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Monumento ao escritor Bulgakov escondido no seu apartamento

17.02.2005 | Fonte de informações:

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Presentemente, o apartamento aloja uma misteriosa organização de divulgação cultural com o nome "Bulgakovski Dom" (Casa de Bulgakov). Se nos lembrarmos de como o escritor ridicularizava a ideia de centros de divulgação cultural, a ideia de instalar, em homenagem ao satírico, um centro de divulgação cultural no seu apartamento não parece muito bem pensada.

Uma escada desgastada pelo tempo e pelo andar dos moradores e visitantes leva ao último andar, as paredes ostentam pinturas, autógrafos e inscrições em toda a diversidade das fantasias dos seus autores, evidentemente ardentes admiradores da obra de Bulgakov. A inscrição que mais surge diz, dirigindo-se a Satanás personalizado em Voland no romance "O Mestre e Margarida": "Voland, volta! Moscovo está cheia de canalhas!".

Os leitores devem lembrar-se do enredo do romance que se desenvolve neste mesmo prédio e neste mesmo "apartamento mau", que pertencia, antes da revolução de 1917, à mulher de um joalheiro, e que por esta mesma janela escapava um Espírito Impuro.

Para os pesquisadores da obra de Bulgakov, o prédio onde morava o escritor foi proclamado na baixa Idade Soviética como residência colectiva de comuna exemplar e devia servir de modelo para todo o país.

Todavia, esta ideia romântica terminou em nada, ou melhor dizendo em nada de bom. Os residentes desmontavam o parquete no corredor e levavam tacos para acender o fogo nos seus fornos que cada um havia construído no seu quarto, partiam lâmpadas no hall de entrada, brigavam-se e batiam-se e cuspiam às escondidas nas panelas uns dos outros.

Bulgakov ridicularizou essa pequena utopia na novela "Casa-Comuna de Trabalhadores" e uma outra utopia, já grande, de reeducar o homem no romance "O Coração do Cão". As duas obras haviam sido escritas neste mesmo apartamento onde instalaram o monumento. A porta do apartamento está ferrada, o apartamento-museu só está aberto às excursões. A visita deve ser antecipadamente marcada. Numa palavra, não é nada fácil vir ver o monumento ao grande escritor.

O monumento representa a figura do escritor em gesso sentada numa cadeira. Não é grande, tem o tamanho um pouco menor da altura do homem. Olhando para o monumento, fica-se a pensar: será que o grande escritor mereceu que Moscovo lhe agradecesse com um monumento em gesso? Por que é que o monumento está no apartamento e não na rua? A directora do centro Svetlana Kostina sublinha: o monumento foi executado em estilo clássico, nada de gatos nem de fogareiros.

Da explicação da directora decorre que o Bulgakov em gesso foi uma resposta à grandiosa ideia do Presidente da Câmara Municipal de Moscovo, Yuri Lujkov, de montar um monumento a Bulgakov na Patriarchikh Prudakh (Lagos do Patriarca). Foi aberto um concurso que foi vencido pelo escultor Aleksandr Rukavichnikov, autor do monumento ao escritor Nabokov na Suíça. A Câmara Municipal de Moscovo disponibilizou-lhe 70 milhões de rublos.

Segundo o projecto de Rukovichnikov, o monumento deveria representar Bulgakov em bronze sentado num banco semi-destruído, Jesus Cristo caminhando sobre as águas do lago e o fogareiro de Satanás, de 12 metros de altura, com cenas do romance em baixo relevo.

Os moradores dos prédios ao redor dos Lagos do Patriarca levantaram-se contra o projecto. Não tiveram nada contra Bulgakov em bronze, nem Cristo caminhando sobre as águas. Ficaram indignados com o fogareiro, interpretando-o como hosana ao Espírito Impuro e paródia do fogo eterno junto da Muralha do Kremlin.

A comissão de construção habitacional de Moscovo decidiu transferir o monumento para as colinas Voroboiovi, perto da Universidade Lomonossov e do mosteiro de Santo André, onde, aliás, termina o romance, tendo riscado o fogareiro do projecto.

Em Julho de 2004, começaram as obras preparativas. De repente, como uma trovoada no céu claro, explodiu a declaração do director da Biblioteca Sinodal do Patriarcado de Moscovo, arcipreste Boris Danilenko: "Não somos contra Bulgakov nem o seu romance, tanto mais que muitas pessoas chegaram para junto de Cristo através desta obra. Mas não misturem os géneros diferentes. Neste local havia anteriormente um cemitério de pessoas mortas de peste na Idade Média. Onde está o cemitério só deve estar um cemitério, não se podendo nem pisar neste local. Montar tal monumento em cima da vala comum é algo semelhante à obra de Voland".

As obras pararam. Os paroquianos dirigiram ao Presidente Putin o pedido de não manchar o local santo e construir aqui uma capela para rezar pelo eterno descanso dos mortos.

O monumento em gesso foi a resposta ao escultor Rukavichnikov e a Yuri Lujkov. Um monumento no apartamento! O truque mais recente de Voland.

Anatoli Korolev, analista político da RIA "Novosti"

 
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