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Alexander Solzhenitsyn, o Dostoyevsky do século XX, morre de ataque do coração

10.08.2008 | Fonte de informações:

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Depois que Khrushchev foi deposto em 1964, Solzhenitsyn começou a sofrer assédio da KGB; a publicação de suas obras foi bloqueada e ele foi expulso do Sindicato dos Escritores Soviéticos. Ele, porém, era indissuasível.

"Um grande escritor é, por assim dizer, um governo secreto dentro de seu próprio país," escreveu ele em "O Primeiro Círculo," seu romance seguinte, um livro a respeito dos prisioneiros de um dos "campos especiais" de Stálin para cientistas considerados politicamente indignos de confiança mas cuja qualificação era essencial.

Solzhenitsyn, diplomado pelo Departamento de Física e Matemática da Universidade de Rostov, foi mandado para um desses campos em 1946, logo depois de preso.

O romance "Pavilhão dos Cancerosos", publicado em 1967, foi outra obra de ficção baseada na vida de Solzhenitsyn: no caso, o tratamento contra o câncer que ele recebeu em Tashkent, no Uzbequistão, então parte da Ásia Central soviética, durante seus anos de exílio interno de março de 1953, mês da morte de Stálin, até junho de 1956.

No livro, o câncer tornou-se uma metáfora para a doença fatal do sistema soviético. "Um homem gera um tumor e morre - como poderá então um país viver tendo gerado campos e exílio?"

Ele atacou a cumplicidade de milhões de russos com os horrores do governo de Stálin. "Subitamente todos os professores e engenheiros passaram a ser considerados sabotadores - e eles acreditaram nisso? Ou toda a antiga guarda de Lênin passou a ser vista como formada de renegados - e eles acreditaram nisso? Subitamente todos os seus amigos e conhecidos eram inimigos do povo - e eles acreditaram nisso?"

A era stalinista, escreveu ele, citando um poema de Alexander Pushkin, forçou os cidadãos soviéticos a escolher um dentre três papéis: tirano, traidor, ou prisioneiro.

Ele ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1970, gesto inusitado da Academia Sueca, que geralmente premia autores tarde na vida, depois de décadas de trabalho. A academia citou "a força ética com a qual ele perseguiu as tradições indispensáveis da literatura russa."

As autoridades soviéticas impediram que o autor viajasse a Estocolmo para receber o prêmio, e os ataques oficiais foram intensificados em 1973, quando publicado em Paris o primeiro livro da trilogia "Gulag".

"Durante todos os anos até 1961," escreveu Solzhenitsyn numa autobiografia elaborada para a Fundação Nobel, "não apenas estava eu convencido de que não deveria ver nem uma só linha de minha autoria impressa, como, também, mal me atrevia a permitir que qualquer de meus conhecidos mais próximos lesse qualquer coisa que eu havia escrito, por temer que o fato viesse a tornar-se conhecido."

No ano seguinte, ele foi preso sob acusação de traição e expulso, no dia seguinte, para a Alemanha Oriental, algemado. Sua expulsão despertou condenação mundial do regime do líder soviético Leonid Brezhnev.

Solzhenitsyn fez dos Estados Unidos seu novo país, estabelecendo residência na pequenina cidade de Cavendish, em Vermont, com mulher e filhos.

Vivendo num complexo isolado na encosta de uma colina, de onde raramente saía, disse que os 18 anos ali foram os mais produtivos de sua vida. Ali ele trabalhou no que considerou ser sua obra-prima, uma saga, em múltiplos volumes, da história russa chamada "A Roda Vermelha."

Embora livre da repressão, Solzhenitsyn tinha saudade de seu país nativo. Nem estava ele encantado com a democracia ocidental, com sua ênfase na liberdade individual.

Para decepção de seus apoiadores, em seu discurso em Harvard ele repudiou a "democracia pluralista ocidental" como modelo para todas as outras nações. Era um equívoco, advertiu ele, as sociedades ocidentais considerarem como um fracasso do resto do mundo este não adotar o modelo democrático em decorrência de "governos iníquos, ou crises sérias, ou barbárie, ou incompreensões."

Alguns críticos consideraram "A Roda Vermelha" cansativo e tendente a pregar sermões, e não arrebatador e incendido pelo fogo moral.

"O abandono de seu grande tema, o stalinismo e o gulag, expôs seus principais pontos fracos," escreveu D.M. Thomas numa biografia de 1998, teorizando que a intensidade das obras anteriores era "uma projeção da própria violência reprimida dele."

O Presidente soviético Mikhail Gorbachev restaurou a cidadania de Solzhenitsyn em 1990 e a acusação de traição foi finalmente revogada em 1991, menos de um mês depois do fracassado golpe soviético. Depois de boas-vindas emocionadas de volta ao país que começaram no Extremo Oriente da Rússia em 27 de maio de 1994, e transformaram-se numa excursão com seguidas aparições breves por todo o país, Solzhenitsyn estabeleceu-se numa casa sombreada por árvores, de tijolos vermelhos, dominando o Rio Moscova, bem a oeste da capital.

Embora recusando-se a participar de política partidária, Solzhenitsyn prometeu falar "toda a verdade a respeito da Rússia, até que eles fechem minha boca como já fizeram antes."

 
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