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O trabalho entre prazer e sofrimento

28.05.2009 | Fonte de informações:

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Longe de enfrentar a causa, via de regra, as pessoas se concentram no sintoma e em tudo o que teima em fazê-lo aparecer. Se o refletir sobre a própria condição eleva ainda mais a sensação de insegurança, o jeito, então, é anestesiar o pensar e o sentir, pois, de um lado, há um rechaço da realidade e, de outro, em direção oposta, há a percepção do perigo que esta representa. O indivíduo sabe, mas prefere não saber. Por isso, uma das saídas iniciais diante dos primeiros sinais de alerta do corpo e de sua estrutura psíquica é a de não dar bola a eles apelando para a capacidade de segurar o rojão comprovada nas situações vivenciadas no passado e fantasiada de maneira excessiva justo na hora em que alarmes evidentes indicam um nível de desgaste preocupante.

O esforço de esconder o próprio sofrimento e a crença do sujeito de que, à diferença dos demais, nada ruim vai acontecer com ele se ele não deixar a peteca cair passam a ser sustentados pelo aumento voluntário do ritmo de trabalho. Produzir mais não é apenas uma forma de pensar menos nos sofrimentos já experimentados, mas a pedra angular com a qual o trabalhador procura demonstrar a si próprio que ele não é um fraco, que não vai ficar chorando pelos cantos e que a dor não vai derrubá-lo.

Do mesmo modo em que, ao superar o exame de direção, o motorista novato acelera para provar que se sente seguro em relação à sua capacidade de guiar o carro, e depois acaba batendo exatamente por não conseguir controlar sua potência e reações na estrada, a elevação do ritmo agrava as condições de saúde física e mental na exata proporção em que o sujeito se esforça para exorcizar esta possibilidade. Isso ocorre porque, no lugar de pisar no freio após chegar aos 80 por hora, ele bota os dois pés no acelerador. O ronco do motor avisa que ele está preste a passar dos limites, mas quanto mais o barulho fica estranho, mais o empregado se convence da necessidade de não recuar, de continuar negando que as coisas estão se tornando insustentáveis.

Ao perceber que os novos patamares de produção, tão caros e desejados pelos lucros empresariais, não bastam para vencer o sentimento de insegurança que volta a ameaçar o frágil equilíbrio de corpo e mente, o trabalhador não apenas silencia o que está sentindo, como passa a negar o sofrimento manifestado pelos colegas. Ele não tolera quem rompe a barreira do silêncio para expressar o que sente justamente porque vê em suas palavras e gestos o convite a reconhecer e partilhar uma realidade que aumenta a sensação de ameaça de aniquilamento, de angústia, de desintegração dos próprios sonhos e da sua personalidade. Por isso, não hesita em chamar estes colegas de frouxos, a se isolar, a negar o que está sentindo, a atribuir o sofrimento dos demais a fragilidades estritamente pessoais das quais ele não partilha por ser forte, capaz de se superar e, obviamente, por não lhe faltar coragem pra trabalhar.

Ao mobilizar nesta direção todos os recursos disponíveis, o empregado torna-se literalmente incapaz de recusar-se a submeter sua vida a um trabalho que o destrói ao mesmo tempo em que continua vendo a empresa como âncora de salvação, como porto seguro diante da tempestade que se aproxima.

A situação precipita quando a doença chega com tamanha força que impossibilita a realização das tarefas que faziam e davam sentido aos melhores anos de sua existência como ser humano. O trabalho que amava e ao qual sacrificava todas as energias na certeza de que lhe daria sempre o reconhecimento almejado, a proteção desejada, a sua realização profissional e humana, além da possibilidade de fazer seus sonhos virarem realidade acaba de decretar que ele já não serve aos seus propósitos.

Seus atestados são visto como algo que prejudica o desempenho financeiro da instituição, seu pouco interesse e baixo ritmo de produção como frescura a ser punida com medidas disciplinares. A carta de demissão ou as pressões para pedir a conta são justificadas perante os demais funcionários como a necessidade de se livrar de um peso, de uma carga inútil que estorva o sucesso dos colegas e impede que a organização atinja seus objetivos. O sofrimento físico e mental que, por semanas, meses e anos, havia garantido à empresa a possibilidade de ampliar as metas, elevar a produtividade e o lucro, acaba de se transformar no seu contrário e, por isso mesmo, a peça estragada precisa ser colocada de lado com a mesma naturalidade com a qual parece justo, lógico, normal e inteligente se livrar de uma mala sem alças.

Posto de lado como um pneu careca, o sujeito percebe que o nós pronunciado pelos superiores hierárquicos toda vez que o coletivo precisava assumir as demandas vindas de cima não existe mais. Em seu lugar, para ele, sobra apenas um refugo de eu à beira da desintegração. A sensação de morte, de fim de linha, de ponto final para todos os sonhos de afirmação pessoal abre as portas para o que os especialistas chamam de ‘doenças da solidão’ em função da causa que está na sua origem”.

- “Doenças da solidão...?!?”, repete o homem entre a pergunta e a afirmação.

 
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