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MARIA HELENA

20.07.2003 | Fonte de informações:

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Quis o acaso, o acaso e a necessidade, que eu resgatasse pela internet essa composição, Maria Helena. Melhor do que ela, talvez, que também resgatasse a interpretação que dela fizeram os Índios Tabajaras. (E não sei, a essa altura, se as palavras que me vêm conseguirão permanecer no limiar da razão.)

Resgatar aos ouvidos, porque na lembrança e aos olhos, sempre me acompanhou Maria Helena. As gerações mais jovens não sabem, mas os Índios Tabajaras tocavam violão elétrico, que deve ser, imagino, algo diferente da guitarra elétrica do rock. Se eram mesmo índios, eu não sei. Deviam ser, porque índio nunca esteve bem cotado no mundo de Cristo. Deviam ser, porque se não fossem índios, pra que diabo de marketing eles se apresentariam como se fossem? Os Índios Tabajaras, que eram dois, se mostravam em capas de discos, vinil, de 78 rotações, vestidos a caráter, com um cocar de chefe apache. E não riam, por favor. As coisas mais primitivas da infância se retomam assim, com todo o primarismo e ausência de cultura, e de civilização, ausente das idéias corretas, às vezes até falsamente corretas, que ganhamos na maturidade. Índios... Mas como tocavam bem! Que virtuosismo por cima da caracterização de índio de filme americano!

Desculpem a concessão feita à informação, à razão, e à rima. Pois o que importa mesmo dizer não foi até aqui dito. O que importa é, ouçam, por favor, Maria Helena, e saibam, por favor, definitivamente, que recordar é uma forma de eternidade. Saibam, porque ouvindo Maria Helena eu soube, eu vim a saber que para nós mortais, que para todos nós que temos um fim certo, recuar no tempo, recordar, é a única e melhor forma de atingir a eternidade. Queremos dizer: o tempo passado, quando retomamos esse tempo passado, nós elastecemos a sua duração, o tempo passado deixa de ser passado, ele se faz presente, ele se projeta até mesmo em nosso futuro imediato, porque esse tempo que se foi está entranhado em nós, em nossos músculos, em nossa pele, em nosso suor.

Ouçam e repitam Maria Helena, ao infinito. Penetrem enfim na eternidade. Pois que título, que nome bonito tem essa composição, bonito já a partir do nome mais belo e simples de nossa língua, Maria. Os demônios acharam pouco e acrescentaram, Helena. E então, a gente se pergunta: por que a lembrança, por que a recordação é sempre um processo de montagem? Por que, do passado, somente recordamos o que mais nos comove, como se o passado tivesse sido um paraíso? Ou melhor, por que até a lembrança de um sofrimento no passado nos leva até o absurdo de crer que era bom sofrer naquele tempo? Por que excluímos de tal maneira os gritos que demos e os chicotes e os pontapés que sofremos? Por quê? E então perguntamos, importa mesmo lembrar esse sofrimento escuro quando a gente possui a felicidade de Maria Helena? Importa mesmo lembrar tais porradas quando temos a associação desse nome a uma certa namorada, que tivemos ou sonhamos ter, de blusa de organdi, azul, com bolinhas brancas, com o perfume Desejo, em uma noite no escuro no subúrbio, na cidadezinha perdida, no interior de onde viemos? Pois estamos sempre voltando. Pois queremos ser eternos.

Toquem por favor outra vez Maria Helena.

Urariano Mota Escritor, autor do romance Os Corações Futuristas

 
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