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CRIME E SOLUÇÃO *

19.07.2004 | Fonte de informações:

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“Uma desgraça abafa outra”, assim pensaria a delegada, se àquele suicídio desse o nome de desgraça. Mas um inseto, um reles percevejo, na mesa a incomodava. Isto, esta repugnância, lhe retirava a paciente concentração. “Primeiro”, ela se dizia, “esse crime”, e o bichinho circulava afoito à sua vista, não lhe prestava nenhuma consideração, ia ao telefone, passava pelo volumoso Código Penal, ameaçava roçar-se nos filtros dos cigarros. “Primeiro...”. Quis bater-lhe firme, esmagá-lo, mas desistiu com horror ao ponderar que o sangue ficaria em suas mãos. E o bichinho, como se soubesse imune ao ataque, circulava. “Vejamos. Primeiro...”. Era um primeiro sem segundo. Pior, um primeiro que não tinha corpo, só cabeça, e a cabeça era a cabecinha escura do inseto, que rodava. Então ela procurou algum objeto que a intermediasse. Achou o cinzeiro, mas o percevejo voou. Então, antes do crime, anterior a qualquer análise, a delegada se perguntou: “percevejo voa?”. E ficou a procurá-lo, indagando aonde fora o animalzinho.

Eis que volta, anjo negro, pousando suave junto às folhas do Código. Rumina. Como é possível achar-se a solução de um crime com um percevejo que a dispersa? Pensou no filho, olhou o seu retrato, pensou no marido, filho da mãe, e no percevejo. Se pudesse matá-lo, o animal pequeno, com um tiro de revólver, era bom. “Você é louca?”. Então viu como era bom ter um revólver, ela crescia em poder, de fogo, e como era bom ser uma autoridade, bem diferente das outras mulheres, mulherezinhas fragilizadas. Mas o que era ela diante de um percevejo? “Essa delegacia é imunda. É assim que o Governo trata os seus policiais. Nem verba para limpar um gabinete ... É vergonhoso. Como é que posso receber pessoas decentes?”. E olhou suas unhas, bem cuidadas, e se sentiu ela mesma um ser alado, de pistolas, atraente.

O telefone toca. Ela já instruiu a sua secretária para que diga que ela se acha em reunião. Só está para o Secretário de Segurança. Fechada na sala, ela precisa refletir. Um rumo, uma conclusão final para seu inquérito. O tempo, já não há mais tempo. Como voam 30 dias! Próximos do fim, “para onde foi o percevejo?”. Aqui! Maldito. Esmaga-o com o cinzeiro. Eca. Ela não quer nem vê-lo. Acostumada à visão de corpos rasgados no IML, a delegada furta a vista ao bichinho que se fez uma pasta, de resina pegajosa, como se temesse, no inseto, o ecce homo esmagado, inconveniente, pasta de carne, intestinos e sangue. Em seu gabinete, não. Em seu perfumado ambiente, não. Ali é a sua sala de visitas. Pega um lenço de papel, e a meio ver limpa o fundo do cinzeiro. Então dobra o lenço, numa delicada operação de economia, e remove os restos asquerosos. Fica o mau cheiro. “Mais esta...”. Levanta-se, e com uma garrafinha de álcool umedece a nódoa. Remove-a, mais uma vez, com um novo lenço. Senta-se. Resquícios de cheiro de mato sujo se desvanecem. Agora, sim.

“Primeiro, esse crime. O que tem a ver?”. Outro percevejo. Como uma ressurreição. Ela suspira. Gira a cadeira para a janela, despreza-o . “Percevejo filho da puta nenhum me desconcentra”. Miríades de bichinhos lhe vêm ao pensamento. “Sujeira de delegacia”. Mas à força dura de vontade ela joga os diabinhos, os bichinhos, para o fundo do cenário, quem sabe, para recuperá-los em pesadelo quando for dormir. “Vamos cuidar dos animais grandes... O que tem a ver esse crime? Primeiro, ele não está afeto à minha delegacia. Este problema não é meu. Certo? Certo ...”. E pára, em dúvida. “Claro, não é meu”. E fala-se: “Doutora, aprenda. Cada macaco no seu galho. Não vá se meter em delegacia que não lhe compete. Chega”. E vira mais a cadeira, ficando de costas para a mesa. Por resguardo, mantém-se afastada. “Isto. Nada a ver. - O tempo voa, doutora. - É ... que conexão pode haver? Apenas pessoas do mesmo Colégio. Só. A coincidência pára aí. E ainda tem o saque. Todos criminosos, de um modo ou de outro... Caceta! Eu não posso concluir um inquérito pelo indiciamento de um Colégio inteiro. Da Direção ao porteiro. Caceta!”.

