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A VIDA COMO NÃO DEVERIA SER

24.07.2003 | Fonte de informações:

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De imediato, façamos a anotação de três pequeninos pontos:

a) é sintomático na revista que divulga neologismos, como Lula de Mel, o rebatismo de Tchekhov para Tchekov, com um “k”sem “h”, quem sabe para evitar a insinuação de um cacófato, a lembrança das duas consoantes unidas; b) é discutível afirmar-se que o autor de O Assassinato e Outras Histórias é Tchekhov, pois num escritor que escreveu histórias curtas com a sua fecundidade, melhor seria referir-se a coletânea, apanhado – a organicidade do volume termina por ser a de quem reúne os contos; c) é confuso o título “A vida como ela é” ao se referir à obra do russo, pois mistura o realismo de Tchekhov à descrição naturalista, à sátira caricatural, mais própria em título de relatos de Nelson Rodrigues.

Esses três pontos anotados, vale dizer, esse triângulo inscrito, já dizem bem dos limites e das incompreensões da resenha na Veja. Mas não fiquemos no insinuado, juntemos mesmo o k e o h da resenha, como ela é. Numa palavra, vejamos. Lá se escreve:

“as situações (dos contos de Tchekhov) são corriqueiras, e as tragédias apenas uma sucessão de fracassos e frustrações...” . Paremos um pouco: a resenha não se enganou de contista? Esta não será aquela típica redação-clichê-padrão, com perdão do ão, que se aplica a tudo e portanto não se aplica a nada? À primeira vista, vemos Dalton Trevisan como o modelo original desse paletó, que não engole ele, porque o número de Tchekhov é maior. Mas continuemos, vejamos:

“...Aliás, (o à-vontade da resenha ao falar do coleguinha russo é uma graça) não há um desfecho que seja em Tchekov, pois suas histórias acabam como tinham começado, no eterno retorno da mesma desolação e banalidade...”.

É uma desgraça, é uma lástima, que resenhas sobre livros de escritores, e escritores clássicos, fundamentais, do nível de Tcheckhov, não sejam feitas por escritores, vale dizer, não sejam feitas por quem é do ramo. Evitar-se-iam desastres do tipo da resenha que estamos comentando. Chega a ser uma covardia apontar falhas, erros e ignorâncias, ignorâncias básicas, como as do pequeno trecho apontado. Se não nos furtamos é porque, sem abrir mão da covardia, não podemos deixar que prosperem erros que pela força do veículo terminam por se tornar uma norma de leitura do russo, que, saibam por favor, não merece tão burro tratamento. Se não, vejam:

Hemingway, num conselho de cozinha literária, observava que o escritor deve saber mais do que aflora à superfície da página, que o processo da realização literária deveria ser como um iceberg, cuja ponta é o que se lê, mas que está sobre sólida e volumosa base assentada, ou flutuada, para ser mais próprio. Assim também deveria ser o crítico de arte, o crítico de um livro, acrescentamos. Ora, se a autora do artigo conhecesse um pouco mais Tcheckov, não diria a bobagem (bobagem, gentil palavra eufemística) de que seus contos fazem o eterno retorno à mesma desolação e banalidade do começo. Convenhamos, e isso é elementar: o personagem que não resolveu o problema em que estava do começo de um conto não é a mesma pessoa, ao fim, do começo. Se isto se desse, o conto não estaria realizado. Mais: a própria compreensão que os de fora, nós, os leitores, guardamos do seu problema não é a mesma do começo, do que, do quando éramos antes da sua leitura. E esta nossa luz, que ganhamos, importa mais que o pobre-diabo sair a contento dos impasses em que vive. Ora, e isto mais uma vez é o elementar dos elementares, nós próprios, em nossa vida, não somos os mesmos desde que nos debatemos com os nossos grandes e miseráveis problemas. Se um autor nos diz isto, queremos dizer, se um autor realiza em um destino, em atos e narrações esse problema..... é claro, esse autor subiu ao céu, ainda que seu narrado tenho descido ao inferno. Se as situações são corriqueiras (mas em que mundo mesmo esses pobres-diabos vivem?), se as tragédias vêm numa sucessão sem rumo, caímos de novo no elementar: perguntamos: dois contos são iguais porque têm o mesmo enredo? Dois contos de Maria e José, em que José matou Maria por ciúme, dois contos que se referem à mesma notícia de jornal, são iguais pelo entrecho e referência? Poupemo-nos de bater nas costas do bêbado que desce a ladeira. Por favor.

