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Café com Pão

22.03.2004 | Fonte de informações:

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Era fornalha! Era vulcão! Explodia em erupção. Estranhamente sua lava não transbordava. Realimentava a combustão, a ebulição. Céu e inferno, perdoa-me Senhor, se uniam em nome da irracionalidade emocional humana, completamente dominados pela fúria de vendaval incontrolável e absoluto.

Gente, muita gente vindas do Córrego São Sebastião, do Alto do Pascoal, de Fundão, de Beberibe, da Campina do Barreto, do Arruda. Todos rumavam a um único destino, atraídos por algo indescritível, o epicentro daquele fervilhar: O Largo de Água Fria ( * ). Nesses dias, o abrigo de Seu Jaime, por puro milagre não desmoronava, arrastado pela multidão enfurecida.

Visões delirantes: falsos palhaços, piratas, morcegos, caubóis, zorros, índios, diabos, colombinas, ciganas. Água, talco, algum confete e lança perfume. Seu jato gelado, seu cheiro delicioso e inconfundível está gravado para sempre no mais profundo de nosso ser.

Mulheres. Muitas mulheres sumariamente vestidas, acintosamente de coxas à mostra, rostos e lábios pintados de forma extravagante. Pura tentação e desejos inatingíveis afogados, com todo arrependimento de adolescente duramente reprimido, na solitária masturbação vazia e sem graça alguma.

O centro do Universo inflamava-se descontroladamente com a passagem do Maracatu Nação Elefante. Seu ritmo forte e inconfundível, oriundo das entranhas das senzalas, chamado de baque virado, ao açoite das alfaias é rijo a ponto de estremecer tudo a seu redor. Sua Rainha, Dona Santa, com o peso dos anos já não podia evoluir, porém todos queriam vê-la e lhe pediam bênçãos.

No ecossistema do largo de Água Fria concretizavam-se inúmeras manifestações folclóricas-populares: clubes, troças, blocos, caboclinhos, bois, ursos, papangus além de outras manifestações não específicas. Naquele espaço, a criatividade, a irreverência e a irracionalidade dominavam e contagiavam qualquer vivente. Éramos todos animais!

Apesar de toda essa ebulição, há um jovem, marciano talvez, louco provavelmente, que tenta ir na completa contra mão. Quer estudar Física enquanto o mundo a sua volta explode em prazeres imediatos e carnais. Não! Todos os seus sentidos estão na mais perfeita ordem. Ele vê, apesar da miopia avançada, ouve, cheira, sente o gosto amargo de si mesmo e desperta para o turbilhão ao ser atingido, no terraço de sua casa à rua Alegre, por fenomenal banho de água suja aplicado por transeuntes desalmados. Tudo bem, agora, arrastado pela correnteza incontrolável, com a consciência limpa, afinal era impossível naqueles dias ser feita qualquer outra coisa, ensaia desajeitados passos, enquanto olha sem jeito e disfarçadamente para a morena ao seu lado, na calçada do cinema Império.

No ano da graça de 2004 ele volta ao largo carnavalesco de sua infância-adolescência e ainda o encontra repleto de pessoas numa completa desorganização anárquica. Apesar de já ter perdido todas as ilusões esforça-se por guardar uma derradeira: a de que Água Fria ainda mantém a sua tradicional rebeldia popular e está para além dos pólos oficiais de animação.

Texto dedicado, em vida, a Urariano Mota e Denizar Albuquerque.

( * ) Água Fria – Subúrbio da cidade de Recife, Pernambuco, Brasil.

Zanoni Carvalho da Silva zcs@cin.ufpe.br

 
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