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DAVID BECKHAM E ERROL FLYNN

01.02.2004 | Fonte de informações:

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Nos dias que correm não se fala de outra coisa senão de David Beckham - a última aquisição do multibilionário Real Madrid -, que quando resolve usar bigodinho é uma versão estilizada de um hodierno Errol Flynn - o eterno herói da celulóide dos anos 50, que foi da Tasmânia até Hollywood para imortalizar ‘Robin dos Bosques’ e revelar ao mundo do cinema o que é um verdadeiro galã e um destro espadachim. Já o “very British” David Beckham não tem quem se lhe compare quando aparece com madeixa de um loiro cintilante em estilo rabo de cavalo.

São tão visíveis em Beckham os seus trejeitos e ares cinéfilos que se o grande realizador David Lean fosse vivo, aproveitá-lo-ia como figura principal para revelar, em filme, a saga que consistiu na transferência do carismático inglês, do poderoso Manchester United para o não menos poderoso Real Madrid - insaciável “arrastão-do-alto-mar”, que faz razia sempre que vai “à pesca”! Um filme sobre Beckham, levado à tela por Lean, resultaria em sucesso de bilheteira e rivalizaria com as suas obras- primas, ‘Lawrence da Arábia’, ‘Doutor Zhivago’ e ‘Ponte no Rio Kwai’. E eclipsaria num instante o relativo sucesso da película ‘Bend it Like Beckham’ - a correr nos cinemas dos cinco continentes.

O menino-prodígio do futebol é o protótipo do “galgo”, o epítome de um romance felíz, o barómetro que anuncia a bonança ou a tormenta, a peça que faltava no mecanismo de rodas dentadas do colosso madrileno.

Beckham é um fenómeno de popularidade e um produto raro de exportação, oriundo do Reino Unido, que o Real Madrid comprou ao MU por magros 40 milhões de dólares. Quarenta milhões de dólares que para o contabilista do clube espanhol não passou de um cheque de míseros trocos! Quarenta milhões que ao clube inglês devem ter feito um jeitão, não se sabendo com rigor se não terá sido com um suspiro de alívio que também se viu livre de Beckham, pois constava que havendo lugar em Old Trattford para Sir Alec Ferguson - o consagrado treinador - não haveria lugar para o fulgurante “7”.

Enquanto se afinavam os termos da transacção, soou que em Madrid surgira a ideia de ir buscar o jogador a Manchester para aliviar o magnífico canhoto brasileiro, Roberto Carlos, do fardo que em si recaía da exclusiva marcação dos livres. Não teria antes sido intenção do Real desprover o MU da sua “agulha magnética”, seu futebolista-maravilha, seu expoente máximo, deixando o mais famoso clube do mundo e perigoso adversário “partido pelos rins” e a estrebuchar?

Após feitas certas contas apurou-se que Beckham e a sua esbelta mulher, Victoria - a ex-Posh, das ‘Spice Girls’ -, valeriam 82 milhões de dólares e que os 15 automóveis do famoso casal andariam, em números redondos, por cerca de 3 milhões. Mais já transpirou que Victoria prefere o BMW 750I, Saloon, Edição Especial, avaliado em 400 mil dólares, enquanto o marido conduz um mais modesto Bentley V8, que custou apenas 265 mil dólares. Quando resolve entrar em poupanças, Beckham recorre a um pobre Mercedes, tipo limusina, que adquiriu ao preço da chuva, tendo pago pela desprezível máquina teutónica a insignificância de 230 mil dólares. À frota rodoviária do amoroso par foi recentemente juntar-se um Audi A8, oferecido ao jogador pelo mui generoso Real Madrid - que Beckham pelo sim e pelo não pediu que fosse construído à prova de bala, e que dado o insignificante custo de 90 mil dólares é utilizado para compras de mercearia...