Um homicídio, um suicídio, um saque, a mente da delegada vai aos 3 pontos, procurando-lhes uma relação, como se montasse um quebra-cabeça lógico. Não lhe bastasse a limitação de ser policial, que em vez de se antecipar ao crime, atua em sua retaguarda, pois sem crime acontecido nenhuma investigação acontece, a doutora Carla reduzia ainda mais esse limite. Ela procurava o nó da trama, desfazer o nó da trama, como no artifício das novelas policiais, onde ao final todas as coisas se explicam. Bastar-lhe-ia uma página, uma só página, que relacionasse os indícios espalhados ao longo da trama, ocultos à vista desarmada, esclarecidos e explicados ao fim por um cérebro de feiticeiro. Cérebro lógico, mas de artifício, porque tanto de bruxo quanto de cientista. De artifício também porque somente resolve os problemas que antes escolheu, com autênticas soluções de deus ex machina. Sim, ainda que não se dissesse, era isto o que a delegada queria – uma solução que fosse um desfecho inesperado e ao mesmo tempo tudo explicasse e resolvesse. Um deus baixado no palco, ordenando: “este sai, aquele fica”. Então a delegada se diz:

“Vejamos ...”. E o deus não baixava. A dificuldade é que ela possuía não só um problema, mas um complexo de situações favoráveis ao crime. Situações “criminológicas”, ela poderia dizer. E mais uma vez ela se limitaria. Pois o que era o Dom Vital? – Era uma educação de farsa, com a particular diferença, no Dom Vital, de ter perdido os sinais exteriores de respeitabilidade. A proletarização geral dos mestres ali havia adquirido a marca e o marco da miséria, material e humana. A farsa geral dos mestres que fingem que ensinam, o quê, esqueçam, e de alunos que fingem aprender, o quê, mais uma vez esqueçam, ali recebia o rasgado véu da lembrança dos tempos áureos do Colégio. A saber, uma instituição respeitável na farsa, como todos os outros colégios. Agora, não. Os troféus e medalhas recolhidos pelo porteiro eram o seu último véu arrancado. E o que era, enfim, no presente, o Caso Dom Vital? – Era o laboratório onde, ou melhor, era a explosão dos gases da matéria apodrecida. Pois não é próprio de gases de fezes a detonação?

Como se vê, o Colégio e o Caso Dom Vital eram um complexo que ou não cabia no Código Penal, ou, se se promulgasse um revolucionário e jacobino Código, estaria incurso em quase todos os artigos da nova ordem. Era, portanto, largo demais o problema para se fechar em três variáveis, homicídio, suicídio, saque. Impossível. Seria como enquadrar na lei de proteção aos animais o esmagamento de um percevejo pela delegada. “E eu sou isso, delegada de percevejo?...”. O seu pensamento fugia dos objetivos. Pois havia que: a) enquadrar-se o crime; b) deixá-lo circunscrito à sua delegacia; c) desenredar uma história de indício coerente e explicativa.

“Bando de percevejos. Isto. Sujeitinhos sedentos de sangue. Sim. Atacam a ordem. Isto. Atacam e voam os bichinhos. Para o céu? Eles não têm entrada no céu. Só os anjos. O anjo de Cristina. Os seus olhos verdes abertos. Naquele birô havia percevejo? Urina, sim. Esperma. Por que esse percevejo não comeu o pau? Porra, desgraça. Porra. Um banho de sêmen em cima dos bichinhos. Eles iam ficar colados, fodidos na gala. Caceta!”. Então ela se coça na vagina, acintosamente, numa imitação do modo de quem se coça nos testículos. Falta. Que falta faz um deus poderoso, que tudo resolvesse, assim que baixasse nessa história de porra, tabaca e sangue.

A delegada sente um cheiro de explosão no ar. De gás e de pólvora. Seria como se ela, se não apontasse logo um culpado, fosse a responsável pelo crime que viria a seguir no Colégio. A sua ação, vale dizer, o seu inquérito concluído, inibiria o criminoso, até mesmo o criminoso que descansasse à sombra da impunidade. Principalmente este, sim, seria inibido, ele, o criminoso que ganhasse a graça do perdão, porque o indiciamento não o alcançou.

