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A MELHOR NOITE DAS NOSSAS VIDAS *

24.08.2004 | Fonte de informações:

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Quem me vê assim, não sabe.

Eu não sou esta mulher próxima a ficar viúva. Essa própria palavra, viúva, de mim, de nós, nada esclarece. Eu jamais vestirei luto, eu jamais serei uma viúva. Quero me ver como a mulher que dá adeus no cais – ele parte, só ele parte, mas tenho em mim a esperança de que logo o seguirei. Sou a mulher que fica por enquanto sozinha, enquanto aguardo novo reencontro. Reencontro, de quê? Eu não sei se a minha cabeça anda tresvariando. A mim, que não tenho mais Deus, a mim, que não acredito numa vida depois do túmulo, como posso falar de um reencontro? Como dizer que reencontrarei Zezito, quando ele não estiver neste aqui, assim, agora, com este corpo, assim, aqui assim, ainda agora, quando ele não tiver mais este corpo encolhido? No entanto, o meu coração me diz que em breve teremos um reencontro. Como? Não sei se no mundo criado por nosso sentimento. O certo é que o vejo, entre névoas, e ele, se não saudável, mas firme, me dá a mão e atravessamos a névoa, por entre névoas. Não sei se estou tresvariando. Mas se me consigo expressar é muito certo que não esteja enlouquecendo. Acredito, e imagino, que o sentimento faça um mundo à parte, que não está em um local determinado, mas é uma corrente, um fluxo que comunica dois seres. Quando o corpo da gente não mais é, é para esse mundo que duas almas partem, um mundo que foi construído enquanto os corpos eram. Esse mundo deve ser como o do pensamento. Como exatamente agora, em que tenho a minha mão unida à dele, e isto, para mim, para ele, é uma confirmação do muito que nós dois fizemos. Eu me comunico com ele só em olhá-lo. Ninguém sabe, ninguém vê, mas o meu toque com os dedos é palavra.

Agora mesmo, ao dizer isto, me dá um soluço, o mesmo soluço que eu tinha quando o sentia depois do gozo. Falar dele, falar sobre ele, dizer o que somos, é sentir de volta sempre esse gozo, esse soluço, que é um esforço para sufocar lágrimas. O nosso soluço que dava quando nos amávamos.

(Quem me vê assim, não sabe.

Estou entre parênteses, estou entre duas luas quartos minguantes. Sinto-me abrigado e exposto ao mesmo tempo, frio e calor, quando recebo radiação. Ainda assim, não posso dizer a outros o que sinto. Se eu o disser, as pessoas sorriem, ou se olham, entreolham-se, pelo grande disparate que as pessoas pensam lá entre elas que eu digo. Estou entre duas luas de vidro e ainda assim não me vejo. Sinto-me, apenas. A última vez em que me olhei num espelho, tive um susto. Não é de admirar que as pessoas se acerquem de mim com esse odioso e hipócrita ar de caridade. Vão ter pena da mãe, tenho vontade de lhes gritar. Mas as palavras não me saem como eu penso. Penso? Penso? Falo calado. Se isso é pensar, então eu penso. Falo calado, porque falar falando eu não consigo. Da minha boca saem palavras soltas, sílabas truncadas, travadas, como se eu estivesse com pedras sobre a língua. Penso. Onde é que eu estava? Penso. Sim, vi no espelho a minha cara e tive um susto. Pele colada aos ossos, cabelo ralo, e os olhos, nas cavernas, na caveira, muito assustados.

Quem me vê assim, não sabe. Quem me vê assim não sabe que esse esqueleto, esse cangaço ama essa velha aqui ao meu lado. Eu não queria deixá-la só. Isso me dá um soluço. Dê-me sua mão, Jussara. )

Eu não lhe dei a mão em 1954, quando casamos. Engraçado, é engraçado como o sentimento da gente não acompanha o que os outros acham importante. Casar para mim foi tão importante quanto a minha trigésima primeira menstruação. A primeira foi muito mais importante. Estou forçando um pouco, reconheço. Primeiro porque não é casar o fato a que me refiro. É ao dia do casamento, evidentemente. Depois, esse comparar à menstruação foi mais para dar uma cor. Mas isso não importa. (Zezito sempre me disse que eu me prolongo sem necessidade.) E sem graça, sério, quero dizer isto: agora mesmo, quando pego sua mão descarnada, agora mesmo eu sinto a sua antiga mão. Eu não vejo nestes ossos. Sinto uma onda elétrica, um fluxo de correnteza, corrente boa, que mareja os meus olhos. Me dá um arrepio, porque tocando-a, toco uma parte do Zezito a quem amei, porque vou àquela noite em Buenos Aires, no apartamento do hotel, na fria noite da Argentina. Ele havia bebido muito. Nós havíamos bebido. Ele, pelo que me disse naquela noite, talvez mais que eu. Porque mais franco, mais verdadeiro, sem querer. O que interessa dizer, meu Zezito, é que tocando nestes ossos longos, sinto aquela mão calorosa naquela noite em Buenos Aires. Eram as nossas bodas de ouro. As nossas bodas foram a sua mão. Eu quero dizer:

(Pego-a e sei que algo de bom me vem dela. Não sei exatamente o quê. De repente está me acontecendo isto. Vejo cores mas não sei por quê. Sinto. Esta mão de Jussara é um conforto para as minhas dores. É um banho de companhia, de solidariedade. Sei, e quero gritar e não posso, sei que enquanto existir esta mão eu não estarei sozinho. Eu não morro sozinho. Eu não morro sozinho com a minha dor. Ah, queimem esse corpo velho, vamos, cortem essas pernas, esse braço, porque inúteis. Mas me deixem de tudo esta mão de Jussara. Ela me diz alguma coisa que guardo como uma luz boa, de uma noite. Onde? Onde? Onde? ....)

Buenos Aires, Zezito. Ninguém está neste quarto agora. Somente eu e você, vamos, diga de novo aquelas palavras mágicas, vamos, me erga aos céus como naquela noite, vamos, repita com o hálito de conhaque, vamos, quero de novo você louco, eu sei, Zezito, que você pode me levantar neste quarto do hospital, me leve por sua mão, vamos embora janela abaixo, vamos embora ainda hoje, porque eu preciso que você me diga, como naquela noite:

“Jussara, eu sempre te amei, desde quando tu eras menina. Desde os 10 anos eu te queria, desde quando passavas, toda altiva, rumo ao Diocesano. O teu cheiro, a tua brilhantina, barata, de ervas, para mim era um lança-perfume e limo e mato do rio Ipojuca. Minha indiazinha feiticeira ...”

E eu só te respondia, rindo: “você é um louco, Zezito” .

* Do livro “A melhor noite das nossas vidas”.

 
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