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CINEMA TRANSFORMA-SE EM "FASTFOOD"

04.09.2005 | Fonte de informações:

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No que concerne à rede de distribuição de filmes, aqui tudo funciona com êxito. "Daqui a um ano os nossos cinemas arrecadarão meio bilião de dólares. Não há nenhum sector da economia nacional que tenha tal ritmo de crescimento" - considera o redactor-chefe da revista "Iskusstvo Kino" ("Arte do Cinema") Daniil Dondurei. As receitas do ano passado totalizaram 270 milhões de dólares, este ano proporcionará 350 a 370 milhões. Daqui a 4 anos a Rússia disporá de 2 mil salas de projecção dotadas do sistema Dolby. A verdade é que tudo isso não seria possível sem a participação da indústria cinematográfica americana com os seus mecanismos acertados. O produtor cinematográfico Serguei Selhanov observa: "Hollywood construiu os nossos cinemas e fez com que os espectadores começassem a frequentá-los". Ora, na década de 1990 a indústria cinematográfica russa encontrava-se em estado de coma.

Em 2000, na cadeia distribuidora só havia 13 filmes russos. Em 2005, são produzidos 80 filmes (sem contar as telenovelas). 60 projectos de produção receberam apoio do Estado. Segundo as palavras de Dondurei, o Estado investe anualmente mais de 50 milhões de dólares nesta indústria. O Estado e a televisão continuam a ser os principais produtores do cinema russo. (O Primeiro Canal de TV despende milhões de dólares só com a promoção dos seus produtos.) Nos últimos anos os investimentos do Estado no cinema quintuplicaram.

Mesmo assim, estes meios d"financeiros são insuficientes. O realizador Nikita Mikhalkov, presidente do Festival de Cinema de Moscovo, salienta que para o desenvolvimento da indústria cinematográfica "são necessárias inversões muito consideráveis de capital que o Estado não pode dar. Ele e muitos outros cineastas propõem que "de cada bilhete do "blockbaster" estrangeiro seja descontada uma percentagem a favor dos produtores de filmes russos". Esta questão é discutida constantemente. Claro que os distribuidores são contrários a este "imposto". E a sua opinião não pode ser ignorada, pois uma maioria esmagadora de filmes do repertório dos cinemas da Rússia é americanos.

Os produtores americanos de filmes não têm iguais no que concerne à tecnologia e efeitos especiais e é inútil competir com eles nesta matéria. Também as despesas com a publicidade de filmes são incomparáveis com as russas. 60 por cento do orçamento do filme americano são gastos com a sua promoção enquanto na Rússia este índice é inferior a 10 por cento. Na Rússia ainda não existe o marketing cinematográfico que estude a conjuntura e faça previsão do destino dos filmes produzidos. Só uns poucos cineastas atrevem-se a actuar como produtores de filmes. O produtor Leonid Vereschaguin confessa: "Por enquanto não podemos compensar as despesas feitas com os filmes. Os nossos espectadores vem assistir aos filmes americanos e europeus para ver um espectáculo. Para rodar os filmes deste tipo são necessárias tecnologia e efeitos especiais que custam colossal dinheiro. Como se pode falar em filmagem da perseguição de carros se até não podemos filmar o lançamento de punhal para produzir o devido efeito".

Muitos cineastas queixam-se da falta de ideias, bons argumentos e realizadores competentes. "No mundo verifica-se grande crise de ideias" - declara Nikita Mikhalkov. O conteúdo da arte encontra-se num impasse - está convencido o realizador Andrei Kontchalovski que diz: "As buscas da verdade são substituídas pelas buscas do ridículo". A individualidade abandona o cinema, os estilos criadores e originais ficam no passado. "As cadeiras dos realizadores foram ocupadas pelos jovens que se ocupavam da criação da publicidade. Eles conhecem as respectivas técnicas, mas a sua linguagem e conteúdo, aspectos em que se manifesta a individualidade do artista, representam uma mistura amorfa. É quase impossível distinguir o filme de um realizador do outro". Kontchalovski atribui todas estas deficiências também a grandes realizadores americanos. "Podemos qualificar como individual a linguagem de Spielberg?" - pergunta ele retoricamente.

Os filmes transformam-se em "fastfood", o espectador os engole às pressas e esquece. Não importa saber quem produziu este "hamburger", este sucedâneo medíocre do produto mais ou menos aceitável. Habitualmente falta dinheiro para a rodagem de um filme de alta categoria. Mas este objectivo nem é colocado. Consagrou-se o dilema: ora o sucesso comercial ora a originalidade. Até os realizadores talentosos de meia idade, que criaram excelentes filmes, cedem as posições. Assim, Valeri Todorovski declara: "Andrei Tarkovski causou grande dano aos nossos profissionais criando um estilo específico como padrão".

O Estado começou a proteger mais activamente os direitos de licenciamento na área dos filmes em vídeo e DVD. Esta medida permitirá canalizar mais recursos ao cinema. No entanto, é evidente que estes investimentos não garantem por si só o melhoramento do conteúdo no cinema. Claro que se pode formar agências que gerem ideias cinematográficas tal como nos EUA. No entanto, antes de mais nada, é necessário pôr a priori um sentido mais profundo no conceito de "arte do cinema" e não negar o seu recurso psicológico, moral e patriótico.

Olga Sobolevskaia observadora RIA "Novosti"

 
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