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Manuel Marulanda: O início dos sonhos com fuzil

31.03.2018 | Fonte de informações:

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Manuel Marulanda: O início dos sonhos com fuzil

Muito falta por cantar e desmentir sobre o Comandante Manuel Marulanda, neste 26 de março queremos relembrá-lo retornando a seu início, a sua origem na luta revolucionária como exemplo para a militância comunista e revolucionária

Juan Francisco Torres / ABP Ecuador

Fonte: prensa rural

 

"Com profundo pesar informamos que nosso comandante em chefe Manuel Marulanda Vélez morreu no 26 de março passado como consequência de um infarto cardíaco, nos braços de sua companheira e rodeado de sua guarda pessoal e de todas as unidades que compunham sua segurança, após uma breve enfermidade. Lhe rendemos as honras que merece um condutor de sua dimensão e dado sua honrosa sepultura. Despedimos dele fisicamente em nome dos milhares e milhares de guerrilheiros farianos e milicianos bolivarianos e dos milhões de colombianos e cidadãos do mundo que o valorizam, admiram e amam acima da asquerosa campanha midiática contra as FARC" - Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP Montanhas da Colômbia, 27 de maio de 2008.

A Colômbia possui, entre suas múltiplas características, uma que, por sua singularidade, a converte em exclusiva. O vallenato colombiano conseguiu fundir, por um lado, a história de amor em suas letras e, por outro -paradoxalmente- dar-lhe uma tonalidade musical muito alegre. Neste sentido, se transforma em elemento simbolicamente representativo da cultura popular colombiana.

No entanto, um dos mais belos cânticos tem sido ocultado e pouco reproduzido. Cânticos que, por sua vez, parecem lendas ou mitos e que surgem em meio à humildade de nossa gente, são transmitidos por meios não oficiais, não massivos, senão que pelo meio mais sincero que é o meio da palavra e da ação.

Pedro Antonio Marín, filho da terra bolivariana, campesino em sua origem, comunista e revolucionário como deve ser o destino dos justos, é um personagem típico, que por sua singeleza se pode encontrar em quaisquer dos campos de Nossa América. A terra de Génova em Quindío Colômbia foi a afortunada de parir em 1930 a Pedro Antonio.

Em meio aos cafezais e ao trabalho com a terra viveu sua infância, acompanhado junto a seus quatro irmãos e sob a influência do liberalismo da época que se apresentava como a proposta mais revolucionária.

Seus tios, tanto Ángel como José de Jesús, tiveram uma grande influência em sua vida; o primeiro no meio político por sua tradição liberal e o segundo em sua formação física mediante a prática de esgrima.

Como é o cruel destino da maioria de nossos campesinos, a Pedro Antonio lhe restou o duro caminho de abandonar sua casa com a idade de treze anos em busca de um destino melhor. Em meio a sua faceta como padeiro, serrador, açougueiro, que manteve desde sua precoce idade, a notícia fatal que as rádios reproduziam sobre o assassinato de Gaitán seria o motivo que preencheria de dor a Colômbia e mudaria a vida de Pedro Antonio.

Mataram a Gaitán! Mataram a Gaitán! A oligarquia o matou! Se ouvia pelas praças colombianas a 9 de abril de 1948.

Jorge Eliécer Gaitán, sob o lema Contra a oligarquia, à carga!, foi candidato à presidência pelo liberalismo, sua política nacionalista e popular impregnou nos setores mais excluídos da Colômbia. Gaitán era o candidato do povo. Seu covarde assassinato se produziu durante o governo do conservador Ospina Pérez, desencadeando a mais sangrenta guerra civil que dura até a atualidade.

Com o assassinato de Gaitán, o Estado Colombiano, dirigido pelos conservadores, iniciou o desdobramento de uma onda de terror por todos os campos colombianos, o objetivo era eliminar aos setores liberais a qualquer custo. Em meio a esta perseguição e em meio ao terrorismo de Estado, os grupos liberais tiveram duas opções: a primeira era a defesa de sua integridade, e a segunda: escapar sabendo que a morte iminente os perseguiria.

Muitos tomaram a primeira opção, entre eles Pedro Antonio, quem, acompanhado de 14 de seus primos, todos eles "Marín", inauguraram as autodefesas campesinas contra o terrorismo de Estado. Seu batismo de combate se deu em Cumbarco onde conseguiram a vitória com seus primeiros fuzis.

No entanto, as "noites vermelhas" que sobrecarregavam de sangue os cafezais colombianos seu curso, os voos de morte que os "pájaros", paramilitares, realizavam, em nome de Viva Cristo Rei!, invadiam de terror e chamas as comunas campesinas. Tudo o que se acerque a liberalismo devia ser exterminado.

