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Invasões bárbaras

24.12.2003 | Fonte de informações:

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Imagine. Por isso digo: nós, os bichos deformados pela leitura, não gostamos de ir ao cinema. Não me provem, por favor, com milhares de exemplos, que há furiosos leitores amantes do cinema. Nem argumentem que amar somente a arte da literatura é um analfabetismo muito estranho. Não adianta. Para doido e viciado é inútil toda lógica e argumento. Pois falo por essa ampliação estranha, “nós”. E por isto digo: nós, porque somos loucos pela humanidade impressa, detestamos ir ao cinema.

O que nos perde são os amigos. Alertado pela insistência do Capitão América, que lá de São Paulo respondia a todos nossos e-mails com um imutável, “nada lhe digo enquanto você não assistir às Invasões Bárbaras”, e assim continuava, indefinidamente, a qualquer pergunta nossa, “Você leu o artigo sobre Paulinho? Chegou a Santo André o exemplar dos Corações? E Gildo Marçal, já leu os Corações?”, ele só respondia: “Assista às Invasões e depois conversamos”... Nos rendemos. Queremos dizer: fomos ao cinema em guarda, de olhos bem abertos.

Quantos defeitos nossos olhos viram! A começar pelas personagens (e isto, sabemos, é um vício de quem possui fumaças de criação literária): um professor, que ao fim de 53 anos de idade, depois de todos “ismos”, socialismo, comunismo, estruturalismo, niilismo, tem a consistência e a teimosia de opiniões de um velho comunista. A experiência nos indicava, até então, que os ex-socialistas ficam simplesmente cínicos, ou maldosos e perversamente amargos: perdem o norte, o pai, a mãe e Deus em uma só cartada. No filme, a ele se contrapõe um filho que, reeducado pelas Bolsas de Valores, tem sentimentos de um cristão provinciano. Que perde dinheiro duplamente, tanto o que deixou de ganhar quanto o que gasta, para assegurar um fim confortável ao pai. E tudo, essa passagem do frio homem de negócios ao caloroso filho, mediado por uma conversa com a mãe (defeitos do gênero, do filme, do teatro, cujo processo de construção da alma é essencialmente curto, quase caricato?). Que diferença, nossa experiência com o romance diz, que diferença das filhas do Pai Goriot! Para voltar a esse pai no filme, ficamos sem saber como é que um homem, um professor, nascido em 1950, remonta a sua experiência erótica do cinema sem passar por Brigite Bardot. E como esquecer a magnífica bunda de Kim Novak? Mas isso, reconhecemos, são quase preciosismo. Os amantes do cinema, e portanto os seus melhore conhecedores, poderão responder que a realização do personagem na tela está mais para o poema que para o romance. Ou melhor ainda, mais para a pintura que para o teatro. Mais, enfim, como se fosse um teatro/pintura/bruxaria em fotos. Pelo que sugere.

Mas por que desse filme falaram e falam tanto? Isto predispõe muito mal a gente que sai de casa para vê-lo. “Vejamos essa obra-prima”, dizemo-nos, aborrecidamente. Em nossa memória, nos largos intervalos de tempo de uma ida e outra ao cinema, não saem “Hiroshima, mon amour”, Hiroshima, Hiroshima, seu preto-e-branco, seus monólogos, e em preto-e-branco não saem Buñuel e seu Anjo Exterminador, e em preto-e-branco insistem Roma, Cidade Aberta, e Fellini e Ladrão de Bicicletas, e Chaplin no fim de Luzes da Cidade, e o muito particular filme que é a cena da escadaria de Odessa, mais conhecida como um momento de O Encouraçado Potenkim. É claro, compreendemos: com essa memória que se sobrepõe à tela, fica muito difícil ver, com os olhos bem abertos, o que se passa hoje no cinema. Pois não teremos jamais de volta Kim Novak, se é que alguma vez a tivemos. Para não falar da senhora Bardot, que, atualizada, hoje não dá aos animais humanos o mesmo valor que a seus animais sem humanidade. Chega de romantismo.