Talvez por tratar-se do último rebento da “ninhada” merengue - que se encontra globalmente registada nos livros como de “pedigree” superior -, Beckham é apaparicado em Madrid com mimos atrás de mimos, sendo porventura a estrela mais rutilante da “constelação alva” - teoria que não briga com a maior utilidade do brasileiro Roberto Carlos, jogador-esteio de quem o clube não pode prescindir, sob risco de cometer grossa asneira.

A equipa do Real Madrid - que veste tão imaculadamente como anjos e é, de facto, terreal, não sendo, pois, ficção - é comandada pelo categorizado treinador português Carlos Queiroz, que a sopesa como a um tabuleiro de xadrez com excesso de pedras de impossível arrumação, pelo que o privilégio de a conduzir é proporcional ao tremendo encargo de transformá-la em impiedosa máquina de triturar adversários. O Real é um “porta-aviões” com pista de aterragem pejada de “F-16”, pelo que o seu poderio de combate oblitera a trivialidade do fogo das “armadas” inimigas, que afunda inapelavelmente só com o sopro dos canhões. Afunda inapelavelmente? Não tanto! Que o diga o Milão, que há algum tempo fez o Real tombar! Que o diga o Valência - da bela cidade na foz do Guadalaviar -, que há algum tempo fez o Real cair!

Ganhar ao majestoso Real Madrid excede a perfídia, é sonhar com o palácio de alabastro e malaquite, é o triunfo da perseverança, a mais sublime exaltaçao da alma, a apoteose da antiga servitude, o orgasmo da coragem, o ejacular do ego.

Há já algum tempo realizaram-se 10 desafios com vista ao apuramento dos quinze países que estarão representados no Europeu de Futebol em Portugal, em Junho próximo. Um dos encontros que motivou maior expectativa jogou-se em Istambul entre a anfitriã Turquia e a Inglaterra - registando-se o apuramento dos ingleses e burburinho no túnel, ao intervalo. Assinale-se que a discórdia terá sido causada por uma manifestação sarcástica do defesa turco, Alpay Azalan, dirigida a David Beckham, por este falhar a marcação de um castigo máximo em condições verdadeiramente hilariantes. De facto, imagens da Televisão mostram Beckham a correr para a bola, pontapeando-a com alma e com fé, mas sem precisão nem vestígio de técnica, pelo que o esférico perfurou as nuvens suspensas sobre a pátria de Ataturk, indo ricochetear no tecto do céu antes de regressar à terra...

Sven Goran Eriksson - nosso conhecido e complacente treinador sueco da selecção inglesa - perdoou a Beckam o inepto chuto. Se, porém, a “pérola loira” da velha Albion tivesse errado o já célebre ‘penalty’ de Istambul ao serviço do Real Madrid, não se sabe se pelo menos não teria de devolver ao património merengue o tal Audi A8 blindado, das mercearias...

Algo me diz que a monumental fífia de Beckham - impensável até num reservista do “Futebol Clube Sonhar-Com-Milagres” - só contribuirá para atrazar a atribuição de insígnia da Ordem do Império Britânico.

Salvo qualquer lesão e correndo tudo como se espera, Portugal verá Beckam - afectuosamente,“Becks”, nas Ilhas Britânicas - por volta de Junho. Portugal vê-lo-á e vai gostar de vê-lo em acção. Conhece-se ao longe. Corre que se farta. Não corre, “sprinta”. Deve trazer a braçadeira de capitão da Equipa da Rosa. A Rosa Tudor. O emblema de Inglaterra. Rosa encarnada com centro branco. A invenção de Henry VII ao casar com Elizabeth de York. Beckam é o que aponta penalties ao céu. É raro marcar de penalty. Marca livres com curva. Marca golos de livres com curva. Vem para ganhar. A Inglaterra também. De todos, Beckham é o que mais se parece com um “movie star”. Irradia tons de loiro doirado. Sugere uma saudável espiga de trigo em Agosto. Se chegar bem disposto, vai ser um encanto. Se vier com “os azeites”, vai ser um inferno.

Deve trazer rabo de cavalo e bigodinho à Errol Flynn...

 
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