Enquanto as autodefesas campesinas liberais mantinham a resistência, na Zona de Chaparral, da mesma maneira, os comunistas levavam a cabo uma heroica resistência desde 1949. Indiscutivelmente o combate implicou em ambas as guerrilhas se encontrarem.

Muitos liberais, considerados "limpos" de ideologias exóticas que vinham de Moscou, iniciaram cruzadas anticomunistas, estas unicamente fragilizaram a resistência e ademais impediram um mútuo entendimento para combater em conjunto ao inimigo em comum.

Enquanto continuavam "juntos porém não enlaçados", liberais e comunistas agudizaram ainda mais suas diferenças e contradições. Os vizinhos liberais não suportavam a disciplina, as guardas, as formações que os comunistas realizavam nos acampamentos para segurança de todos. A distribuição e socialização equitativa dos botins e das semeaduras coletivas foram da mesma maneira vistos com "maus olhos" pelos liberais, pior ainda o atrevimento dos comunistas de incitarem a luta contra o sistema de opressão.

O senhor Pedro Antonio, que já era conhecido como "Tirofijo", obviamente não compartia as posturas dos liberais, e mais, considerava pertinentes as ideias comunistas. No entanto, a Assembleia Liberal, depois de um debate intenso, resolve afastar os comunistas de suas fileiras. "Tirofijo" não se encontrava só, contava com o respaldo de Jacobo Prías Alape, Charro Negro, juntos serão os que peçam aos comunistas manterem uma reunião.

El Davis será testemunha da unificação necessária das guerrilhas para a resistência exitosa.

Neste contexto do amadurecimento guerrilheiro, a democracia colombiana sofre um novo trauma. Em 1953 Rojas Pinilla realiza um golpe de estado, agudizando o período político colombiano conhecido como "A Violência".

Uma vez unificada a guerrilha, Dom Pedro Antonio, que transitava por um curso de filosofia e economia marxista na escola do Acampamento "El Davis", toma o nome com o qual será conhecido até a eternidade. O senhor Pedro Antonio Marín, apelidado "Tirofijo", passará a se chamar Manuel Marulanda Vélez em homenagem ao dirigente sindical comunista assassinado pelo Serviço de Inteligência Colombiano [SIC].

Transcorrido o ano de [19]56, se dá lugar à Conferência Guerrilheira em Marquetalia, onde se decide um Estado-Maior com 13 integrantes. Manuel Marulanda é nomeado Chefe Militar e Charro Negro é nomeado responsável político.

Em setembro de 1958, Charro Negro, com base em resolução da Conferência Guerrilheira, se reúne conjuntamente com os delegados do governo nacional para levar a cabo um acordo de cessar-fogo que é levado a cabo.

Transcorreram alguns anos com essa tranquilidade -tensa- entre as partes, as linguagens do governo nunca foram de paz senão que de guerra que conjuntamente eram reproduzidas pelas alianças entre conservadores e liberais, os quais guardavam os acordos mais reacionários e criminais que desencadeariam posteriormente.

Tal qual, como havia descrito Marx no Manifesto Comunista, "todas as forças da velha sociedade se uniram em santa cruzada para acossar o fantasma do comunismo", no entanto e da mesma maneira "o comunismo já estava reconhecido como uma força em todas as partes".

Nos anos '60, o eterno retorno da violência oligárquica colombiana volta com mais força. Em 11 de janeiro acontece um novo "Gaitanazo", desta vez assassinaram pelas costas a Jacobo Prías Alape -Charro Negro- na Praça de sua Gaitania. Frente a esse fato, não se fez esperar a reação de fúria popular com a sede de justiça por um personagem que durante sua vida tinha trabalhado pelos pobres de seu povoado. Charro Negro foi um dirigente muito querido pelo povo, membro do Comitê Central do Partido Comunista.

Manuel Marulanda qualificou este acontecimento da seguinte maneira: "com o correr do tempo a morte do Charro nos levou a uma confrontação nacional com grandes perspectivas para produzir transformações; e se isso nos permite, criar todas as condições para tomarmos o poder. Nem todas as vezes se produzem levantamentos armados pela morte de um comandante; praticamente é caso único. De todas as maneiras em Marquetalia se acendeu a centelha e começo da revolução em sério de acordo com o que estamos vivendo".

