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PERCURSO TRIUNFAL DO FILME "O REGRESSO"

16.10.2003 | Fonte de informações:

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Lembremos que no Festival Internacional de Cinema em Veneza (27 de Agosto - 6 de Setembro) ocorreu uma verdadeira sensação: o principal prémio "Leão de Ouro" foi conquistado pelo filme "O Regresso" do realizador estreante russo Andrei Zviaguintsev. Ao mesmo filme foi atribuído também o "Leão do Futuro", prémio pela melhor estreia. Deste modo, os dois principais prémios foram conferidos a um só cineasta: caso sem precedentes em todos os 60 anos de existência deste mais velho festival de cinema do mundo. Como disse o realizador, durante 15 minutos o público aplaudiu de pé o filme. O triunfo do filme de Zviaguintsev é tanto mais surpreendente quanto "O Regresso" é o primeiro trabalho deste realizador no grande cinema. Quanto ao cinematógrafo russo, esta foi a sua terceira vitória em Veneza: em 1962 recebeu o "Leão de Ouro" o filme "A Infância de Ivan" de Andrei Tarkovski, em 1991 o mais alto prémio deste festival de cinema foi conquistado pelo filme "Urga" de Nikita Mikhalkov. "A Infância de Ivan" foi uma estreia de Tarkovski no cinema tal como "O Regresso" de Zviaguintsev, e não é por acaso que nos últimos tempos estes dois realizadores são comparados cada vez com maior frequência e até Zviaguintsev é qualificado como novo Tarkovski.

Mas, como se vê, o percurso triunfal do filme russo pelo mundo não termina nisso. "O Regresso" é convidado para cerca de 50 festivais internacionais de cinema e os direitos à sua exibição foram adquiridos por mais de 20 países do mundo.

Em Outubro o Comité russo de nomeação de candidatos para o "Oscar" chefiado pelo realizador Vladimir Menchov, laureado em 1980 com este mais prestigioso prémio cinematográfico do mundo pelo seu filme "Moscovo não Acredita nas Lágrimas", apresentou "O Regresso" ao concurso do prémio da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood na nomeação para o "Melhor filme estrangeiro do ano". Portanto, a sorte sorrirá, possivelmente mais uma vez ao filme russo.

Parece que os espectadores russos são os últimos a assistir ao filme do seu compatriota o qual fez tanto barulho em todo o mundo. A estreia oficial do filme em Moscovo teve lugar a 14 de Outubro; em São Petersburgo "O Regresso" foi entregue à rede de distribuição a 9 de Outubro; em Novossibirsk, cidade natal de Andrei Zviaguintsev, os espectadores assistiram a este filme pouco antes, ou seja, a 18 de Setembro. Para o realizador Andrei Zviaguintsev o início da exibição de "O Regresso" no seu país é especialmente importante porque, como diz, realizou o filme principalmente para o espectador russo. Tanto mais valioso é o reconhecimento mundial de "O Regresso", um verdadeiro filme russo, produzido sem levar em consideração a sua acolhida no Ocidente.

No entanto, talvez só as pessoas pouco curiosas não se perguntassem: como aconteceu que um tal Zviaguintsev não conhecido de ninguém, que não era realizador, mas só actor, pôde não só realizar um filme profissional mas também o levar a um dos mais prestigiosos festivais de cinema do mundo? E aqui cumpre recordar a famosa expressão: "Cherchez la femme!" Foi justamente Raissa Fomina, directora da agência distribuidora Inter Cinema, que enviou cassetes com "O Regresso" às comissões de selecção para três dezenas de prestigiosos festivais internacionais de cinema. E a sua enérgica actividade proporcionou os mais evidentes resultados. Aconteceu o único caso "sui generis" em que as comissões de selecção dos festivais internacionais de Locarno, Montreal e Veneza incluíram simultaneamente o filme russo nos seus programas. Os autores do filme foram colocados perante a opção e escolheram Veneza. No Outono o filme foi exibido também no 28.º Festival Internacional de Toronto.

O enredo do filme é simples à primeira vista: à vida de dois adolescentes regressa inesperadamente o seu pai que eles não viram durante muitos anos. Não sabemos por que o homem deixou outrora a família, nem onde esteve neste período, nem o motivo do seu retorno. O filme não informa a pré-história dos seus personagens. Na nossa frente desenvolve-se um enredo sobre o pai e seus filhos durante a viagem de todos os três a uma ilha desabitada. As relações entre os heróis do filme levam-nos a pensar no sentido da vida, no bem e no mal, na traição e na vingança, elevando o espectador ao nível de percepção filosófica do mundo.

