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Um romance de formação às avessas

12.10.2005 | Fonte de informações:

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Se Bildungsroman é uma modalidade de romance que gira em torno das experiências que sofrem os personagens durante os anos de formação ou educação, rumo da maturidade, como ensina o professor Massaud Moisés em seu Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Cultrix, 12ª ed., 2004), Juventude: cenas da vida na província II, do escritor sul-africano J.M.Coetzee (1940), Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é um típico romance de formação ou de aprendizagem.

Mas, ao mesmo tempo, é um pouco diferente da maioria dos romances que levam essa qualificação porque se pressupõe que a juventude seja a parte mais significativa da vida do personagem, "o sinal de um mundo que procura o seu significado no futuro, mais do que no passado", como diz Franco Moretti em The Way of the World: The Bildungsroman in European Culture (Londres, Verso, 1987), na citação recolhida por Moisés.

É o que se pode constatar em típicos romances de formação tanto na literatura mundial - David Copperfield, de Charles Dickens, ou O retrato do artista quando jovem, de James Joyce - como na literatura de língua portuguesa - O Ateneu, de Raul Pompéia, e Menino de Engenho, de José Lins dos Rego, ou Nome de Guerra, de Almada Negreiros, ou os romances do ciclo A Velha Casa, de José Régio.

Ocorre que, autobiográfico, o livro de Coetzee não narra nenhum episódio digno de nota ou destaque na vida do seu herói, que mais bem qualificado seria se fosse considerado um anti-herói. Neste caso, talvez o melhor da vida do personagem esteja mesmo na maturidade, quando, levando-se em conta que se trata de um alter ego do autor, alcançaria notoriedade como escritor.

Por isso, de certa forma, Coetzee subverte o conceito tradicional de Bildungsroman, colocando-o às avessas, pois o que relata não são experiências fortes e marcantes vividas por seu personagem, mas a ânsia que este tem de vivê-las com intensidade, que não se dão por sua falta de habilidade ou por suas dificuldades em relacionar-se com os demais, especialmente com as mulheres.

John é um jovem sul-africano, aspirante a poeta e recém-formado em Matemática, que vai viver em Londres com o objetivo de construir uma carreira literária. Esse é um comportamento típico de aspirantes a escritores: quase sempre deixam o modesto local em que nasceram e rumam a uma grande cidade em busca de maiores facilidades para publicação ou pelo menos para tentar a inserção na vida intelectual. É um tema que vem desde As Ilusões Perdidas, de Balzac, e passa por A Capital, de Eça de Queirós, mas que ainda não se esgotou, como prova o próprio romance de Coetzee.

Na sociedade inglesa do começo dos anos 60, John é, no entanto, personagem extremamente insignificante, obscuro funcionário da multinacional norte-americana IBM, com um salário suficiente apenas para alugar um quarto no segundo andar de uma casa da Archway Road, no Norte de Londres. O dinheiro de uma bolsa da África do Sul mal paga suas prestações acadêmicas.

Sai cedo para o trabalho, volta tarde e raramente vê outros moradores. Passa os sábados em livrarias, galerias e museus e consome os domingos com a leitura do Observer e um filme no cinema ou um passeio no Heath. Não tem dinheiro para se matricular numa universidade inglesa e, por isso, sempre tem de adiar os planos de escrever um trabalho acadêmico sobre os Cantos de Ezra Pound ou os romances de Max Ford Madox.

Depois larga o emprego na IBM e, para sobreviver, passa a cuidar do apartamento e da babá e da filha de uma mulher divorciada que vai para Grécia de férias. Os problemas começam quando aparece o ex-marido da proprietária, mas nada que possa transtornar a sua vida sem sentido. Mais tarde, John retorna à atividade de programador de computador, mas em outra empresa. Conhece, então, um indiano que está na sua mesma condição: estrangeiro numa sociedade insensível e ainda de mentalidade colonizadora. E divide frustrações e ressentimentos de ex-colonizados. Conhece uma austríaca, mas não vive nenhuma paixão avassaladora, de modo que se aproxima dos trinta anos sem uma história pessoal de lances rocambolescos que pudesse lhe render versos magníficos ou romances capazes de seduzir o público.

Publicado pela primeira vez em 2002 pouco antes de seu autor ganhar o Prêmio Nobel, Juventude (Youth: Scenes from Provincial Life II) é um acerto de contas de Coetzee com seu passado opaco, de poucas aventuras. E, de certa maneira, é tão autobiográfico quanto Desonra (Disgrace), de 1999, publicado no Brasil em 2000, que conta a história de um professor sul-africano, de 52 anos, divorciado duas vezes, homem solitário, conformado, erudito e irônico, provavelmente o John de Juventude com mais três décadas nas costas.

Em Desonra, porém, há mais ação e um enredo mais elaborado: o professor vê sua vida estabilizada soçobrar ao deixar-se levar por um caso com uma de suas jovens alunas. Acusado de assédio sexual, cai em desgraça entre seus pares, perde o cargo na universidade e, para escapar de seus problemas na Cidade do Cabo, refugia-se na pequena fazenda de sua filha, a única pessoa com quem ainda mantinha um vínculo afetivo.

Descobre, então, uma violência que o leitor brasileiro conhece muito em: na África do Sul pós-apartheid, é um risco possuir coisas, desde um carro novo até um par de tênis. Na luta por um pedaço de terra, é a barbárie que dita as relações entre as pessoas, enquanto na universidade o ambiente politicamente correto chega ao extremo de considerar criminoso que um professor faça sexo com uma de suas alunas, ainda que a moça seja maior de idade. É do choque do professor com essas duas mentalidades que se constrói o romance de Coetzee.

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JUVENTUDE: CENAS DA VIDA NA PROVÍNCIA II, de J. M. Coetzee, tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia das Letras, 184 págs., R$ 38,50, 2005. DESONRA, de J.M. Coetzee, tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia das Letras, 2ª ed., 246 págs., 2003. E-mail: editora@companhiadasletras.com.br _________________________________ *Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

 
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