A resposta de Manuel Marulanda e dos combatentes guerrilheiros não se fez esperar, Marulanda à frente com 30 aguerridos profissionais da revolução deram início à "Móvel", grupo especializado de revolucionários que iniciou seu caminho insurgente nos territórios liberados de Marquetalia, acompanhado por uma grande mobilização e simpatia das massas.

A luta revolucionária transitava seu curso, a guerrilha se fortalecia com o apoio de seu povo. A montanha, além de se converter num símbolo da esperança popular, é também o espaço onde se cruzam destinos e se colhem nessas mesmas terras os frutos do exército libertário de Bolívar na primeira independência.

Neste sentido e com uma descrição tão detalhada qual realismo mágico, se narra o encontro entre dois gigantes comunistas: Manuel Marulanda e Jacobo Arenas. "No meio da neblina e da chuva de abril de 1964, Marulanda recebe em seu comando da resistência a Jacobo Arenas e Hernando González, procedentes de Bogotá". "Com a companhia de vocês não deverá ser tão dura a guerra", foi a expressão ao abraçá-los. Marulanda e Jacobo, juntos, escreveriam as mais heroicas páginas da resistência e construiriam um imbatível exército revolucionário, cujo destino já estava remarcado com as características irreversíveis: a Nova Colômbia, a Pátria Grande Bolivariana e o Socialismo.

Por outro lado e como é constante nas desgraças da América Latina existe um fator comum: Estados Unidos.

O Imperialismo, com herança de sua política "macarthista" e frente ao medo do avanço comunista pela região, posteriormente à Revolução Cubana, elaborou o Plano LASO e em 1964 o desenvolveu pela Colômbia. 16.000 efetivos invadiram Marquetalia. Apesar da brutal e inumana operação, o escudo moral dos 48 bravos combatentes conseguiu resistir aos invasores.

A 27 de maio de 1964 se levou a cabo os primeiros combates no cânion do Rio Atá, estes serão os momentos que darão fundação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia [FARC].

Marquetalia se converteu na genuína expressão da acertada combinação de todas as formas de luta, as guerrilhas móveis eram a expressão da única forma do quefazer político nesse momento histórico. No entanto, nem tudo é alegria e vitória, a montanha também apresenta momentos de dor porém que, paradoxalmente, são o início da multiplicação de combatentes e felicidades. "Numa das ações de combate, cai o maior capitão da guerrilha que Manuel pôde haver tido, o índio bravio, Isaías Pardo. Apesar de ter recebido uma rajada em seu peito, continuava lutando e, ainda que se lhe escapava a vida, sua carabina San Cristóbal não deixava de troar. "Manuel, ao conhecer a terrível notícia, não sabia o que fazer com as mãos, apertava com força a boquilha de sua carabina M-1, soltava-a com docilidade, metia as mãos nos bolsos das calças como que buscando qualquer coisa, tirou o gorro da cabeça, apertou-o fortemente entre suas mãos e ficou olhando com sua mirada fixa e penetrante a montanha... Não queria falar Manuel, é que Marulanda não podia falar. Ao fechar os olhos, deixou cair duas grandes lágrimas como pérolas que lhe banharam todo o rosto".

Nas montanhas da bolivariana Colômbia se levou a cabo o início da história de Manuel Marulanda, 60 de seus 78 anos de sua vida dedicou à causa dos mais pobres de sua Colômbia e da América.

Estas curtas letras deste "vallenato colombiano" têm sido ocultadas, muitas outras silenciadas. O Che Guevara, um dos cantores da verdade colombiana, expressava num discurso em defesa de Marulanda na ONU: "Não recorda o senhor representante da Colômbia que em Marquetalia há forças às quais os 11 próprios jornais colombianos têm chamado de 'A República Independente de Marquetalia' e a um de cujos dirigentes se lhe pôs o apelido de "Tirofijo" para tratar de convertê-lo num vulgar bandoleiro?"

Muito falta por cantar e desmentir sobre o Comandante Manuel Marulanda, neste 26 de março queremos recordá-lo retornando a seu início, a sua origem na luta revolucionária como exemplo para a militância comunista e revolucionária. E, como reconhecimento herdado dele, dizemos que com comandantes revolucionários como Marx, Lênin, Bolívar, o Che, Fidel, Ricardo Paredes, Cesar Endara, Dolores Cacuango, Luisa Gómez de la Torres, Manuel Marulanda e milhares mais compunham nossa coluna férrea e histórica do exército revolucionário que estão presentes em todas as nossas formas de luta e como direito irrenunciável e legítimo a caminhar juntos pelo socialismo.

 

Tradução > Joaquim Lisboa Neto

 

 
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