Como sempre acontece, quando temos muita coisa a dizer e o tempo é curto, os pensamentos da delegada não se completavam, queremos dizer, ocorriam-lhe pensamentos como uma escrita sem parágrafos e sem pontos, cujas orações apontam para encruzilhadas, de caminhos que não se trilham até o fim. Assim, ao sentir um cheiro de explosão no ar, a doutora Carla queria dizer, por seu nariz de intuição, que naquele laboratório do Caso Dom Vital os crimes não parariam. Ele, o crime, já não conhecia limites, estava sem freios, os próximos passos seriam a chantagem, a ameaça de revelação de segredos até então mantidos por conveniência, a fraude de documentos, de cheques, até chegar, é claro, aos mais rotineiros homicídios. Pois lá estão eles, “os percevejos”, como a delegada passou a chamar os mestres em sua mente. Havia portanto que inibi-los, ou seja, apontar um culpado, para que os gases putrefatos fossem reprimidos. Ao dizer isto, ela os via em pé, entre fumaças tóxicas subindo pelo ventre do professor Gusmão, de Cássio, de Santiago. Eles olhavam para cima, como se subissem por elevador, rumo a um sótão de trevas e morcegos. Eles jamais se regenerariam, evidente. Estariam prontos para mais um crime. Ah se houvesse uma pena capital, morte para todos, sem distinção, para que fosse limpo todo o podre cheiro!

[Mas como se limpam os percevejos? Que caldo próprio gera os percevejos? O Estado continuará a punir os criminosos que a sua atuação favorece? Poderia o Estado punir toda a sociedade, esmagá-la e matá-la toda? Se tal acontecesse, o Estado ficaria esvaziado, iria ao absurdo, pois o percevejo é um elemento de equilíbrio ecológico. O Estado gera percevejos e se nutre deles. A sociedade é o que prega ou o que faz? Afinal, foder donzelinhas, desejar ninfetas é ou não um valor erótico da moda?] Isto passava como um fundo rápido na paisagem em que ela não queria nem possuía a competência de se deter.

“Eu sirvo à Lei. Não me cabe discutir o mérito. Cumpra-se a Lei. Isto já vai longe demais pro meu gosto”. Ao indiciamento. Ao culpado. O culpado deveria satisfazer à sede de vingança da sociedade. Deveria ser o final feliz que realizasse o princípio de que o crime não compensa. Isto. O criminoso não precisava ser, necessariamente, o homem que esganou a vítima. “O culpado é o mais provável. Culpado é aquele em quem se realiza a vingança. Isto. Bendito percevejo. Graças te dou por encontrar a minha pista”. O que a delegada estava dizendo-se é que num universo de tantos homens, criminosos, qualquer um satisfaria à sede de punição do crime. Ele realizaria todas as condições necessárias para o crime. Punindo-se um, os demais, percevejos inteligentes, debandariam. Para outros crimes, é certo, mas não de imediato. O segundo criminoso daria uma trégua, até que este caso estivesse definitivamente ... encerrado, esquecido, fora da lembrança e da mídia.

“Des-can-se”, a delegada soletrou, como uma criança que pela primeira vez consegue descobrir uma palavra escrita. Repetiu-se: “Des-can-se”. E quase chorou de alegria. Coçou-se, exultante. Quase desce de joelhos, quase põe entre suas duas mãos, como num amuleto apertado em prece, o maravilhoso percevejo que ressurgira. E agora via, já sem medo e asco, agora via: um, dois, três, quatro percevejos em trabalhosa jornada, no Código Penal, na agenda, sob o telefone, indo ao retrato do filho sobre a escrivaninha. Ah, este aí não. “Sai, desgraçado. Volta ao Código”, e deu-lhe um peteleco. Então falou em voz alta para a sala vazia:

- Por que não pensei nisto antes?

Ergueu-se, e, triunfante, abriu a porta da sala:

- Convoque a imprensa para uma coletiva – disse à secretária.

- Para quando, doutora?

- Para as onze horas. De hoje. Diga-lhes que tenho uma comunicação importante. Mas preste atenção: até lá, eu não estou para ninguém.

E voltou a entrar em sua sala, trancando-se. Precisava recompor os fios de sua engenhosa solução, até que chegassem os outros percevejos, os da imprensa.

* Da novela “ O Caso Dom Vital” .

 
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