momento presente, são incorporadas modas contemporâneas e fatos da atualidade. Talvez você se lembre de que, na época da condenação de PC Farias, as personagens da novela RENASCER (1993) discutiram a fuga de um político esperto e corrupto. Ou então de que no ano da explosão do shopping de Osasco os autores de TORRE DE BABEL (1988) reconstituíram a tragédia dentro da ficção para "matar" o casal de lésbicas que não estava agradando à parcela mais conservadora da audiência.

Falar em novelas brasileiras sem mencionar a Rede Globo seria impossível. Devido à implementação do "padrão Globo de qualidade", que consiste na combinação de pesquisas de opinião, tecnologia de ponta, administração centralizada, marketing agressivo e bons autores, a emissora reinou praticamente sozinha no ranking nacional, durante as décadas de 70 e 80, obtendo uma média de 60% da audiência com suas novelas das oito. Foi esta emissora quem consagrou internacionalmente as novelas brasileiras, exportando-as para mais de 120 países. (A exportação, diga-se de passagem, gerou fenômenos interessantes, como o batizado de muitas crianças com o nome "Porcina" em Portugal, após a exibição de Roque Santeiro...)

Entre as marcas que a Globo imprimiu nas novelas brasileiras, estão a racionalidade e o planejamento minucioso de sua produção. Ilustremos com o caso de ROQUE SANTEIRO (1985): 800 pessoas - entre atores, figurantes, técnicos e diretores - compareciam diariamente à cidade cenográfica instalada em Guaratiba, a 100 km do Rio de Janeiro; o roteiro foi escrito a 8 mãos, sendo debatido, espisódio após episódio, por dois dramaturgos, um roteirista e um pesquisador; à medida que o roteiro ia ficando pronto, 150 cópias eram impressas, para que todos os setores da Globo tomassem as providências necessárias; seis capítulos eram rodados por semana, para otimisar a presença do pessoal e a locação de material; as gravações duravam até meia-noite (é necessário filmar em média dez horas para editar um capítulo de 40 minutos). É claro que tudo isso se reflete nos custos: o preço de uma novela da Globo chega a ser quatorze vezes maior que o de uma novela mexicana.

O poder das novelas Em primeiro lugar, as novelas influem nos hábitos de consumo dos telespectadores, como comprova um estudo recente de Heloísa Buarque de Almeida, da UNICAMP. Além dos comerciais explícitos durante os intervalos, somos bombardeados pela glamourização de roupas, aparelhos eletrodómésticos e outros objetos constituintes da própria trama. O estilo de vida das personagens – que na novela pertencem sobretudo à classe média - acaba se transformando em referência de comportamento. Sem falar no merchandising, a aparição de logotipos ou produtos em meio à ficção (á título de curiosidade, uma única inserção do produto, num capítulo de uma novela das oito, pode custar ao anunciante até U$ 50.000).

Mas para além do poder de multiplicador do consumo, há influências menos óbvias em outras esferas da vida social. Percebe-se uma infiltração das novelas no cotidiano dos brasileiros e vice-versa, como se a telinha não passasse de uma janela que nos permite espiar a casa dos vizinhos. Mais do que entretenimento, trata-se de um espelho da sociedade brasileira, com o qual as pessoas se identificam, a ponto de mudarem seus comportamentos e passarem a se preocupar com questões sociais que antes não lhes chamavam a atenção. À título de exemplo, durante a exibição de LAÇOS de FAMÍLIA (2000), em que uma personagem com leucemia só sobreviveu graças a um transplante, a doação de órgãos aumentou muito no Brasil, levando o autor Manuel Carlos a receber um prêmio. O CLONE (2001), por sua vez, colocou a temática das drogas em evidência, fazendo com que o número de jovens procurando serviços de desintoxicação crescesse no período.

Alguns pesquisadores têm chegado a resultados surpreendentes quanto ao papel da televisão na curva demográfica brasileira. Janet Dunn, da Universidade de Michigan, num estudo de campo no vilarejo baiano de Arembepe, concluiu que a maioria das mulheres descobriu as vantagens de se ter menos filhos assistindo a novelas. Joseph Potter, da Universidade do Texas, apontou uma tendência mais geral: analisando os dados do censo, ao longo de várias décadas, observou que quase sempre há uma queda nas taxas de natalidade após a chegada da eletricidade em uma região do Brasil. As mudanças de comportamento podem ocorrer também em níveis sutis, como no caso do surgimento de um novo ideal de homem brasileiro, mais sensível e afetuoso, que Elza Berquó, pesquisadora do CEBRAP (Centro brasileiro de análise e planejamento), acredita estar ligado às transformações das personagens masculinas na telinha.

Embora nas novelas a representação da sociedade brasileira seja parcial e redutora - o Brasil das novelas é mais branco e menos pobre que o Brasil "real" -, a antropóloga Esther Hamburguer acredita que as novelas acabaram por criar um novo espaço público no Brasil. A tramas dão visibilidade a questões antes confinadas à esfera privada – como o uso da píllua anticoncpecional, o consumo de drogas ou a traição conjugal - e suscitam discussão dentro da família, com os colegas, com os vizinhos etc. sobre vários aspectos da vida social. A complexa relação entre o universo ficcional das novelas e as práticas e valores dos telespectadores não funciona, portanto, somente numa direção; as novelas não ditam apenas modelos, elas põem também em cena questões e práticas que já existem na sociedade, embora muitas vezes de forma velada. E nesse ponto acabam tendo um papel salutar.

Alguns especialistas começam a se perguntar se o reinado da telenovela estaria pouco a pouco entrando na fase de declínio, juntamente com o monopólio absoluto da Rede Globo – que, a partir da década de noventa, com o aumento da concorrência, teve uma perda de audiência de cerca de 20%. Pesquisas de opinião junto ao público revelam que os brasileiros acham as "novelas de antigamente" melhores que as atuais, que há muita repetição e "espichamento". Talvez o gênero esteja esgotando, talvez os reality show do tipo Big Brother tenham vindo tomar seu lugar. É cedo para saber.

Ilana GOLDSTEIN

 
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