Sem assistir ao filme que esperávamos, assistimos a um que já nos intriga a partir do título. Quais são as invasões bárbaras? Ah, as primeiras imagens vão revelando: enfermarias entulhadas de pacientes, cuja última dose de tratamento humano, humanitário, é receber hóstias de uma freira. Ah, para o primeiro mundo isto é uma metáfora. Para nós, do terceiro, acostumados ao Hospital da Restauração, ah, as hóstias não dariam para a fome dos cachorros que gemem e ganem nos corredores de nossas enfermarias. Isto, aquele hospital, ainda não é ser bárbaro. (E lembramos agora a visita de um frade capuchinho aos sertanejos de Canudos, em Os Sertões. Era semana santa. Euclides da Cunha relata que o frade ensinava aos infiéis, desviados por um herege, lunático, como deviam ter abstinência em nome do sofrimento de Cristo. Deveriam comer somente bacalhau, farinha, naqueles dias... Foi interrompido às gargalhadas. Os desgarrados gritavam para o frade: - “Isto já é muito! Assim já é fartura!”)

Onde, pois, as invasões bárbaras? Elas vêm com o poder, sem pudor, com a sedução e sedação do dinheiro. À primeira vista, elas vêm pelo ar, nas torres gêmeas atingidas em 11 de setembro. À primeira vista, elas vêm na decadência do serviço público, no controle burocrático do trabalho pelos sindicatos. À primeira vista elas são a queda de qualidade no atendimento hospitalar em um país do primeiro mundo. À segunda vista, no entanto, elas são a renovação do poder do dinheiro, que invade todas as relações assemelhadas a humanas, para não dizer até mesmo as humanas. E agora, com os olhos bem abertos, podemos ver algumas das qualidades de As Invasões Bárbaras.

É um filme que deixa pelo caminho da nossa percepção algumas lições laterais, como se deixasse cair flores distraidamente, algumas até de cheiro ruim. Nada eloqüente, marcado, grande, Hamlet. Mais para Iago, insinuado, pelos lados, de passagem. “Lições”:

a) o quanto o dinheiro vale pouco;

b) o quanto, ainda assim, compra tudo.

O quanto nada é, diante da morte. Se o dinheiro tivesse o poder com que se proclama, há muito teria assalariado o Diabo e o bom Deus. Mais, muito mais do que aquele tapete mágico das Mil e Uma Noites. Apenas e muito simplesmente teria feito de todo capitalista um imortal. Nos momentos críticos, ou melhor, na vizinhança de quando chegamos ao fim, a sua impotência e inutilidade são flagrantes. E nos perdoem o trocadilho: é fragrante. Há um doce perfume de desilusão, de desencanto. E que faz saltar aos olhos o valor de um abraço, do amor, da amizade. De um reconhecimento fundo, atingível naquele difícil mundo e canto em que a porcaria não venceu.

Mas já então temos que nos guardar da fábula romântica. E atingimos a segunda “lição”: o quanto, esse impotente diante do fundamental, compra. Clark Gable, com o pragmatismo típico dos americanos, dizia que dinheiro só não compra amor, mas que compraria excelentes imitações. No filme, o dinheiro compra até solidariedade, compra até reconhecimento a um velho professor, desencantado no câncer. E ele, dinheiro, impotente dourado e potente cínico diante da dignidade dos que nada têm, a não ser a teimosia, a não ser, diria esse deus, um vazio orgulho que não tem onde se assentar, não recua: a uma jovem que desiste de receber a sua parte pela encenação de carinho a um velho professor, ele diz, aos cúmplices da arrependida: - “Vocês se importam de receber a parte dela?”.

Há muitos anos, dizíamos ao então jovem Givaldo Gualberto que ele não sabia criticar um filme. Porque sempre que lhe pediam uma opinião, um comentário, ele desandava e se danava a contar todo o enredo da película. Não cairemos no erro que então criticávamos. É preferível falar do filme pelos reflexos que sofremos de suas imagens. Saímos do cinema, eu e minha esposa, calados. Eu sem saber o que comentar sobre o reencontro de um pai com seu filho, ele um velho socialista, o filho um novo bárbaro. Eu estava mudo, sem saber o que achar sobre aquele suave drama de um homem que se vai com um câncer. Quando atingimos os corredores do shopping, repletos de luzes e decoração de natal, ela explodiu num pranto. Arrebentou-se em lágrimas. Porque esse filme a levou aos últimos dias do seu próprio pai.

Ficamos então sem saber mais para onde ir. Sem saber sequer por onde sair. Quando alcançamos o estacionamento, lá fora as setas apontavam Leste, Oeste, Norte, Sul. Pegamos uma qualquer, porque todas eram inúteis.

 
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