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‘Jezebela’, romance da lusofonia

13.12.2005 | Fonte de informações:

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João Craveirinha, 58 anos, sobrinho do poeta José Craveirinha (1922-2003), nasceu na Ilha de Moçambique. Bastariam esses dois pormenores para justificar a apresentação de um escritor. Afinal, José Craveirinha, nascido na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, foi o maior poeta africano de língua portuguesa e não são poucos aqueles que ainda acreditam que o dom da poesia seja transmitido por genes, embora essa afirmação contrarie tudo o que ensina a Antropologia.

Além disso, a mítica ilha de Moçambique, capital das possessões portuguesas da contra-costa africana até 1897, abrigou, em épocas diversas, dois dos maiores poetas da língua portuguesa — Luís de Camões (1524(?)-1580) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) —, além de ter sido visitada durante três dias por Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) em 1786, e cantada, nos últimos tempos, por outros grandes poetas como Jorge de Sena (1919-1975), Rui Knopfli (1932), Alberto de Lacerda (1929), Virgílio de Lemos (1929) e Luís Carlos Patraquim (1953). Portanto, nascer na antiga Muipiti, dos macuas, à beira do Oceano Índico, constitui um compromisso com a sensibilidade, com a poesia.

Com todas essas ligações sentimentais, João Craveirinha não podia deixar de ser também homem sensível, o que já deixara claro em sua carreira como pintor, com obras que estiveram em exposição em várias cidades portuguesas, Maputo, Joanesburgo e Bruxelas, além do Principado de Andorra. Artista plástico, designer gráfico e de publicidade, ele foi também animador cultural e realizador de rádio e televisão em Moçambique e é cronista de vários jornais de Moçambique e de sites, como Zambezia On Line (http://www.zambezia.co.mz) , além de ativista político com participação em vários edições do Fórum Contra a Exclusão Social de Minorias e Sobre Cooperação e Desenvolvimento em Bruxelas, Estrasburgo e Luxemburgo, patrocinados pelo Parlamento Europeu e Comissão Européia na década de 1990.

Depois de publicar, em 2001, Moçambique Feitiços, Cobras e Lagartos, Craveirinha lança-se, em 2005, como romancista, ao dar à estampa Jezebela — O Charme Indiscreto dos Quarenta — Crônica de Uma Mulher, num ano em que colocou no mercado de uma só vez mais cinco livros: O Macaco Macacão e o Macaco Macaquinho e outros contos (literatura infantil); A Pessoa de Fernando Ignorou a África? (teatro); In Memorian de José Craveirinha — Um Poeta Nunca Morre (com CD); Crônicas da Aldeia Global; e Crônicas do Futebol no País da Marrabenta, todos pela Universitária Editora, de Lisboa.

Jezebela, que surpreende logo a partir da capa que reproduz a imagem de um nu feminino pintado pelo autor, é, nas palavras de seu criador, a crônica romanceada de uma africana moderna diante da globalização e da história comum de Portugal, Moçambique e Brasil, a uma época em que o mundo ocidental parece não compreender as outras culturas, especialmente a islâmica, o que tem precipitado o tão anunciado choque de civilizações.

Como observou no prefácio o poeta Calane da Silva, professor da Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, Jezebela constitui uma maneira engenhosa que Craveirinha encontrou para unir num romance crônicas, palestras e entrevistas que deu em várias ocasiões à imprensa ou à televisão de Moçambique, discutindo aspectos sócio-históricos e da etno-história moçambicana. Assim, em vez de publicar mais um livro de crônicas, o autor preferiu abrir-se para uma nova experiência literária em que se sai muito bem porque o livro não perde a linguagem despretensiosa das crônicas e ainda ganha ritmo romanesco.

