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NO CORAÇÃO DO RECIFE

12.07.2004 | Fonte de informações:

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“Na avenida Guararapes, o Recife vai marchando. O bairro de Santo Antônio, tanto se foi transformando que, agora, às cinco da tarde mais se assemelha a um festim. Nas mesas do Bar Savoy, o refrão tem sido assim: são trinta copos de chope, são trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados...” (Carlos Pena Filho)

Ah, mas se agente pudesse fazer o que tem vontade: beijar a cidade que amamos, com um pedaço do tempo expurgado. Beijar a cidade de um tempo ideal, de um tempo sem angústia, de um tempo em que a cidade era a noiva do futuro. E falar em tempo ideal é o mesmo que acender na gente um calorzinho manso, que chama Nelson Ferreira,

“O nosso Bloco é ideal nasceu neste carnaval... Por isso nós estamos a cantar cheios de glória Vitória! Vitória! Vitória!

Vamos correr as ruas da cidade com o ardor da nossa mocidade ! ...”

Chamar o tempo ideal é o mesmo que chamar o Recife sem a ditadura militar, o Recife sem assassinatos e perseguições, o Recife bom, sem a casa dos avós, que não tínhamos, nem casa nem avós, mas isto não sentíamos, pelo extraordinário despojamento que têm as crianças. Montar o tempo ideal é chamar o Recife azul com papagaios em festa no céu, o Recife que era “a cidade”, para todos os meninos suburbanos. É chamar o Recife sem os duros anos em que faltava o pão. É esquecer o Recife onde tudo faltava: pão, sorte, Deus, lar, amor, toda feição da humana gente. É deixar de lado o Recife que distribuía a falta com imensa generosidade.

“Foram andando. Seguiram pela Primeiro de Março, passaram pelo Diário, tomaram a Guararapes. O cheiro ativo de cerveja vinha pleno da calçada do Savoy. Carlos externou um pensamento comum:

- Como era bom uma cerveja!

Sentiram o cheiro, viram a espuma, ouviram as tampas saltando, viram a cor escura das garrafas e as gotas frias no seu bojo. Esticaram olhos compridos para o líquido amarelo, sedentos. Prelibaram as mesinhas de ferro, de pinturas descascadas e ferrugem de umidade ácida. Sentiram o cheiro das coxinhas gordas de galinha, a sua maciez no solvente da língua, engoliram-nas em saliva. Eram bocados grossos, de galinha misturada à massa, untada, descendo para o estômago que se revolvia, em desejo. Pressentiram o calor nas faces subindo, o bom humor fácil, o convívio que a cerveja dá. Sentiram então a irmandade que nascia, na falta, no que não podiam, pela comum exclusão da comunidade dos vivos. E vivos eram aqueles que, com naturalidade, e sem-importância se entregavam ao gosto de, bebendo, ver as pessoas que passam. Por isso marejaram os olhos.”

É, deixando esse Recife de lado, ir ao Recife em pé, no banco do ônibus, para alcançar a janela e ver o rio. Já então ele nos deslumbrava e apontava a promessa:

O rio Capibaribe aberto, ao sol das sete da manhã, é um rio que nos dá bom dia. Da ponte Duarte Coelho à Princesa Isabel, e desta a se estender até a ponte do Limoeiro, há uma vista de esperança. Então olhamos o rio, e ele nos refrigera: “Bom dia. Você está mesmo pronto para o amor e felicidade que ainda não revelamos? Eis-me aqui: um carinho para a sua alma”.

É voltar ao Recife dos amigos, com quem não temos mais a ventura e aventura do convívio. Fosse poeta, faria um poema longo sob o nome de Convívio. Fosse rei, mandaria um poeta fazer esse poema. Mas como sou o que sou, digo: é voltar ao Recife com o Gordo, com o senhor Antônio Luís, o maior conhecedor de frevo que os meus olhos e sorte já viram. É estar com todos os amigos no Bar Savoy, numa celebração que tem todos os motivos para chorar, mas é só felicidade.

Vejam: estamos no Savoy, na Guararapes, e entre confetes de repente nos lembramos que iremos morrer. Que não mais seremos aqueles meninos de calças curtas, de calção, suburbanos. Que somos matéria vulgar, carne sem categoria da alma. Que estamos a um passo do merecido e absoluto esquecimento. Que amamos pouco e mal. Vejam, então sentimos que este mundo, o nosso mundo, acabou. É mal sem remédio, acabou, mas nem por isso nos conformamos. E porque não nos conformamos queremos o seu renascimento.

