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Alexander Solzhenitsyn, o Dostoyevsky do século XX, morre de ataque do coração

10.08.2008 | Fonte de informações:

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Alexander Solzhenitsyn, o Dostoyevsky do século XX, morre de ataque do coração

Alexander Solzhenitsyn morreu em Moscou, com 89 anos de idade. O Presidente Dmitry Medvedev apresentou suas condolências à mulher e aos filhos do escritor. Stepan Solzhenitsyn disse à Associated Press que seu pai morreu tarde, no domingo passado, de ataque cardíaco, mas declinou de mais comentários. As descrições resolutas de Solzhenitsyn a respeito do tormento e da sobrevivência nos campos de trabalho da União Soviética, cuja história secreta ele expõs, absorveram a atenção de seus compatriotas. Elas renderam-lhe 20 anos de amargo exílio, mas renome internacional. E inspiraram milhões de pessoas, talvez, com o conhecimento de que a coragem e integridade de uma única pessoa podem, no final, derrotar o maquinário totalitário de um império.

Começando com o curto romance de 1962 "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich," Solzhenitsyn dedicou-se a descrever o que ele chamou de o "moedor de carne" humana que o apanhou juntamente com milhões de outros cidadãos soviéticos: detenções motivadas por caprichos, amiúde por razões triviais e aparentemente absurdas, seguidas de sentenças em campos de trabalho escravo onde frio, inanição e trabalhos punitivos esmagavam os condenados física e espiritualmente.

Sua trilogia "Arquipélago de Gulag" dos anos 1970 deixou os leitores chocados com a selvageria do estado soviético sob o ditador Joseph Stálin. Ajudou a acabar com a simpatia pela União Soviética remanescente entre muitos intelectuais esquerdistas, especialmente na Europa.

A descrição dele daquele sistema secreto de campos prisionais foi, entretanto, também inspiradora em sua descrição de como uma única pessoa - o próprio Solzhenitsyn - sobreviveu, física e espiritualmente, num sistema penal de agruras e injustiças trituradoras de almas.

O Ocidente ofereceu-lhe abrigo e louvores. A recusa de Solzhenitsyn de dobrar-se a despeito de enorme pressão, entretanto, talvez lhe tenha dado a coragem para criticar a cultura ocidental pelo que ele considerava ser sua fraqueza e decadência.

Depois de um triunfante retorno que incluiu uma viagem de trem de 56 dias dentro da Rússia para novamente aclimatar-se em seu país nativo, Solzhenitsyn posteriormente expressou contrariedade e decepção pelo fato de a maioria dos russos não terem lido seus livros.

Durante os anos 1990, seus irredutíveis pontos de vista nacionalistas, sua fé Ortodoxa devota, seu desdém pelo capitalismo e repúdio dos magnatas que compraram indústrias e recursos russos por copeques no entulho que se seguiu ao colapso soviético, não foram aprovados socialmente. Ele deixou de ser foco da atenção pública.

Durante a presidência de Vladimir Putin de 2000 a 2008, entretanto, a visão de Solzhenitsyn da Rússia como um bastião do Cristianismo Ortodoxo, como lugar com uma cultura e um destino únicos, ganhou renovada preeminência.

Putin agora argumenta, como Solzhenitsyn argumentou numa palestra na Universidade de Harvard em 1978, que a Rússia tem uma civilização separada da do Ocidente, que não pode ser conciliada nem com o comunismo nem com a democracia liberal de estilo ocidental, e sim requer um sistema adaptado a sua história e tradições. O sucessor de Putin, Dmitry Medvedev, mandou condolências pouco depois do anúncio da morte de Solzhenitsyn, conforme declarado pelo Kremlin, noticiou a mídia russa.
"Qualquer cultura antiga autônoma profundamente arraigada, especialmente se espalhada por ampla parte da superfície da terra, constitui um mundo autônomo, cheio de enigmas e surpresas para o pensamento ocidental," disse Solzhenitsyn em seu discurso. "Há mil anos a Rússia pertence a essa categoria..."

Nascido em 11 de dezembro de 1918 em Kislovodsk, Solzhenitsyn servviu como capitão de artilharia na linha de frente na Segunda Guerra Mundial onde, nas últimas semanas da guerra, foi preso por escrever o que ele chamou de "certas observações desrespeitosas" a respeito de Stálin numa carta a um amigo, referindo-se àquele como "o homem do bigode."

Foi sentenciado a oito anos em campos de trabalho -- três dos quais serviu num campo na estepe erma do Casaquistão que serviu de base para seu primeiro romance. Depois disso, passou três anos exilado no Casquistão.

Foi onde ele começou a escrever, memorizando grande parte de sua obra a fim de que ela não se perdesse caso fosse apreendida. Seu tema eram o sofrimento e a injustiça da vida no gulag de Stalin - abreviatura soviética de sistema de campos de trabalho escravo, que Solzhenitsyn tornou parte do léxico.

Continuou a escrever enquanto trabalhava como professor de matemática na cidade provincial russa de Ryazan.

O primeiro fruto de seu trabalho foi "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich," história de um carpinteiro que lutava para sobreviver num campo de trabalho soviético, para onde havia sido mandado, como Solzhenitsyn, depois do serviço na guerra.

O livo foi publicado por ordem do líder soviético Nikita Khrushchev, que estava ansioso para desacreditar os abusos de Stálin, seu predecessor, que criara a sensação de um país onde as verdades inconvenientes era ditas em sussurros, se tanto. No exterior, o livro - que passou por numerosas revisões - foi louvado não apenas por sua bravura, mas por sua linguagem singela, despretenciosa.

 
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