Mas grande e saborosa é a covardia. Continuemos, portanto. O que desorienta as pessoas, os leitores convencionais, desde que Tchekhov é Tchekhov, mas não Tchekov, é que seus finais não resolvem, não desamarram o nó, não respondem à situação em que se meteram e vivem seus personagens. Vejam, ou melhor, Veja: a coisa não é nem que seus contos não tenham uma chave de ouro, um grande final. Não precisaríamos caluniar para crescer no discurso, pois a verdade já é uma poderosa e exibidora do ridículo força. Veja: isto, essa ausência, esse aparente retorno, essa frustração de esperança, antes de ser uma decorrência de um estilo, de um modo de ser do escritor, era, segundo palavras do próprio:

“... Começo um conto no dia 10 de setembro, sabendo que terei que terminá-lo até o dia 5 de outubro, prazo máximo; se não o cumprir, além de ser tachado de irresponsável, acabarei ficando sem o dinheiro... É por isso que os meus inícios sempre prometem, como se estivesse começando um romance, o meio sai espremido, tímido, e o final, como num conto breve, é uma espécie de fogo de artifício...”. (Carta a Suvorin, de 1888)

É possível, claro, que essa “carência”, como ocorre em toda criação, tenha se tornado uma ferramenta para o criador, que a usou em benefício de sua invenção. Ou melhor, que fez de sua própria falta um invento. (E haveria mesmo invenção que não respondesse a uma carência, a uma falta que desconforta?) É possível. Mas a isso, a essa carência na gênese, o autor dá uma dimensão que é uma aula de arte. Veja-se:

“... Em conversas com meus confrades escritores, insisto sempre no fato de que não cabe ao artista resolver questões estritamente especializadas. Não é bom o escritor tratar daquilo que ele não entende.... Que sua esfera não comporta questões, mas apenas respostas, só pode ser dito por quem nunca escreveu e nunca lidou com imagens. O artista observa, escolhe, adivinha, compõe – só estas operações já pressupõem, em sua origem, um problema; se o problema não foi colocado desde o princípio, não há o que adivinhar nem o que escolher.... Ao exigir do artista uma atitude consciente para com o seu trabalho, você está certo, mas está misturando dois conceitos: a solução do problema e a colocação correta do problema. (Destaques de Tchekhov) Só o segundo é obrigação do artista....”. (Da mesma carta a Suvorin, de 1888)

É claro, sabemos, que tais citações não cabem numa resenha de fim de semana, que comportam mais uma pose (“o mundo não tem solução”), uma atitude (“o mundo não tem solução, e por isso...”), e um estilo (“crianças, já vi tudo, portanto...”), do que um conhecimento pacientemente adquirido e ponderado. É claro. Mas gostaríamos de ter pelo menos informações mais confiáveis. Por exemplo, é absolutamente “a ignorância como ela é” a informação de que Tchekhov antes de se tornar escritor já era médico. Para não cair na lição número 1 da compreensão do fenômeno humano, aquela que nos ensina, “atenção, redatores, ninguém se torna escritor após o curso de medicina, pois isto não é exatamente um pós-graduação de medicina”, preferimos o factual: atenção, resenhadores, as biografias disponíveis de Tchekhov afirmam que ele escrevia e publicava bem antes de iniciar o curso de medicina. Acreditem, tal informação se acha inclusive nas biografias do gênero A Vida Como Ela É.

A covardia já vai longe. Resta-nos só lembrar o último tropeço: onde se lê, na Veja, que Tchekhov “destila impessoalidade e resignação, frieza e compaixão – excepcionais ferramentas para descrever a vida ela é”, leia-se por favor o que o próprio contista escreveu sobre a sua resignação, impessoalidade e frieza:

“Escreva um conto sobre um jovem, filho de servo.... que foi educado para respeitar a hierarquia funcional, para beijar a mão dos popes e para curvar-se às idéias alheias, que agradecia cada pedaço de pão, que foi açoitado muitas vezes, que ia às aulas sem galochas... que gostava de almoçar na casa dos parentes ricos... – escreva como esse jovem espreme, gota a gota, o escravo que tem dentro de si, e como ele, ao acordar numa bela manhã, sente que em suas veias já não corre o sangue de um servo, mas o de um verdadeiro homem....”.

É com esse gênero de resignação que nosso bravo, ilustre e humaníssimo Tcheckov sobreviveu em seus dias e sobrevive aos nossos e nos nossos: contra a vida como ela é, aquela mesma que fazia o filho de um servo sorrir às pancadas e agradecê-las, até o dia em que sentiu correr em suas veias um melhor sangue.

Urariano Mota

 
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