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05.12.2003 | Fonte de informações:

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Amiga pernambucana, que hoje mora e vive no Canadá, por e-mail pede notícias. E tamanha, imagino, deve ser a sua distância das coisas deixadas em Pernambuco que pede tudo. Do geral ao específico. Do possível ao impossível. “Quero saber sobre as pessoas, os amigos do passado. Nossa época. As pessoas que você sabe, curte. É grande a vontade de saber e resgatar mais e mais”.

Como sempre acontece, quando lemos mensagens para as quais não temos resposta imediata, ou então, pior, mensagens para as quais a resposta é longa e penosa, não respondemos. Deixamos para depois, depois, até que esquecemos. Mas ela é dessas cuja vontade de andar sobre o gelo não esquece o tempo em que brincava sob o sol. E volta: “Eu lhe fiz um rol de perguntas de interesse e curiosidade real ... Você comentou que estava hiperocupado, e que depois ia responder”. Então vamos ver se consigo fazer o depois agora.

Buscar os amigos do passado, amiga, é como buscar a estrela cuja luz brilha a nossos olhos. Se os alcançamos, se tentamos enganar o tempo, e contra a distância viajamos, eles estão frios. Ao fim de 2003, eles não mais são a luz de que lembramos. Não seria então melhor sonhar, uma forma de lembrar, em vez desse transporte em anos-luz? O simultâneo não há. Ver a estrela e pegar a estrela com a luz que vemos não é possível. Se entendemos o que a amiga quer dizer, compreendemos que deseja o instantâneo das pessoas a que chamamos de amigos. E para que melhor os reconheça, compreendemos que deseja a foto com o nome e a setinha.

Não quero ser amargo nem irônico. Mas compreenda, como é difícil! Como é difícil, amiga, falar desses anos, atualizar esse passado, sem amargura ou um riso daninho. Se você quer saber daquele nosso amigo albino, míope a ponto de sofrer uma cirurgia, para a qual nos cotizamos, como um ato, até, de militância e solidariedade.... ah, amiga, ele se formou em jornalismo e vive hoje em Brasília, como assessor do PSDB. Para o grau de cinismo necessário à sobrevivência, deve estar e viver bem. Diria até, para alguns atos daqueles anos heróicos, ele melhorou muito. Há piores. Você se lembra de um amigo perseguido, que deveria ser morto como os outros “terroristas”, pois cruzara o caminho do Cabo Anselmo? Lembra-se daquele quase adolescente, de uma inteligência viva, impulsivo até a insensatez?

Lembra-se? Ele hoje faz um curso na Escola Superior de Guerra, e discute, e demonstra que a ESG não é mais aquela formadora do pensamento dos militares à direita, que ela muito mudou, que os tempos são outros, etc., etc., etc. Eu gostaria que et cetera fosse um longo cobertor, para esconder algumas infâmias. E são tão mesquinhas que dá vergonha mencioná-las, ainda que não lhes denuncie o autor. Que dizer do ex-preso político que se tornou Secretário de Justiça, e no poder não reconhece a advogada que o defendeu? Que dizer, amiga, que dizer do militante socialista que cego, em casa, apanha e leva porrada dos próprios filhos?

Então a amiga compreende, e certamente perdoa essa amargura. Acredito que até deve soltar fogos por enxergar algum grão de ironia nestas linhas. Nessa infâmia toda é o que nos salva. Se não nos salva, consola. Consola, porque o que todos gostaríamos mesmo era de ter uma arma fuderosa que mandasse toda essa obscenidade para o inferno. Mas a educação, e as boas maneiras, e a impossibilidade prática de possuir essa bomba inteligente contra a infâmia, fazem-nos escrever com a pena da zombaria, aqui e ali. Isto é menos mal que amargar sozinho um pranto na beira do cais. Por isso, amiga, antes que riam de nós, tentemos rir deles. É uma luta muito desigual, porque “eles” são o poder, a organização milenar do mundo, a velha substância de fezes de que todo o mundo é feito. Mas tentemos.

Você quando fala em “nossa época”, quer certamente dizer que a nossa época não é a de hoje. E isto não é bom. Ainda que seja difícil para nossos filhos compreenderem que um dia fomos adolescentes, pois quando nos vêem, em nosso brilho maduro de hoje, não imaginam como, ainda assim não é bom que nos refiramos em código secreto a tempos que parecem antediluvianos. Até para as nossas conservadas forças, amiga. Que coisa triste seria se vestíssemos o papel daquele personagem de Scott Fitzerald, do conto “Na sua idade”. Nele, um homem maduro cai no ridículo e no desencanto ao se enamorar de uma jovem. Ora, nós estamos na idade daquele personagem, reconheçamos, mas não queremos ter o seu ridículo e desencanto. E, claro, tampouco queremos ter qualquer veto à paixão. Queremos tudo, forçoso é dizer.

Experiência, vigor, juventude e sabedoria. Que é que tem? O querer é livre. O chorar também, sei que diz baixinho a amiga. Então, o que é que a amiga diz de um brilhante argumento? Este, que enuncio a seguir:

Os anos, a experiência, revelam um amor impossível de ser alcançado nos verdes anos.

Sente o ritmo encantatório? A amiga deve saber que há pensamentos que se devem dizer como uma prece, um mantra, com ritmo, adequada dicção e fervor. Como este, por exemplo:

Tenho em mim o poder de ser o que alcancei à custa de esforço, sofrimento e saber.

E o que sei? E o que sou? – Não precisamos ser tão cartesianos, por favor. A nossa inteligência nos dá também uma autodefesa. Mas falando sério, você gostaria mesmo de ser aquela mocinha do curso de Direito ou ser a mulher madura que anda pelo gelo no Canadá? Hem? Que me diz?

A amiga já vê que por vezes perdemos a graça. Melhor dizer então que nossa maturidade coincidiu em possuirmos um amigo comum. Que ambos temos o senhor Paulo Carneiro, que o humor da nossa juventude batizou de Capitão América. Finalmente, eu sei, consegui lhe dar um bom sorriso.

Urariano MOTA

 
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