Vejam. Essa impossibilidade material luta e não vence a necessidade do espírito. Daí esse mal-estar contínuo, esse “não-estar-onde-se-quer” permanente. Ir ao centro da cidade é voltar à cidade, é voltar ao nosso tempo na cidade. Um tempo ideal, à nossa feição. Daí que não encontramos a cidade, a nossa, aquela que apreendemos no espírito. Daí que, com o passar do tempo, somos estrangeiros, em nossa própria cidade. Onde estão os que ao nosso lado viviam? Onde está a Sorveteria Gemba? Cadê a Livro 7? O bar da Brahma? Onde o puteiro da Bahiana? Para onde foi a Sertã? E agora, neste 2004:

Para onde foi o Bar Savoy?

Na Avenida Guararapes, 147, onde sempre se encontrou o Savoy, agora reside a Farmácia dos Pobres. Estivéssemos a brincar, diríamos que analgésicos e antibióticos agora substituem o chope, a cerveja, as coxinhas quentes e saborosas que matavam de emoção os suburbanos. Mas não dá para brincar, fazer broma, tão leviano, com os lugares por onde andou o coração da gente. Por isso, continuo, e falo somente a verdade, nada mais que a verdade. Por isso digo, e assim foi que perguntei ao vendedor, no balcão:

- Para onde foi o Bar Savoy, você sabe?

Ele não sabe, nem imagina, que esta prosaica interrogação apenas esconde o que temos vergonha de perguntar, “amigo, para onde foi uma parte do Recife que amei?”. Por isso me aponta o gerente, que por cima dos ombros mal responde:

- Está ali ao lado... pela entrada da edifício.

O “ali” é a sobreloja do Edifício Sigismundo Cabral. E o que era Savoy se tornou simplesmente O Canto do Poeta. Por favor, isto não é graça. É desse modo irônico que o mundo anda. Esse recanto, que já existia como uma opção aos freqüentadores do bar lá embaixo, agora é sua última morada. Pergunto a um empregado:

- O Savoy agora é isto!? Para onde foram os garçons? O empregado me sorri, como se pedisse desculpa.

Olho em volta e não vejo: com fotos de Edmond Dansot, o longo e imortal poema de Carlos Pena Filho, Guia Prático da Cidade do Recife, se espalhava pelas paredes:

“No ponto onde o mar se extingue e as areias se levantam cavaram seus alicerces na surda sombra da terra e levantaram seus muros do frio sono das pedras. Depois armaram seus flancos: trinta bandeiras azuis plantadas no litoral. Hoje, serena, flutua, metade roubada ao mar, metade à imaginação, pois é do sonho dos homens que uma cidade se inventa...”

E por não mais encontrar nas paredes o

“Mas como a gente não pode fazer o que tem vontade, o jeito é mudar a vida num diabólico festim”, pergunto:

- Onde estão os versos de Carlos Pena? Também acabaram?

A resposta que ouço é a do português, dono do velho bar, que vem chegando:

- O nome Savoy também está à venda. Se quiser comprar .. Ele faz graça, deboche.

- Um lugar como o Savoy não é só propriedade privada, eu lhe respondo. E continuo: - Este lugar faz parte da memória da gente... (Vejo a sua cara de pedra, como as paredes sem versos.)

E por não ter dinheiro para expulsar a farmácia e lá repor o Savoy, e por não ter o poder público, que se ausenta, e por não conseguir deter a degradação do centro do Recife, que avança, eu lhe digo:

- Saiba o senhor que existe a memória das pessoas. Saiba que a memória não pode ser privatizada! Digo isto, e me dirijo ao empregado, às mesas vazias, e ameaço começar um discurso, inútil, quixotesco, louco, maluco. O empregado, entre endossar minhas palavras e o desemprego, sorri, enigmaticamente.

- Poesia, romantismo... o português responde. – Poesia, romantismo... e faz um gesto com os dedos, eloqüente, que diz: - E dinheiro que é bom, nada? Poesia, romantismo....

Desço pelas escadas, para respirar na avenida. Desço, desço, poesia, romantismo....

Há um quadro de Van Gogh, “Terraço do Café na Place du Fórum”. Nele há um azul escuro, com pontos brancos de estrelas, como um fundo à luz forte, amarela, que sai de um Café com mesas na calçada. O quadro é belo pelo contraste, pelo forte amarelo na noite, como um sonho. Como um Café, como um Bar ideal. Nesse bar do quadro, algum dia ali reencontraremos os amigos. E lá, iluminados pelo amarelo de Van Gogh, aos versos de Carlos Pena, acrescentaremos:

Somente na memória a cidade que amamos se alevanta.

 
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