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Alexander Solzhenitsyn, o Dostoyevsky do século XX, morre de ataque do coração

10.08.2008 | Fonte de informações:

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Ele nutria desdém pelo Presidente Boris Yeltsin, responsabilizando Yeltsin pelo colapso da economia russa, a dependência dele de socorro financeiro do Fundo Monetário Internacional, a incapacidade dele de deter a expansão da OTAN até as fronteiras da Rússia, e a tolerência dele pela crescente influência de um punhado de bilionários russos - apelidados de "oligarcas" por um diplomata estadunidense.

O período de Yeltsin, disse Solzhenitsyn, caracterizou uma das três "épocas de problemas" na história russa - que incluíram as crises do século XVII que levaram à ascensão dos Romanov, e a revolução bolchevique de 1917. Quando Yeltsin concedeu a mais elevada honraria da Rússia a Solzhenitsyn, a Ordem de Santo André, o escritor recusou-se a aceitá-la. Quando Yeltsin deixou o cargo em 2000, Solzhenitsyn quis que ele fosse processado.

O último livro do autor, "Duzentos Anos Juntos," de 2001, trata das complexas emoções das relações russas-judaicas. Algumas pessoas criticaram o livro por passagens alegadamente anti-semitas, mas o autor não aceitou a acusação, dizendo que ele "entendia a sutileza, a sensibilidade e a generosidade do caráter judaico."

Putin, sucessor de Yeltsin, de início teve um relacionamento difícil com Solzhenitsyn, que criticou o presidente russo em 2002 por ele não se esforçar mais no sentido de acabar com os oligarcas russos. Putin era também um veterano da KGB da era soviética, a agência que, mais que qualquer outra, representava o legado soviético de repressão.

Entretanto, esses dois homens, tão diferentes, desenvolveram gradualmente uma conexão. Passo a passo, Putin aceitou as críticas de Solzhenitsyn ao Ocidente, talvez a partir do reconhecimento de que a Rússia realmente é uma civilização diferente, talvez pelo fato de o escritor oferecer justificativas para a determinação do Kremlin de amordaçar críticos, de reafirmar o controle sobre os recursos naturais da Rússia e de concentrar o poder político.

Do mesmo modo que Putin, Solzhenitsyn argumentava que a Rússia estava seguindo seu próprio caminho para sua própria forma de sociedade democrática. Numa entrevista em junho de 2005 na televisão estatal ele disse que a Rússia havia perdido 15 anos depois do colapso da União Soviética ao mover-se rápido demais na pressa de construir uma sociedade mais liberal. "Temos que ser melhores, portanto precisamos ir mais devagar," disse ele.

Depois da morte de Naguib Mahfouz em 2006, Solzhenitsyn tornou-se o mais velho premiado Nobel vivo em literatura. Ele deixa a mulher, Natalya, que atuou como sua porta-voz, e seus três filhos, Stepan, Ignat, pianista e maestro, e Yermolai. Todos moram nos Estados Unidos.

A despeito de sua crença num destino político e cultural separado para a Rússia, as obras de Solzhenitsyn continuam a inspirar pessoas de todas as nações e culturas na luta pela dignidade humana e pelo direito de manterem pontos de vista impopulares.

A crença dele no poder da consciência, e no poder da coragem contra todas as probabilidades em contrário, fala aos leitores além dos estreitos limites da ideologia e da política.

"Somos nós que morreremos - a arte permanecerá," escreveu ele no discurso do Nobel de 1970, que não lhe foi pemitido fazer. "E será que entendermos, mesmo no dia de nossa destruição, todas as facetas e todas as possibilidadades dela?"

Autor do post : Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme
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