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SALA DE ÂMBAR: A MISTIFICAÇÃO CONTINUA

09.06.2004 | Fonte de informações:

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Os autores afirmam que a Sala de Âmbar, obra-prima dos mestres alemães do século XVIII, foi destruída pelo fogo durante o incêndio no Castelo de Konigsberg, devido à negligência ou vandalismo dos soldados soviéticos depois da ocupação desta cidade pelo Exército Vermelho.

Os autores baseiam-se nos documentos recentemente por eles encontrados nos arquivos russos. A anotação sobre o incêndio no castelo foi feita pelo zelador da Sala de Âmbar, Anatoli Kutchumov, ex-funcionário do Museu de Tsarskoe Selo.

Lembremos que a Sala de Âmbar era a mais sumptuosa das dependências do Palácio de Catarina em Tsarskoe Selo, arredores de São Petersburgo. Em 1717 o rei da Prússia, Federico I, deu-a de presente ao czar russo Pedro, o Grande. A sala representava de facto um enorme cofre revestido de painéis de âmbar desmontáveis.

Depois da invasão da URSS pela Alemanha, os funcionários do palácio de Tsarskoe Selo não conseguiram desmontar os painéis preciosos e forraram-nos com papel de parede. No entanto, não conseguiram enganar os alemães. A Sala de Âmbar foi descoberta, os painéis desmontados e levados para o castelo de Konigsberg, onde funcionava um museu. Ali a Sala de Âmbar foi montada e o troféu foi exibido ao público.

No entanto, o destino posterior da obra-prima perde-se nas trevas do tempo.

Segundo uma das hipóteses mais credíveis, ela foi levada para a Alemanha entre muitos outros tesouros artísticos que naquela época os destacamentos das forças SS escondiam em minas e galerias subterrâneas e outros locais, tendo acabado por desaparecer definitivamente.

Mas o livro de Levy e Scott-Clark apresenta uma versão que se transformou imediatamente em sensação mundial.

Em que se baseia esta nova versão? Nos primeiros dias após a ocupação de Konigsberg pelas tropas soviéticas, o ex-zelador da Sala de Âmbar, Kutchumov, ao procurar nesta cidade a obra-prima desaparecida, encontrou-se com um ex-empregado do bar de oficiais que funcionava no castelo de Konigsberg. Foi ele que informou Kutchumov que os soldados soviéticos provocaram no castelo um incêndio que destruiu tudo que se encontrava na Sala dos Cavaleiros, inclusive as caixas com os painéis da Sala de Âmbar.

Aliás, no dia do incêndio, 12 de Abril de 1945, o empregado do bar não estava no castelo, encontrando-se hospitalizado e soube do incêndio por pessoas conhecidas quando regressou ao bar.

Os autores da sensação descobriram as anotações de Kutchumov no Arquivo Central de Literatura e Arte de São Petersburgo. No entanto, Levy e Scott-Clark não consideraram necessário analisar os documentos encontrados com peritos russos, tendo divulgado esta informação durante a campanha publicitária nas vésperas da edição do livro. Esta posição leva a supor que os autores estavam mais preocupados com os aspectos comerciais do que com os interesses realmente científicos e o estabelecimento da verdade. Esta posição dos autores põe de sobreaviso e suscita uma atitude crítica para com os factos por eles citados.

Para além do aspecto ético da questão , esta obra padece de sérias falhas. Por exemplo, não foi explicado o facto por que motivo, se toda a Sala de Âmbar foi destruída pelo incêndio provocado por negligência dos soldados, se salvou uma das sua partes mais importantes?

Trata-se de um dos elementos da sala descoberto recentemente em Bremen, no apartamento de um tal Hans Achtermann, que propôs vender este elemento a antiquários por 2,5 milhões de dólares, após o que foi detido pela polícia.

O achado tornou-se objecto de uma preocupação especial por parte do Governo alemão e, por ocasião do tricentenário de São Petersburgo, este elemento foi solenemente devolvido pelo burgomestre de Bremen à Rússia e colocado no local originário(a Sala de Âmbar foi completamente reconstituída por uma equipa de restauradores de São Petersburgo, estando presentemente exposta na antiga capital russa).

Explicando a maneira como o elemento teria ido parar a sua casa, Achtermann disse que o painel tinha sido trazido da Rússia pelo seu pai, oficial das forças armadas nazistas que, segundo Achtermann, conseguiu "salvar o painel" ainda em 1941 durante os bombardeamentos, quando esta obra-prima estava a ser evacuada do Palácio de Catarina para Konigsberg.

Se se tratasse de um pequeno elemento, por exemplo de uma placa de âmbar, o facto de o oficial o ter roubado não contradiria o facto da destruição da sala no incêndio.

No entanto, trata-se de uma das partes principais da composição, do singular painel central "O olfacto e o tacto" executado em pedras preciosas por mestres italianos em técnica de mosaico florentino (só havia quatro elementos deste tipo). Era justamente a cor do mosaico florentino que constituia o padrão decorativo de acordo com o qual os mestres seleccionavam os matizes das demais peças de âmbar.

Mas se o mosaico florentino tivesse sido roubado em 1941, a exibição da Sala de Âmbar montada posteriormente no castelo de Konigsberg teria sido impossível. O buraco negro no centro da requintada composição de âmbar priva a obra-prima de metade da sua beleza e de metade do valor. No entanto, é sabido que a Sala de Âmbar esteve exposta permanentemente no museu sob o patrocínio do historiador de arte Alfred Rose.

E não há nenhuma indicação de que no castelo de Konigsberg a Sala de Âmbar tivesse uma falha tão evidente. O seu belo elemento central só podia ter sido roubado mais tarde, durante a queda da cidade.

Apenas esta questão é suficiente para levantar sérias dúvidas acerca da versão dos autores do livro de que a Sala de Âmbar teria sido totalmente destruída durante o incêndio.

A mesma questão permite também levantar sérias dúvidas relativamente ao "feito" praticado pelo pai de Achtermann durante o bárbaro bombardeamento russo. Mas então temos de perguntar: por que motivo salvou o mosaico e não o devolveu? 1941 não era o melhor ano na Alemanha para roubar os tesouros que se encontravam sob o patrocínio do Reich.

É mais lógico supor que a "salvação" do mosaico não tenha sido de modo algum tão altruísta, que o roubo tenha acontecido não em 1941, mas em plena fuga das tropas alemães de Konigsberg no ano fatal de 1945, ou seja, durante a evacuação da obra-prima para a Alemanha quando - um mês antes da capitulação e da queda do Terceiro Reich - o roubo do mosaico florentino já não implicava uma severa punição para o oficial nazista.

Anatoli Koroliov observador político da RIA "Novosti" © RIAN

 
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