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A BELEZA QUE ATINGIU O POETA COMO UMA ESPADA

09.02.2003 | Fonte de informações:

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O poeta russo Aleksandr Puchkin foi uma verdadeira dádiva de Deus. O génio maravilhoso do poeta consegui exprimir com palavras tantas ideias, que a este património cultural os russos ainda hoje vão buscar a inspiração e os conhecimentos.

A obra de Puchkin, sem dúvida, será valorizada também pelas futuras gerações dos russos. "Enquanto a poesia de Puchkin permanecer na Rússia, os ventos frios não conseguirão apagar a vela", escrevia, metaforicamente, o poeta contemporâneo, David Samoilov, demonstrando desta maneira a importância da obra do génio da poesia russa.

A vida de Puchkin foi curta - faleceu tragicamente com apenas 37 anos de idade. No dia 27 de Janeiro (8 de Fevereiro, segundo o Calendário Juliano) de 1837, o poeta lutou em duelo contra o francês George D'Antes, filho adoptivo do embaixador da Holanda em São Petersburgo, Hekkeren. O duelo fatal foi realizado no Rio Negro, perto de São Petersburgo. Actualmente, é um bairro residencial da cidade aonde se pode chegar de metro. Ninguém sabe por que razão este nome sinistro foi dado a este rio, com água azul e margens verdes, no Verão, e brancas da neve, no Inverno. Talvez porque um espírito da tragédia, que teve lugar há 166 anos, já tivesse pairado sobre esse local?

Tanto Puchkin, como D'Antes eram excelentes atiradores. Cada adversário trouxe com ele um par de pistolas de duelo. D'Antes pediu emprestado as pistolas (da marca saxónica de Karl Ulbrich) ao seu compatriota, Erné de Barante, filho do embaixador de França em São Petersburgo. As pistolas de Puchkin fabricadas pelo mestre parisiense, Henri Le Page, pertenciam ao poeta. Os padrinhos lançaram a sorte que as pistolas que iriam ser utilizadas eram as de D'Antes... Actualmente estas relíquias tristes estão expostas no Museu dos Correios da cidade de Amboise, em França. O dono do museu não deseja vender as pistolas à Rússia por nenhum valor, por mais alto que seja, recorrendo ao pretexto de Puchkin ter escrito uma novela cujo protagonista era funcionário dos Correios.

Aleksandr Puchkin era um homem muito orgulhoso e de alma pura. Tinha também um sangue muito quente. Descendente duma das mais antigas famílias aristocráticas russas, o poeta tinham u amor-próprio e as noções de honra muito elevados, costumando desafiar as pessoas para um duelo por tudo e por nada. Era também desafiado com muita frequência. Houve um momento na vida de Puchkin quando os seus poemas "Eugénio Oneguine" e "O Cavalheiro de Cobre" estavam por um fio porque o seu autor combateu, por um motivo insignificante, num duelo contra um oficial do exército, podendo morrer com facilidade. Felizmente, os dois adversários falharam.

O duelo no Rio Negro devia tornar-se fatal, e os adversários sabiam disto. "Um de nós deverá morrer", disse Puchkin na véspera do combate. O tiro foi feito a distância de dez passos - era impossível falhar!. D'Antes estava muito nervoso e disparou primeiro, antes de ter chegado à barreira, atingindo Puchkin na barriga. O poeta, deitando muito sangue, disparou contra D'Antes ferindo-lhe um ombro. Poucos minutos depois, Puchkin, já sem sentidos, foi colocando num coche e transportado para São Petersburgo.

Parecia que D'Antes chegou à Rússia só para cumprir esta sua terrível missão. Durante a sua longa vida (D'Antes faleceu com 83 anos de idade), nunca chegou a lamentar o acontecido, recordando o duelo da seguinte maneira: "Quando era jovem, vivia em São Petersburgo onde matei alguém num duelo. Já não me lembro quem foi...". Não vale a pena julgá-lo. O francês que não falava russo, nunca chegou a ler as poesias de Puchkin, não compreendendo a importância deste "sol da poesia russa" para a Rússia... No entanto, enquanto estava em São Petersburgo, o jovem D'Antes ficou apaixonado pela mulher de Puchkin, Natalia, que era extremamente bela. Ficou doido por ver a sua cintura de vespa e os seus enigmáticos olhos castanhos!