Os autores do argumento são Vladimir Moisseienko e Aleksandr Novototski, bastante conhecidos na Rússia. Com base nos seus argumentos foram rodados o popular seriado televisivo "Marosseika" e o filme "Velhas Alimárias" do realizador Eldar Riazanov. O profissionalismo dos argumentistas garantiu em muito o sucesso de "O Regresso". Como dizem os autores do filme, a sua variante final distingue-se muito da inicial. A princípio planeava-se exibir esta história como recordação de dois irmãos adultos, que vivem na América, sobre a sua infância. Mas o realizador considerou importante que os acontecimentos do filme se desenvolvessem consecutivamente. Deste modo, todos os episódios adquiriram uma tensão emocional. É importante observar que no filme há muitos indícios da vida russa dos anos 70 e 80 do século passado e, ao mesmo tempo, vemos alguns traços que testemunham que os acontecimentos se desenvolvem nos nossos tempos. Por exemplo, um moderno "jeep" passa pela rua. O realizador atribuiu isso ao seu desejo de fazer um filme em que cada pessoa veja sinais da sua vida, da sua juventude, da sua infância, das suas emoções e impressões.

Este filme é muito incomum e "tem estilo" como disse o próprio realizador Andrei Zviaguintsev. Ele encerra uma grande carga emocional. O filme está cheio de elementos simbólicos que o espectador deve adivinhar e compreender. Desde as primeiras sequências do filme chama a atenção o trabalho do câmara Mikhail Kritchman. As imagens são formidavelmente belas. No filme foi usada a magnífica música do compositor Andrei Dergatchov que ressalta o carácter místico dos episódios.

O realizador do filme Andrei Zviaguintsev (nasceu em 1964) é actor profissional. Ele concluiu o Instituto Nacional de Arte Teatral de Moscovo e até recentemente trabalhou num dos teatros da capital. Em 2000 estreou como realizador tendo filmado na televisão três novelas de curta metragem no âmbito do seriado "Quatro quartos". "O Regresso" é a sua primeira longa-metragem.

O produtor do filme foi Dmitri Lesnevski (nasceu em 1970), director geral do canal de televisão REN-TV e produtor geral da associação REN-Film. Em 2001 ele recebeu o título de "Melhor produtor do ano". Em "O Regresso" actuou pela primeira vez como produtor de uma longa-metragem.

Vladimir Garin, que desempenhou no filme o papel do filho mais velho, foi escolhido entre 4 mil pretendentes. O seu destino foi trágico. O jovem afogou-se já depois das filmagens perto do lugar em que se desenvolviam os acontecimentos do filme. A mística consiste em que segundo o argumento inicial o seu herói devia afogar-se, mas no processo de filmagens foi decidido mudar o enredo. Este foi primeiro trabalho do jovem actor no cinema. Ele chegou a sonorizar o filme e viu apenas os seus fragmentos. A pedido dos pais do jovem o realizador Andrei Zviaguintsev só informou sobre a tragédia no acto de entrega dos prémios do Festival de Veneza. Os autores do filme dedicaram-no à memória de Vladimir.

De maneira muito talentosa actua Ivan Dobronravov de 14 anos no papel de irmão mais novo. O espectador russo conheceu-o pela primeira vez nos filmes "Pesquisadores" do realizador A. Sudilovski e "Taiga - rumo à sobrevivência" do realizador A. Aravin. Mas o papel de irmão mais novo foi o seu trabalho mais brilhante. O filme é acolhido através do prisma do seu papel.

O papel de pai foi desempenhado pelo artista do teatro "Satirikon", Konstantin Lavronenko. A sua actuação suscitou muitas discussões. Foi ele quem imprimiu ao filme uma tonalidade especialmente áspera apresentando-nos um mundo masculino em que não há lugar a nada de estranho ou secundário, mundo que assusta e fascina simultaneamente.

É admirável a acção emocional exercida pelo pequeno papel de mãe interpretado pela actriz emérita da Rússia, Natalia Vdovina, do teatro "Satirikon", laureada com os prestigiosos prémios teatrais russos "Turandot de Cristal" e "Gaivota". O génio desta mulher reflecte-se nos seus filhos, no olhar aberto dos rapazes ao mundo, no seu desejo de fazer bem e desistir do mal.

O filme "O Regresso" já se tornou um fenómeno do cinema mundial. Maria Tupoleva © RIAN

 
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