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Ilana Seltzer Goldstein: Herlinde Koelbl: entre fotografia e sociologia aplicada

05.11.2002 | Fonte de informações:

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Nascida em Lindau, em 1939, no lago de Constança, Koelbl trabalhou inicialmente como designer e estilista. Somente a partir de 1976 começou a atuar como fotógrafa – não só no âmbito dos museus e galerias, mas também no campo jornalístico, através de colaboração nos quotidianos Die Zeit e New York Times. Seus trabalhos têm em comum o tom provocador, oscilando entre a crítica social e o voyerismo. Em 1986, por exemplo, a série "Feine Leute" (gente fina) expunha ironicamente as festas e o luxo da alta sociedade alemã. "Starke Frauen" (mulheres fortes), dez anos depois, apresentava, de forma poética e respeitosa, mulheres obesas nuas. Além do sarcasmo em relação aos padrões e mecanismos que observa na sociedade à sua volta, outra marca da obra de Herlinde Koelbl é que a palavra costuma ter papel fundamental; declarações das pessoas fotografadas vêm, em geral, complementar ou subverter as imagens expostas. Talvez seja justamente pela importância do texto, que vários trabalhos de Herlinde Koelbl tenham sido publicados na forma de livro, como Das deutsche Wohnzimmer (a sala de estar alemã), de 1980 e Jüdische Portraits (retratos judaicos), de 1989.

No ano passado, dois eventos fizeram o nome da fotógrafa ter destaque na imprensa e nos meios culturais alemães. Em primeiro lugar, o lançamento do livro Die Meute (a matilha), no qual ela entrevista (e, claro, retrata) 50 jornalistas alemães de destaque sobre temas como a invasão da privacidade, a hierarquização das notícias, a produção de escândalos, as alianças entre jornalistas políticos e os próprios políticos, desnudando o poder ou a impotência dos jornalistas. Em segundo lugar, Herlinde Koelbl foi agraciada, em novembro de 2002, com o prêmio Erich-Salomon, da Sociedade Alemã de Fotografia – fato impulsionado, talvez, pelo enorme sucesso da exposição e do documentários Spuren der Macht (vestígios do poder), que rodaram a Alemanha toda entre 2000 e 2001.

Spuren der Macht é o resultado de 8 anos de pesquisa (1991-1998), durante os quais a artista filmou, entrevistou e fotografou 15 personalidades alemãs. Desta vez, são as relações entre mídia e poder, marketing e política que guiam o olhar da fotógafa. Com a exposição Spuren der Macht (vestígios do poder), Koelbl procurou investigar, por meio de retratos e entrevistas realizados simultaneamente, as transformações visuais e discursivas por que passam pessoas ligadas intimamente ao poder. A mostra fotográfica era acompanhada de um documentário com as declarações dos fotografados, cujos extratos ficavam expostos ao lado dos retratos. Koelbl selecionou, para cada personalidade - entre ministros, chefes de partido e altos executivos - uma foto e uma declaração por ano, apresentadas em ordem cronológica. Isso permitia aos visitantes tirarem suas próprias conclusões, numa espécie de "jogo dos sete erros".

As questões que nortearam o longo projeto de Koelbl foram, segundo ela mesma, "como se relacionam políticos e empresários com a pressão da responsabilidade e a visibilidade pública? Como se modifica sua linguagem corporal? Quais os traços deixados pelo exercício e a convivência com o poder? O que pretendem com a 'vida pública' e o que a 'vida pública' faz deles?". A última questão foi resignadamente respondida pelo atual ministro das relações estrangeiras, Joschka Fischer, em declaração de 1998: "a transformação da esfera pública pelos homens dura muito mais tempo do que a transformação dos homens pela vida pública".