D'Antes não se importava de revelar os sentimentos. Apaixonado como era, começou a perseguir esta mulher casada sem se preocupar muito com as consequências. Quer era o marido dela? Um literato qualquer que ocupa um cargo insignificante na corte imperial! D'Antes, pelo contrário, já era cavalergardo. Este homem muito bonito, de cabelo dourado e cheio do charme francês gozava com Puchkin, homem baixinho, que já começava a ganhar peso e ficar careca e que tinha alguns "grosseiros traços africanos no rosto" (o bisavô do poeta era etíope).

A adoração do francês não deixou Natalia indiferente. Esta beldade de 24 anos ficou também apaixonada, talvez pela primeira vez na vida, esquecendo o célebre marido e os quatro filhos que já tinha. Começou a comportar-se duma maneira um tanto frívola... Aliás, não podemos julgá-la por isto...

O comportamento descarado de D'Antes indignou terrivelmente Puchkin que decidiu defender até ao fim a honra da mulher e também a sua própria honra. Diga-se de passagem, que Puchkin, com 37 anos de idade, já estava muito cansado da vida. As suas relações com o Czar não eram nada boas. Os censores apagavam capítulos inteiros das suas obras literárias. Os inimigos e os invejosos só estavam à espera duma oportunidade para humilhar o poeta. A casa de Puchkin também não era nenhum porto seguro para a sua alma. O poeta estava cheio de dívidas. As suas relações com a família eram complicadas. A vida mundana irritava o poeta impedindo que trabalhasse tanto quanto queria.

Puchkin andava triste pensando cada vez mais na Eternidade. Um ano antes da morte do poeta, faleceu a sua mãe que nunca gostou muito deste primogénito seu e que nunca elogiou a sua poesia. No entanto, Puchkin era filho muito dedicado que tomava conta da mãe até ao fim, ficando muito admirado com o facto de ela, antes de morrer, lhe ter pedido desculpa. Uma vez enterrada a mãe no Mosteiro de Sviatogorsk, perto da herdade dos Hanibais (família da mãe), Puchkin decidiu comprar um jazigo para si próprio.

Uma carta ofensiva - "O Diploma da Ordem dos Cornudos" - foi a última gota que transbordou a taça da paciência de Puchkin. Até agora continua por averiguar quem era o seu autor anónimo. Agora nada podia impedir o duelo. O amigo e padrinho do duelo de Puchkin, Danzas, recordava que quando o poeta foi ver o local do duelo, encontrou, no caminho, o coche da sua mulher Natalia que era míope e não reconheceu o marido. Puchkin preferiu não chamá-la. Apenas parou olhando durante muito tempo para o coche que se afastava.

...Naquela época, o Rio Negro ficava fora da cidade. Atrás dela começava um bosque. Hoje é um bairro habitacional com prédios de muitos pisos. No local do duelo, foi colocada uma lápide em forma de seta virada para o céu. Em frente da lápide encontra-se uma casa onde vive, por mera casualidade, um descendente de Puchkin, também chamado Aleksandr.

O pequeno apartamento de Aleksandr está decorado com um grande espelho que, antigamente, pertencia a Natalia Puchkina. A mulher mais bonita da Rússia gostava do seu reflexo neste espelho. "A beleza que atingiu o poeta como uma espada. E matou-o", assim a poetiza russa Marina Tsvetaeva dizia sobre Natalia Puchkina.

Todos os anos, no dia 10 de Fevereiro, muitas pessoas reúnem-se em frente da casa de Puchkin, na marginal do rio Moika, no centro de São Petersburgo. Foi nesta casa que às 2 horas e 45 minutos de manhã de 10 de Fevereiro de 1837 deixou de bater o coração do grande poeta. As pessoas mantêm-se de pé, caladas por alguns minutos, com velas acesas nas mãos. A seguir, põem-se a declamar as poesias de Puchkin Como é que aconteceu que Puchkin ocupou um lugar tão especial na cultura russa sendo literalmente canonizado pelo povo? Porque o poeta, para além de maravilhosas poesias e obras prosaicas, escreveu também dramas, contos de fadas e investigações históricas. Foi também o criador da língua russa moderna que utilizamos hoje. O seu talento conseguiu mostrar a essência da vida russa e, na expressão do escritor russo, Nikolai Gogol, revelar "a alma russa tal como é". Estas são as razões pela quais a Rússia venera tanto Puchkin, homem do destino trágico.

© RIAN

 
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