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PEQUENA HISTÓRIA DE NATAL

23.12.2005 | Fonte de informações:

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Manuela chegou perto do avô. Um pouco menos agitada que das vezes anteriores. Sua aparência refletia tranqüilidade, muito distante da constante trepidação que a fazia a mais apaixonante das criaturas aos olhos deslumbrados do "vô".

Ela não estava entendendo bem as conversas dos adultos sobre Natal, Papai Noel, presentes, amigo oculto, coisas muito além de sua compreensão infantil, mesmo para quem já demonstrava, para orgulho da família, sinais superiores de inteligência e discernimento. Sobre os comentados mimos mantinha especial interesse, apropriado às pessoas de sua idade.

Enlaçou o avô pelo pescoço em gesto carinhoso, beijou suas mãos e começou com as indagações próprias da ocasião. Sobre Papai Noel desejava saber o porquê das cores de sua roupa, o motivo de suas longas barbas brancas, quais as razões do saco levado às costas, perguntas todas elas de difícil resposta que o avô forcejava por responder em termos capazes de por ela serem entendidos. Coitadinho, por que ele é tão velhinho?

Quando falou sobre o significado do Natal, até a netinha percebeu certo desconforto do avô, especialmente a demora em oferecer resposta pronta à indagação. É que, involuntariamente, a pequena infante lançou-o num profundo mergulho até as matrizes de sua própria existência, quando menino de cidade pequena visitava os primos ricos da cidade grande. Profundo silêncio interrompeu o alegre diálogo. Manuela não desistiu da pergunta.

Repetiu-a até tirar do momentâneo torpor seu privilegiado parceiro. Nestes instantes que pareceram eternos, o velho avô estava se lembrando de passagem de sua vida quando tinha sua idade. E em todos os natais, nas ocasiões em que se aproximava a festa tão alegremente comemorada, era para ele um instante de emoção pela lembrança da primeira vez em que Papai Noel se apresentou ao vivo em sua visão de menino.

A missão do bom velhinho era tão somente a de recolher os pedidos da petizada, uma bem arquitetada ação familiar de tão bons resultados para manutenção desta bela e ilusória crença. Até aquela data lhe não fugiram da lembrança as imagens eternamente fixadas em sua retina. O bom velhinho acolhera com generoso sorriso seu pedido, feito com a timidez própria de inexperiente visitante. Nada mais do que uma bicicleta, veículo que conhecera na viagem à cidade grande e lhe causara inesquecível deslumbramento.

Haveria de possuir uma, sonhava acordado todas as noites, deslizando suavemente pelas ruas de sua terra ante os olhares cúpidos dos conterrâneos de sua idade. Sua inquietação perturbou-lhe o sono naquelas antevésperas natalinas, daí talvez o episódio haver-se fixado para sempre em sua lembrança.

As indagações de Manuela acabavam de lançá-lo nas profundezas da memória e na recordação da presença acolhedora e acariciante de Papai Noel. Agora no outono da existência, o avô jamais se esquecera do malogro que encheu de tristeza seu coração-menino.

Haveria de ter no diálogo com Manuela os cuidados para lhe não causar desapontamento da mesma dimensão do que o assaltara nos idos da infância. Enquanto despistava a neta com enredos variados sobre as festividades de fim de ano, imitando o vozeirão do velhinho, mostrando-lhe as razões pelas quais as pessoas se cumprimentavam alegremente e formulavam votos de felicidades, seu pensamento balouçava entre a alegria da promessa de Papai Noel e a enorme frustração do dia de Natal, quando nos sapatos, onde a tradição mandava colocar os presentes, viu apenas uma bicicleta de brinquedo. Manuela notou o avô triste.

Suas lágrimas teimavam em voltar em todos os natais na lembrança amarga da promessa não cumprida de Papai Noel. Nem mesmo as lépidas cantigas, nem os afagos dos votos de benquerença, nada conseguia suplantar aquela, para ele, triste história de Natal. Confortava-o apenas o olhar sorridente de Manuela, incapaz de entender a lágrima fugidia que lhe corria pelos vincos da face cansada

 
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