São 120 fotografias, um vídeo com duração de 90 minutos e dezenas de páginas com transcrição das entrevistas. O material é rico e mereceria análise mais detida de cientistas sociais, semióticos e afins. Alguns aspectos, contudo, chamavam a atenção numa visita despretenciosa. Os ocupantes de altos cargos afirmam dormir pouco e ter insônia, não dispor de tempo para amigos ou lazer e a maior parte acaba se separando dos (as) parceiros (as). Karlheinz Blessing, ex-secretário geral do SPD, partido que está atualmente no governo, diz receber uma enorme dose diária de brutalidade.

As mulheres - raramente de saia, maquiagem ou cabelo comprido - apontam a falta de apoio de outras mulheres. Irmgard Schwaetzer reclamou, em 1991, que se um homem é atrevido, é compreendido e aceito, ao passo que uma mulher ousada é tachada de agressiva. Desabafou ainda que muitas mulheres não toleram ver outras em posições de prestígio. Queixas sobre a necessidade de medir palavras e a sensação de se ser permanentemente observado também são correntes. Segundo Joschka Fischer, "políticos são aqueles que têm lábios finos de tanto engolir", enquanto o Primeiro Ministro Gerhard Schröder admite, em sua última entrevista, que "entre o que se mostra abertamente e aquilo de que realmente se trata, há uma grande diferença". O que é corroborado por sua própria contradição, no final da entrevista, quando, após declarar que "ter paciência consigo mesmo e com outros foi seu maior aprendizado nesses anos", pede abruptamente licença: "agora preciso ir, meu secretário de Estado me aguarda, preciso governar o país".

Mas, apesar do alto preço que parecem pagar, consideram-se, em geral, recompensados e seduzidos pelo poder. Quatorze dentre quinze não poderiam viver longe dos holofotes. Gerhard Schröder confessou, em 1992, que "sempre desejou ser visto" e que "por muito tempo se sentiu subestimado". Irmgard Schwaetzer, do FDP, partido que governou durante anos em coalizão com o CDU de Helmut Kohl, afirmou, por sua vez, que "o reconhecimento público acaricia o ego e traz um sentimento de superioridade, de ser um pouquinho mais que os outros".

Com o passar dos anos, as tensões e vaidades reveladas no discurso vão sendo registradas visualmente pela câmera. Cabelos ficam grisalhos e brancos, rugas se aprofundam. A postura corporal fica mais curva em alguns casos, mais segura em outros. Poses, armações dos óculos, cortes de cabelo e estilos de roupa são visivelmente estudados. Apenas alguns exemplos: o charuto Havana, símbolo aristocrático de bon vivant, torna-se inseparável do chanceler Schröder, nas últimas fotos e Monika Hohlmeier, política da Baviera, parece muitas vezes fantasiada de bonequinha típica de uma loja de souvenirs. Joschka Fischer mudou radicalmente devido a um brusco emagrecimento - perdeu 28 quilos, em parte devido à separação conjugal e em parte porque o político do Partido Verde se tornou um atleta de maratonas.

Entre os que menos se alteraram durante os oito anos do registro, estão os executivos Heinrich von Pierer (Siemens) e Henning Schulte-Noelle (Allianz). Apesar da rígida disciplina diária que descrevem, aparentemente se desgastam e se transformam menos que os políticos. Talvez por estarem menos expostos à opinião pública e sentirem menos responsabilidade social. Os dois empresários, aliás, se assemelham no estilo: o mesmo terno escuro, a mesma camisa clara, a mesma gravata estampada, o mesmo cabelo repartido para o lado. Além deles, também quase não se altera, de 1991 a 1998, o ultraconservador Peter Gauweiler, da Bavária, que mantém como marca pessoal uma grossa e sempre aparente corrente de ouro.

Herlinde Koelbl capta detalhes visuais e fragmentos de discurso que permitem múltiplas leituras. Não oferece respostas completas nem genéricas, mas compõe um caleidoscópio de "vestígios" rico e perturbador. Em tempo: a melhor maneira de acessar essa exposição é o site da Kunsthalle Bielefeld: www.dhm.de/ausstellungen/spuren_der_macht.

Ilana Seltzer GOLDSTEIN

 
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