De fato, a história de amor de Jezebela Lopes Castanheira, nascida em Quelimane, filha de pai português e mãe africana, e crescida à beira do Minho, com Vanderley Jansen Caetano de Menezes, natural da Beira, do bairro crioulo da Manga Loforte, ao percorrer toda a narrativa, seduz com certa malícia o leitor que, ao mesmo tempo, quase sem sentir, vai adquirindo informações preciosas sobre a história de Moçambique, desde a época da colonização portuguesa, que, provavelmente, só encontraria se se dispusesse a ler os cartapácios de História, com suas extensas notas de rodapé.

Jezebela, divorciada, quarentona de porte atlético, mãe de Luana, passa a viver com Vanderley, formado em Psicologia, pai de um menino. Enquanto vivem a febre de amor dos primeiros anos, conversam, vêem a TV Miramar, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), que retransmite os programas de Raul Gil e Netinho, da Rede Record, de São Paulo, sucessos de audiência no país, e lêem artigos do cronista João Craveirinha nos jornais.

Eis aqui um grande exercício de metalingüística, em que o autor aparece como protagonista de um romance escrito em terceira pessoa, a exemplo do que fez o argentino Ernesto Sábato (1911) em Abaddón El Exterminador (1975). Seus textos publicados anteriormente em outros veículos ou palestras dadas em instituições são discutidos por seus personagens, que freqüentemente se referem a eles com ironia e, às vezes, até desprezo, embora sempre haja quem também os aprove. “Então, Vander, gostaste da palestra de João Craveirinha? Pergunta Carol Mahamude. — Assim, assim. O fulano é um convencido. Julga que sabe muito. Um zarolho no meio de ceguetas...”, lê-se à página 97. “Não sejas invejoso, amor... eu gostei. Aprendi muito! Arremata Jezebela”, lê-se a seguir.

Como se vê, Jezebela é, antes de tudo, um romance de corte autobiográfico, com uma estrutura narrativa aparentemente fragmentária, que serve para o autor expor suas idéias sobre as questões suscitadas pela realidade multicultural do povo moçambicano, como os traumas transgeracionais deixados pela escravatura na Zambézia.

Diz Craveirinha, através de seu personagem Vanderley, que esses traumas deixaram em alguns complexos de inferioridade como fruto da herança servil colonial em relação ao europeu e mesmo ao goês ou indo-português. Noutros, diz, deixaram a superstição da crença em espíritos desencarnados e encarnados a cobrar dívidas passadas de tempos em que foram maltratados como escravos em determinada família de senhores de prazos brancos e mestiços e sinhás — donas negras e mestiças.

A luso-africana Jezebela convive num ambiente híbrido, multi-étnico e religioso em Moçambique e, depois, em Portugal. No fim da vida, regressa à terra de origem, voltando para Maputo, para viver sozinha, depois de pagar “um preço muito grande pela sua libertação e emancipação feminina”.

Já Vanderley, separado de Jezebela, recebe um convite para exercer psiquiatria clínica em Curitiba, onde conhece um novo amor, Alicia Mei Ling, moçambicana de origem chinesa, nascida em Lourenço Marques e crescida na Mafalala, refazendo-se, assim, o percurso da lusofonia.

Atam-se, dessa maneira, os laços com os remanescentes do êxodo sino-moçambicano que se deu com a descolonização em 1975 e retomou um périplo que começou com a fuga de chineses para Hong Kong, depois da luta entre nacionalistas e os comunistas de Mao Tse Tung, passando por Macau e Moçambique, até chegar, por fim, às cidades brasileiras de São Paulo e Curitiba.

Como se vê, Jezebela reúne personagens que quase nunca encontramos na literatura de língua portuguesa, embora, diariamente, deparemo-nos com elas nas ruas de nossas cidades. Por tudo isso, justifica-se atribuir a Craveirinha o mérito de ter escrito o romance da lusofonia.

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JEZEBELA — O CHARME INDISCRETO DOS QUARENTA/CRÓNICA DE UMA MULHER, de João Craveirinha. Lisboa, Editora Universitária, 248 págs, 2005. www.universitariaeditora.com

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

 
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