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ROMEU E JULIETA À BRASILEIRA

21.11.2003 | Fonte de informações:

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Como falar, sem cair no lugar-comum, sem desenterrar velhos clichês, de um casal de jovens enamorados que é morto? Dizer, por exemplo, que hoje o amor perdeu seu templo e o tempo? Ou seria melhor pegar o sinuoso desvio da retórica? Algo como, “Senhores, nestes nossos dias o sentimento mais doce é o gosto e salgado do sangue...” . Poupemo-nos. Os jornais da semana já fazem a sua aparente anti-retórica. Na ânsia da objetividade, e na pressa do registro, mas sem a bela letra do escrivão de polícia no boletim de ocorrências, restringem-se ao factual.

Os fatos

Felipe Silva Caffé, 19 anos, e Liana Friedenbanch, 16, namorados e alunos do conceituado Colégio São Luís, em São Paulo, saíram para acampar em uma propriedade abandonada, em meio a matas. Dois dias depois, Liana, uma menina de classe média alta , não volta para casa como acertara com os pais. Estes descobrem que ela havia mentido, porque a filha pedira para viajar com um grupo de amigas da comunidade israelita, quando na verdade....

Toda a imprensa anuncia o desaparecimento dos namorados, depois que amigos divulgam fotos na internet. Dez dias depois a polícia civil de São Paulo prende o menor R. A . A . C., 16 anos, conhecido como Champinha. Ele confessa a participação no assassinato do casal e leva os policiais até o local onde os corpos foram deixados. Felipe Silva recebera um tiro na nuca, Liana Friedenbach, 15 facadas.

Na vizinhança dos fatos

No terreno mais próximo dos fatos, Liana sofreu abuso sexual durante quatro dias. No terreno em que os fatos surgem dos depoimentos, três dos cinco acusados violentaram-na. Ela não teria esboçado qualquer reação aos sucessivos estupros, porque se achava em estado de choque. E o choque era o haver ouvido o tiro que abatera o namorado, e se encontrar sozinha, à mercê dos cinco acusados. Destes, o menor, quando viu Liana a caminhar pela mata com o namorado, teria dito para o seu companheiro de caça: - “Olha que menina gostosa”.

Em 5 de novembro, em razão de haver “sujeira no pedaço” (muitos policiais circulavam pela mata), Champinha teria levado Liana a um lugar mais oculto da mata , pela madrugada, e tentou degolá-la. Depois golpeou-a na cabeça com a faca-peixeira. Quando a mocinha caiu, o adolescente concluiu o seu intento, golpeando-a mais vezes nas costas e no tórax. Sem fúria, supõe-se. Somente para ter certeza de que ela estava morta e definitivamente morta. O que tem lá sua lógica.

Por que Romeu e Julieta

A referência imediata ao casal de Shakespeare se dá porque é uma relação de jovens apaixonados que termina de modo trágico. Esta é a aproximação mais miserável, de menor dose de imaginação. Mas há outras, um pouquinho menos miseráveis. Se os Friedenbachs, de Liana, e os Silvas Caffé, de Felipe, não constituem bem os Montecchios e os Capuletos, os ramos brasileiros pelo menos guardam semelhança com os italianos em alguns pontos. O primeiro deles é que Liana vinha de pais judeus, digamos, para os padrões brasileiros, ricos. Enquanto Felipe era de uma família, em qualquer padrão, pobre. Depois que acharam os corpos, a mãe do rapaz chegou a reclamar que a imprensa só destacava a dor dos Friedenbachs. “Pobre também sente”, chegou a dizer.

Eles se conheceram em um bom colégio, o que para qualquer pobre é uma festa. E para esse colégio Felipe entrou, como estudante, pelo artifício, pela máscara de renda de uma bolsa de estudos. Se algum leitor achar que nessa altura, este que lhe escreve força a mão, tente pôr-se no lugar, se por tal situação nunca passou, de estudar num ambiente que não é o de sua rua, numa escola de gente que mora melhor que seus pais, “igualado” na farda, escondido numa renda de bolsa de estudos. E depois me responda se isto não é exatamente uma máscara, que o estudante diferente aferra à cara todos os dias “Desta mistura, boa coisa não podia sair”, diria qualquer conservador.

