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RÚSSIA É UM PAÍS COM DUAS CAPITAIS

15.07.2004 | Fonte de informações:

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O Governo da Rússia está a debater a questão da transferência de uma parte das funções dos órgãos federais para São Petersburgo, anunciou a governadora da cidade, Valentina Matvienko, intervindo na reunião geral da Câmara de Comércio Americana em São Petersburgo. "Não tenho o direito de verbalizar os decretos oficiais sem a respectiva autorização oficial, mas posso dizer que a decisão já foi tomada e será anunciada oficialmente dentro em breve", adiantou.

Pouco tempo depois numa conferência de imprensa realizada em Moscovo foi dito que o Governo não debateu nada parecido e não tomou nenhuma decisão relativa à transferência de uma parte das funções federais para uma outra cidade. Mas isto de modo algum contradiz as palavras de Valentina Matvienko, quando se conhece bem os pormenores da linguagem dos serviços de imprensa. A resolução deve ser algo escrito oficialmente e carimbado, ou ainda aprovado pelo Parlamento, tudo o resto não é nenhuma resolução, mesmo que tenha sido debatido e seja claro para todos.

Importante neste caso é uma outra coisa, ou seja, o próprio facto das conversas incessantes nos círculos governamentais e intelectuais sobre o papel especial de São Petersburgo, cidade que sempre, mesmo depois da deslocação do Conselho de Comissários do Povo para Moscovo em 1918, tem sido considerada a "capital nortenha" do país.

Tudo isto não tem nada a ver com o facto de Vladimir Putin ser natural desta cidade. O ex-presidente da Rússia, Boris Yeltsin, era originário dos Urais, da cidade Sverdlovsk/Ekaterinburgo/, enquanto Mikhail Gorbatchev nasceu em Stavropolie (Sul do país), mas ninguém na altura tomava a sério a possibilidade de mudança da capital para o Sul ou para o Oriente do país, embora a nível da opinião pública circulassem propostas de mudar a capital para Vladivostok, etc.

No que se refere a São Petersburgo há quem tenha avançado a ideia de mudar para lá o Parlamento ou pelo menos uma série de ministérios.

No mundo há muitos países que têm uma capital gigante, em torno da qual se desenrola toda a vida a vida económica, política e cultural. Um exemplo são as Filipinas, com a capital Manila de 10 milhões de habitantes, em redor da qual está concentrada uma boa metade de toda a produção nacional, as principais universidades, a maior parte da população formada, etc. Uma situação semelhante existe no México, onde toda a vida do país gravita em torno da capital - a Cidade do México - com os seus 20 milhões de habitantes. Uma outra variante são os EUA, onde existem uma série de cidades iguais em todos os sentidos - Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco, Huston, etc., enquanto a capital (Washington) é uma cidade relativamente pequena e inteiramente administrativa.

Na Rússia, na altura da fundação há 300 anos de São Petersburgo por Pedro I, Moscovo acomodava muito bem ao papel de principal cidade sem ser a capital do país. Mas para os habitantes de Leninegrado da época soviética eram difícil conformarem-se com o estatuto provinciano da cidade depois da mudança de capital para Moscovo, embora os êxitos económicos, industriais, científicos e culturais provem o contrário.

Por outras palavras, temos um país com dois centros industriais, intelectuais e culturais, iguais um ou outro ou quase iguais, deixando muito para trás todas as outras cidades.

Será que pode haver um país com duas capitais? Porque não? Na China antiga assim foi ao longo de vários séculos (houve épocas em que havia 4 capitais ao mesmo tempo). Na Índia britânica a capital mudava no Verão para Simla, nas montanhas. O problema é que a população da capital deve ter um nível de formação para garantir o funcionamento de todos os organismos do Estado. Claro que em Moscovo a maioria dos altos funcionários públicos e deputados do Parlamento não são moscovitas. Acontece porém que dividir o aparelho estatal em duas partes é difícil em termos organizativos e dispendioso ao mesmo tempo. O pessoal da função pública tem que contactar entre si permanentemente. No entanto alguns ramos do poder, afirmam os politólogos russos, como que foram especialmente criados para ser instalados em cidades diferentes, pois devem ser independentes. Por exemplo, o poder judicial.

É difícil dizer a que resoluções ou ideias se referia Valentina Matvienko, mas o Tribunal Supremo ou o Tribunal Constitucional poderiam ser transferidos para São Petersburgo.

Dmitri Kossyrev observador político RIA "Novosti"

 
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