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Cassaram Dona Nena

24.06.2004 | Fonte de informações:

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Dona Nena é uma doce senhora que tem uma pequena livraria em Paraty, a mais antiga e popular da histórica cidadezinha do Estado do Rio, entre Angra dos Reis e São Paulo. Metade livraria, metade papelaria, sempre serviu à cidade, vendendo livros, cadernos, lápis e borrachas.

Neste fim de semana, realiza-se em Paraty a segunda FLIP (Festa Literária de Paraty), promovida pela editora paulista Companhia das Letras e pelo Unibanco, dono da metade da editora, e que vai levar para lá alguns autores editados pela Companhia das Letras e mais uma ou outra editora.

Dona Nena estava toda contente, imaginando que também ia poder vender os livros levados pelos autores ou mandados pelas editoras. Mas foi proibida. Foi cassada. Ela e mais as outras poucas livrarias de Paraty.

"Bancoteca" nacional A Companhia das Letras e o Unibanco avisaram à dona Nena e aos outros pequenos livreiros de lá que, na Festa Literária de Paraty, os livros dos autores convidados só poderão ser vendidos pela "Livraria da Vila", de São Paulo, que vai instalar-se lá com exclusividade só durante os três dias.

A "Livraria da Vila" pertence a Samuel Seibel, amigo de Luis Schwarcz, sócio do Unibanco na Companhia das Letras. Imagina o leitor que é assim mesmo, numa festa particular de um banco e uma editora. Acontece que atrás disso há uma acintosa fraude pública. A Biblioteca Nacional, órgão público do governo federal, que vive de verbas públicas, é quem financiou a Festa Literária de Paraty, com R$300 mil.

O audacioso doutor Pedro Correa do Lago, presidente da Biblioteca Nacional, está usando dinheiro que não é dele para bancar negócios de banqueiros amigos e parceiros de interesses, privatizando a "Bancoteca".

A "alfa história" Quarta-feira, na reunião do conselho da revista "Nossa História", na Biblioteca Nacional, Correa do Lago, com a "Tribuna da Imprensa" de sexta-feira passada na mão, ironizou a denúncia que fiz aqui de outra fraude pública que ele patrocina em favor do Banco Alfa, de Aloísio Faria.

A bela revista "Nossa História", já no 8º número (R$6,80), publicada sob o nome e o patrocínio da Biblioteca Nacional, é uma fraude. Pertence à "Administradora e Editora Vera Cruz Ltda.", empresa do banqueiro Aloísio Faria, e é editada como se fosse uma publicação da Biblioteca Nacional.

O ágil Correa do Lago está drenando para uma revista de um banco amigo o trabalho dos funcionários e todo o precioso e riquíssimo acervo multissecular de livros antigos, fotos, ilustrações, da Biblioteca Nacional, tudo fotocopiado, digitalizado, filmado, escandalosamente pirateado.

Apenas algumas perguntas que deverão ser feitas numa indispensável auditoria do Tribunal de Contas, do Ministério Público ou da polícia: houve licitação pública? Há algum contrato entre a Biblioteca e a Administradora e Editora Vera Cruz, do Banco Alfa, e, se há, por que seria secreto? Quanto o Alfa está pagando à Biblioteca Nacional por tudo isso?

Mistura fina O múltiplo Correa do Lago está misturando as coisas. Dono da editora Capivara e negociante de livros raros, fatos e documentos antigos, ajudou a construir o magnífico acervo de fotos do Brasil antigo, que hoje está no Instituto Moreira Salles, do Unibanco, e que tem como uma das responsáveis a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, mulher de Luis Schwarcz, presidente da Companhia das Letras, parceiro de Correa.

É um mercado de milhões. Correa do Lago também é representante no Brasil da Sotheby's, talvez a maior agência de leilões do mundo e devia ter se licenciado para assumir a Biblioteca. "Misturou" as duas.

Mercadinho livreiro Essa mistura de bolsos não fica só aí. A Bancoteca Nacional virou um mercadinho de familiares e amigos. Além da Flip e da revista, há essas:

1 - Correa do Lago resolveu transformar todos os prêmios da Biblioteca Nacional em um só, de R$80 mil. Os prêmios, vários, foram criados para estimular autores novos, revelações. Ele criou um conselho particular, juntou todos os prêmios em um e já deu o deste ano ao tradutor e poeta Augusto de Campos. O único poeta consultado foi Ivan Junqueira, presidente da Academia Brasileira de Letras, que votou contra.

2 - A Companhia das Letras é que edita os primorosos romances de Rubem Fonseca, pai de Beatriz, mulher de Correa do Lago, e que merece todos os prêmios. Mas, não por coincidência, depois que ele assumiu a Biblioteca, Rubem ganhou o prêmio Juan Rulfo do México e o Camões (de Brasil e Portugal, cujos dois votantes brasileiros foram por ele escolhidos, quando sempre foram pela Academia Brasileira de Letras).

Ministro O Correa, guloso rapaz, é insaciável. Está exigindo do governo o monopólio da compra de livros didáticos e paradidáticos, que sempre foi feita pelo Ministério da Educação. Tarso Genro resiste. Até quando?

E o delírio é megalomaníaco. Diz aos amigos mais próximos que está certo de que, na reforma ministerial do próximo ano, substituirá, no Ministério da Cultura, Gilberto Gil, que está cansado e prefere os palcos.

sebastiaonery@ig.com.br

 
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