Há, no entanto, um dado que aproxima com mais naturalidade o casal brasileiro do casal clássico de Shakespeare. Em ambos os amantes buscam um lugar, uma situação, que supere as limitações de ódio, de organização da sociedade. E para isto crêem que tendo apenas o sentimento, o amor, a tudo vencerão.

“Como chegaste até aqui, dize-me e por quê? Os muros do jardim são difíceis e altos de subir... ”, fala Julieta. Ao que responde Romeu: “Com as leves asas do amor transpus estes muros, porque os limites de pedras não servem de empecilho para o amor. E o que o amor pode fazer, o amor ousa tentar”.

O casal de jovens brasileiros foi morto quando buscava um lugar afastado da família, da cidade, num sítio remoto da mata, onde as diferenças sociais se anulassem. Onde só o amor sobreviveria, pensavam. Encontraram-se com a cobiça e a fome dos mais miseráveis.

Por que à brasileira

Aqui atingimos o ponto mais grave. O mais grave do ridículo. Porque nós brasileiros temos o dom de transformar a tragédia numa tragicomédia. O que é simplesmente trágico.

A nossa polícia, que adota o método de um pontapé, um golpe e uma pergunta, já conseguiu todas as respostas que tal investigação consegue ter. “Tudo está esclarecido”. Dos cinco envolvidos, o menor idealizou os crimes sozinho! Idades dos cinco presos: Antonio Caetano, 50 anos; Antonio Matias, 48; Aguinaldo Pires, 41; Paulo César da Silva, 32; R. A . A .C., 16 . Palavras de um dos delegados:

“O adolescente é um assassino e chefe do grupo. Os outros têm medo dele, e durante a acareação, não olhavam para o rosto do menor, ou desviavam o olhar”.

Os canais de tv que possuem programas especializados no pânico, armaram o circo. Entre um helicóptero que cai, de preferência com muitas vítimas, e sobre depósitos de inflamáveis; entre homens que são atirados ao mar por um cargueiro, de preferência com todos mortos, de preferência melhor comidos por tubarões, para a carcaça dos corpos ser exibida no horário das cinco da tarde; entre balas trocadas entre polícia e bandidos, de preferência que atinja o cinegrafista, para que todos vejam a imagem rodando na tela, enquanto um filete de sangue escorre na lente, os canais iam da exploração mais sórdida (esperava-se, tamanho é o grau de perfuração, esperava-se sempre a pergunta, ao delegado, “Dr, quantas vezes por dia a jovem era estuprada?”) à provocação de lágrimas nos pais: - “O que o senhor está sentindo? Como era a sua filha? O que o senhor espera para esse canalha? O senhor perdoa esse animal que degolou sua filha?”

Na imprensa escrita pulularam fórmulas de uma nova educação, especialmente daquela que prepare o filho para viver neste circo de horrores. Isto é, trocando em miúdos: os pais passam a retirar o terror das próprias costas para jogá-lo nas costas da criança. “Cuidado! Entre as flores sempre se esconde uma serpente! Atenção! Perigo!”. Toda a paisagem transformada num crânio apoiado em duas tíbias. Outras pessoas, com fama de sensatas, e até piedosas, como Dom Aloísio Lorscheider, passaram a defender a redução da maioridade penal. Até a idade de 16 anos. Para completar o clima, melhor dizendo, como uma perfeita adequação a esse clima de lei do talião, um deputado fascista chamou uma colega deputada de “vagabunda”, puta, em bom português, porque ela se opunha a tal legislação do terror. E desafiou-a, enquanto empurrava-a, na frente das câmeras:

- Leve esse estuprador pra sua casa!

Moral da história

“Como o fogo e a pólvora que, ao se beijarem, se consomem”, a reunião de tais elementos, do estuprador ao deputado fascista, levam a uma só desenlace: não há moral nessa história. Só explosão.

 
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