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UM ÍCONE QUE DECIDE POR SI PRÓPRIO ONDE ESTAR

09.09.2003 | Fonte de informações:

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A Igreja Ortodoxa Russa e milhões dos seus fieis celebram a data de 8 de Setembro em homenagem a um grande acontecimento ocorrido há mais de seiscentos anos na Rússia, ou seja, a aparição do ícone de Nossa Senhora de Vladimir no Verão de 1395, ano em que as hostes de Tamerlão invadiram a Rússia, semeando o pânico no país: Tamerlão tinha fama de vencedor da Horda de Ouro e de guerreiro cruel.

Quando o então governador da Rússia, Grão-Duque Vassili, malogrou na tentativa de fazer parar Tamerlão, restava esperar por um milagre. Na cidade de Vladimir encontrava-se um ícone de Nossa Senhora a que o povo russo atribuía qualidades milagrosas e que podia, segundo as crenças, salvar a Rússia. Foi decidido levá-lo de urgência para Moscovo. A 15 de Agosto, o ícone foi feito sair de Vladimir, com choros e lamentações da multidão que enchia as ruas da cidade, e, a 26 de Agosto, chegou, a Moscovo onde foi recebido com grandes alegrias e esperanças. Milhares de pessoas saíram da cidade ao encontro da procissão. O encontro deu-se no campo de Kutchkovo que se situava naquela altura nos arredores de Moscovo e em que se encontra presentemente um mosteiro construído em homenagem àquele evento.

As orações dos moscovitas foram atendidas. No dia da chegada do ícone a Moscovo, Tamerlão ordenou às suas hostes retirarem-se da Rússia. Os historiadores não têm, até agora, uma explicação sensata para isso. Os cronistas, entretanto, assinalam que Nossa Senhora teria advertido o guerreiro supersticioso contra a marcha à Rússia, lançando sobre ele uma luz celeste e ameaçando penalizá-lo.

O ícone de Nossa Senhora de Vladimir é o mais venerado na Rússia. Segundo uma crença espalhada, a imagem de Nossa Senhora e do menino Jesus foi pintada por São Lucas numa tábua que servia de mesa para Jesus Cristo e a Mãe, sendo assim o primeiro ícone cristão.

Os documentos históricos falam pouco do ícone.

A crónica de Ipatievo afirma que o ícone chegou à Rússia num barco procedente de Constantinopla e se guardava inicialmente no Mosteiro de Nossa Senhora, nos arredores de Kiev. Os especialistas datam o ícone da primeira metade do século XII.

Mas nada explica porque este ícone, uma obra-prima de dimensão mundial e uma verdadeira jóia da arte bizantina, ficou na Rússia.

Naquela época, Constantinopla estava no período florescente da sua história. Era uma cidade de filósofos e bibliotecas, de costumes e aromas requintados, de termas e jóias, de apreciadores e estetas que sabiam apreciar as coisas. Porque é que entregaram então o ícone, de poder e valor artístico extraordinários, a um país tão distante e tão selvagem como lhes parecia a Rússia.

A história segue a sua lógica: nunca se pode saber o que acontecerá. Talvez, se o ícone tivesse ficado em Constantinopla, a cidade poderia ter resistido aos ataques dos turcos e não se teria tornado em Istambul.

Por apreço à justiça, temos de dizer que os bárbaros souberam apreciar a oferta bizantina que serviu posteriormente de modelo para os iconistas russos. O ícone foi uma espécie de pedra sagrada que, uma vez jogada no mar russo, formou círculos crescentes da sua glória. As ondas da beleza irradiada do ícone espalharam-se por todo o país, pacificando os costumes e corações. O ícone pacificou a alma russa. Sem ele, a nossa história poderia ter sido mais cruel.

