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Planeta desafortunado

14.11.2002 | Fonte de informações:

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Por fim, parece ter sido posto o ponto final em intermináveis polémicas sobre a presença de água em Marte. A conclusão que foi feita era: no solo do Planeta está o gelo de água que ocupa áreas consideráveis. Este descobrimento sensacional foi viabilizado com a ajuda do aparelho «High Energy Neutron Detector» (sigla, HEND) criado no Instituto de Pesquisas Espaciais da Academia de Ciências da Federação Russa. Diga-se de passagem, este dispositivo encontra-se agora a bordo da estação interplanetária norte-americana «Mars Odissey». A superfície de Marte é constantemente bombardeada por raios que vêm de fora e que são absorvidos na sua camada superior, cuja grossura mede de 1 a 3 metros. O impacto dos raios cósmicos com a substância do solo produz os chamados «neutrons rápidos» - aliás, partículas elementares electricamente neutras.

Uma parte destas consegue sair do solo sem consideráveis perdas energéticas e, portanto, conservar a sua particularidade básica. Outra parte entra em contacto e colisão com elementos leves - principalmente, o hidrogénio - perdendo a sua energia e, subsequentemente, a velocidade.

Segue daí que quanto maior é a proporção do hidrogénio, tanto maior é a desaceleração dos neutrons. O paradigma do descobrimento da água por meio do HEND consiste em fazer a comparação entre as partículas rápidas e as «desaceleradas» em cada região concreta do Planeta. Foi, portanto, possível fazer a conclusão sobre o deficit das primeiras e a abundância das outras, sendo assim fácil deduzir que os átomos de hidrogénio não faltam. É sobejamente sabido que o composto de hidrogénio mais divulgado na Natureza é a água.

Até há pouco, prevalecia a suposição de que a água em Marte pode estar condensada, única e exclusivamente, nas áreas do pólo Norte. Esta hipótese foi deduzida por cientistas tendo em consideração que no hemisfério sul do Planeta prevalecem montanhas e no pólo contrário as planícies. Por conseguinte, a água deveria escorrer para lá, condensando-se nas zonas setentrionais do planeta vizinho.

O HEND veio provar o contrário: no pólo Sul o teor do gelo no solo oscila entre 15 e 50 por cento. Assim, torna-se possível afirmar que, neste caso, não se trata da areia misturada com gelo, antes vice-versa - o gelo misturado com areia! A grossura desta camada é variável: uns 60 cm no 60.є Grau de latitude austral e 30 cm no 75.є Grau da mesma latitude.

No que respeita às zonas temperadas e equatoriais, o solo fica bastante aquecido impossibilitando a formação do gelo. Na parte boreal o gelo está também presente, mas em proporções inferiores sendo registrada a sua maior concentração entre 45.є e 75.є Graus de latitude setentrional.

A questão da água é crucial para compreender tanto o que é que representa Marte agora, como também a evolução cronológica do Planeta. Primeiro porque aumenta sensivelmente a probabilidade de encontrar parcos vestígios da vida do Planeta, em épocas remotas e, talvez, na contemporânea. É por demais evidente que na evolução de Marte teria havido um período quente e húmido. E naquela altura, a Terra e Marte se iam desenvolvendo pelo cenário parecido.

Depois veio um cataclismo qualquer em Marte, cujas causas ficam por esclarecer e apurar. Naquele período o nosso Planeta já acusava certas formas primitivas de vida. Tampouco se pode descartar que estas teriam existido em Marte. Trata-se de organismos simples e primários que já possuíam o metabolismo e mecanismo de procriação. Quando as condições de vida mudaram, estes - como se supõe - podiam se involucrar e se conservar até os tempos presentes. Seria uma sorte descobrir estas formas extraterrestres de vida. Evidentemente, não seriam, neste caso, seres extraterrestres, muito menos «homenzinhos verdes» inventados por imaginação, ou algo por estilo...

Sobra explicar que as formas primitivas de vida orgânica têm que ser procuradas onde existe água. Assim, no gelo antárctico foram encontradas células vivas involucradas em água. Por isso, o aparelho russo HEND pode chamar-se, sem exagero algum, dispositivo de indagação da vida em Marte.