O primeiro guardião do ícone foi o duque Andrei Bogoliubski que o trouxera da pequena cidade provinciana de Vichegrad para Vladimir, então capital da Rússia. Daí, o seu nome: o ícone de Nossa Senhora de Vladimir. A imagem da Virgem foi guarnecida com uma moldura de ouro, ornamentada com safira, rubi e pérolas e guardada como a mais preciosa e a mais querida relíquia. Em 1928, os especialistas da Galeria Tretiakov, examinaram o ícone e viram que, em 500 anos, ele sofreu vários tratamentos, deixando-se, contudo, sempre intactos os rostos da Virgem e do menino.

Quem visitou uma exposição de ícones promovida, há anos, pela Galeria Tretiakov, em que o "Nossa Senhora de Vladimir" apareceu ladeado de, pelo menos, uma centena de réplicas, pôde ver e perceber a sua magnificência. Todas as réplicas, por mais impecáveis que parecessem, perdiam o seu brilho perante esta obra-prima bizantina. A roupa do menino Jesus parece banhada pelo Sol cegante, e a Mãe de Deus inclina a cabeça para o menino com tanta tristeza que você sente um pequeno aperto no coração e uma profunda comoção.

Este ícone pertence ao grupo de ícones de "comoção".

A sua criação no Bisâncio não foi menos misteriosa do que a sua aparição na Rússia.

Pouco antes da execuação do ícone, o Bizâncio sofreu um período de perseguição aos ícones como vestígios do pagansimo. A iconoclastia tinha como postulado a tese de que Deus é o espírito e nunca foi visto. Os iconólatras consideravam, entretanto, possível representar Deus por meio de imagens, uma vez que este se havia deixado ver como ser humano. Só a imagem é que podia substiuir os livros para os analfabetos - era um outro argumento deles. O segredo do ícone bizantino e posteriormente russo são os sentimentos íntimos.

As igrejas católicas e protestantes não apresentam ícones, mas sim, cenas evangélicas pintadas pomposamente nas paredes. Por exemplo, a famosa "Madona da Sixtina", de Rafael, é para agardar à vista e não para orações. As pinceladas de Rafael passam das dimensões humanas. O "Nossa Senhora de Vladimir" é muito menor. Você não precisa afastar-se para vê-lo, guardando assim a intimidade para orar sozinho. O "Nossa Senhora de Vladimir" pressupõe uma intimidade e veneração, a sua beleza é impressionante mas contida, as suas cores e linhas não distraem das orações. A oração ao "Nossa Senhora de Vladimir" é a voz de uma pessoa, e não de um grupo de pessoas acompanhado pelo órgão. A alma russa não aceita orações em público, pois a oração é sempre uma coisa íntima.

O ícone "Nossa Senhora de Vladimir" nasceu do obscurantismo dos dois séculos bizantinos como modelo de submissão. A sua aparição, tal como a criação do mundo, foi precedida de uma escuridão. Tanto maior é a sua magnificência. É impossível imaginar que Nossa Senhora tenha uma expressão diferente à do ícone.

Há já 800 anos que o seu poder hipnótico não se esgota. Não é de admirar, portanto, que os visitantes crentes se ponham perante ele de joelhos.

Nos últimos anos, a Igreja Ortodoxa Russa tem feito questão de receber o ícone de volta e colocá-lo na Catedral de Assumpção do Kremlin. Os especialistas, por seu turno, referem condições específicas da sua conservação: 12 graus centígrados acima de zero, 55% da humidade... etc., apontando a finíssima camada de tinta na prancha.

Enquanto isso, o ícone encontra-se na Igreja de São Nicolau, nas proximidades da Galeria Tretiakov, que foi recentemente restaurada e está a ser usada como santuário e, ao mesmo tempo, sala de exposições da Galeria Tretiakov.

O pároco da Igreja de São Nicolau, arcipreste Nikolai Sokolov, encara o ícone como vivendo a sua vida. Ao passar vários anos ao lado do ícone, o pároco diz que o "ícone decide por si próprio onde estar. Nós queremos apenas que ele se conserve, cabendo ao ícone decidir onde e com quem estar: se nós formos dignos de estar com ele, ele ficará connosco, se não, ele vai-nos abandonar".

Traduzido da versão inglesa

Ekatia BORGES PRAVDA.Ru

 
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