Não é de somenos importância esclarecer os mecanismos e causas que transformaram Marte numa estufa quente e húmida em reino de frio e seca. não se exclui a causa meramente interna do cataclismo, como por exemplo a carência do campo magnético do Planeta. Conclui-se que, ao apurar a evolução de Marte, será possível enriquecer a teoria da evolução da Terra. Sendo descoberta água em Marte, terá que mudar toda a estratégia das investigações. Será então possível fabricar o combustível para foguetes espaciais que vão desprender da sua superfície, em vez de trazê-lo da Terra. Será então viabilizado o projecto da criação de sistemas funcionais para a estacão permanente em Marte, entre outras coisas. Por isso, o levantamento do mapa dos recursos aquáticos de Marte, a ser efectuado pelo HEND, será factor determinante para escolher o lugar de desembarque dos futuros astronautas. O HEND fez mais um descobrimento importante. Quando eclodiu uma potente explosão no Sol, os detectores registraram o aumento em 400 vezes da intensidade do fluxo de neutrons reflectidos da superfície do planeta vizinho. Nas condições da Terra, um aumento tão repentino, tão brusco, de neutrons traria consequências incomparavelmente superiores а tragédia da central atómica de Chernobyl. Este facto impõe uma conclusão desagradável: a probabilidade de descobrir a vida em Marte é mínima, pois num «fogo» de radioactividade tão monstruosa todas as formas de vida são impossíveis, são impraticáveis. Consequentemente, impôs-se outra conclusão: os astronautas futuros devem descer em Marte só nos períodos de calmaria do Sol. E, como medida preventiva, ainda antes da sua chegada os robôs têm que escavar abrigos muito profundos para evitar o impacto da radiação excessiva.

Tendo em conta a periodicidade das perturbações solares que ocorrem de 12 em 12 anos e o carácter catastrófico da radiação solar, a próxima data favorável para percorrer a trajectória Terra-Marte é o ano de 2013. Este prazo parece pouco realizável. Então, o outro virá na altura de 2025... Em termos psicológicos, esta data parece mais realista para a nossa geração que pretende ver com seus próprios olhos os resultados dos esforços envidados. Neste relacionamento é interessante analisar as sondagens sociológicas feitas através da Internet. Consta destas que 56% dos habitantes da Terra crêem que a primeira expedição a Marte será efectuada dentro de 5-10 anos, 26% dos inquiridos dizem que será dentro de 10-15 anos, 14% falam dos 15-20 anos e somente 3% afirmam que todas as pesquisas relacionadas com Marte têm que se levar a cabo por meio dos robôs - aliás, em regime automático.

40 Por cento dos habitantes do nosso planeta supõem que o objectivo próximo da Humanidade na investigação do Universo é criar uma base permanente na Lua, 34% falam sobre a expedição marciana e apenas 17% preferem explorar a órbita periterrestre.

A convergência estrutural dos programas espaciais da Rússia e dos Estados Unidos, suas envergaduras e relevâncias nacionais permitem supor uma certa identidade em aquilo o que pensam os povos destes dois países sobre a investigação do Universo. Em todo caso, 43% dos norte-americanos querem que a NASA dá início ao programa marciano. Hoje em dia, somente a Rússia e os Estados Unidos possuem a experiência de vôos а volta de Marte e de pouso dos aparelhos na sua superfície. Estimativamente, a expedição marciana poderá traduzir-se em cerca de 100 bilhões de dólares, soma equiparável com as despesas com a Estacão Espacial Internacional. Nenhum dos dois gigantes tem esta quantia em disponibilidade. Então, a expedição terá de ser internacional.

O vôo a Marte vai durar não menos de um ano e meio. A maior experiência na duração de vôos espaciais tem, obviamente, a Rússia. Os versados em psicologia e tecnologia chegaram a concluir que a tripulação ideal para a expedição marciana teria de contar com 6 elementos - isto é, engenheiros e médicos de diferentes orientações profissionais e, obrigatoriamente, os cientistas. De contrário, todo o empreendimento será inútil, não passará de uma curiosidade.

Quanto aos médicos, estes preceituam que a idade dos astronautas tem que se situar na faixa de 45 a 50 anos, quando se compatibilizam de melhor maneira os factores de profissionalismo, condição física e equilíbrio psicológico. Aconselham formar a tripulação exclusivamente de homens, desde que - conforme preceitua a medicina espacial - o organismo de uma mulher não poderá aguentar uma experiência como essa. não obstante esta recomendação, a NASA, norte-americana, nomeou Shanon Lucid como dirigente dos programas científicos por ser a primeira mulher incluída no longo vôo espacial.

A concluir, falta acrescentar que Marte é o único astro do sistema solar que acusa ter água e, por conseguinte, a vida. Atrás dele situam-se os satélites de Júpiter - Europa, densamente coberto da crosta de gelo, Ganimedo e Calisto; o de Saturno, Titânio, envolto sempre em nevoeiro de azoto e metano... Neste esquema planetário, Marte parece ser o único corpo celeste, nos horizontes espaciais, que é acessível а exploração e até mesmo para criar-lhe atmosfera amena para a vida terrestre e, assim, transformá-lo num planeta compatível com o de «habitat humano».

Yuri Zaitsev RIA «Novosti»

 
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