Pravda.ru

Notícias » Sociedade


O trabalho entre prazer e sofrimento

28.05.2009 | Fonte de informações:

Pravda.ru

 
Pages: 12345678910

- “Além de todos os aspectos levantados nas páginas anteriores há um que costuma passar desapercebido aos olhos pouco atentos dos humanos, mas que, somado ao medo do desemprego e da frustração dos próprios sonhos, constitui uma forma de coação tão sutil e eficiente que o indivíduo passa a usá-la como parâmetro para medir a si próprio: a inversão de valores pela qual a virilidade é transformada em coragem, a submissão em virtude e a cegueira em capacidade única de enxergar a realidade”.

- “Você poderia ser um pouco mais clara...?”, pede o homem ao empurrar os óculos contra a testa.

- “Então vamos por partes – sugere a coruja ao espetar o ar à sua frente com a ponta da asa esquerda.

Para que pessoas de bem, dotadas de senso moral aceitem fazer algo sujo ou assumam uma ativa servidão voluntária diante das demandas da empresa não é suficiente que haja pressões externas via medo do desemprego ou a simples possibilidade de ver seus sonhos pessoais irem por água abaixo. É necessário, isso sim, que elas acreditem estar fazendo o que é melhor tendo como base alguns valores, pouco importa se próprios ou adquiridos, em função dos quais se dispõem a controlar não só as respostas às solicitações do trabalho, mas também as próprias emoções e reações corporais que passam a ser submetidas a uma disciplina férrea que o sujeito impõe a si mesmo. Um exemplo vai ajudar a entender melhor o funcionamento deste mecanismo.

Imagine uma situação na qual um exército tenha invadido o território de um país vizinho. Em sua marcha rumo à capital, colheitas foram destruídas, pessoas foram massacradas pelos soldados e parte considerável do que antes servia à sobrevivência da população ou foi confiscado pelas tropas de ocupação ou acabou perdido nos bombardeios. A fome reina soberana e, com ela, o desespero de milhares de seres humanos, todos eles civis desarmados.

Ao saber que o sentimento de revolta contra os abusos sofridos está empurrando o povo a reagir contra o vencedor, o general reúne seus homens. Saudados os soldados com discursos patrióticos que enaltecem a coragem e a bravura demonstradas nos combates, ele usa seu prestígio para dizer: Está na hora de prestarmos mais um serviço à pátria, de realizarmos mais um ato de coragem que freie com nossas armas as forças que ameaçam a implantação dos valores que abriram caminho nas linhas inimigas e aqui nos trouxeram para realizar o destino histórico da nossa nação.

Qualquer soldado que ouve este discurso com dois gramas de cérebro funcionando tem consciência de que o alto graduado do seu exército lhe pede para atirar em homens, mulheres, crianças e anciãos desarmados e inocentes que, por sinal, têm toda razão de se revoltar. Ao saber disso, você, como soldado, pediria para ser dispensado da chacina anunciada ou participaria dela controlando todas suas reações físicas e emocionais para executar de maneira eficiente a missão que lhe foi entregue atribuindo ao general toda responsabilidade pelos seus atos?”.

- “Bom, numa situação como esta não é fácil decidir.... Mas, com certeza, seria quase impossível dar pra trás diante dos colegas de armas. Deixar as fileiras significaria abandoná-los, confessar-se fraco ou covarde... Enfim, enfrentar a atitude de apoio da maioria com um não, implicaria em desmoralizar-se diante de todos e, com certeza, virar objeto de chacota, gozação e execração pública... Acho que seria difícil não ir com os demais...”.

- “Veja bem. Ainda que cenas como esta se repitam em, praticamente, todas as guerras, o exemplo terrível que apresentei retrata justamente a inversão de valores da qual estava falando. O medo de ser desprezado e de perder a sensação de pertencer àquele coletivo, as preocupações relativas ao sofrimento de uma condenação pública e à aparente perda da própria identidade de soldado a serviço da nação levariam a maioria a participar da chacina, não a se recusar e, menos ainda, a usar a própria arma para atirar num sujeito que apela a valores patrióticos para justificar a participação coletiva num ato ignóbil e desprezível.

O que seria um gesto de coragem (a recusa ou o tiro disparado contra o oficial) é visto como o seu oposto, ou seja, como uma postura covarde, no exato momento em que covardia é empunhar as armas e atirar contra gente indefesa e inocente cheia de razão em suas manifestações de descontentamento. Ao participar do massacre, o soldado comete o mal por motivos estritamente pessoais (não quer parecer frouxo ou covarde), mas, ao cometê-lo em nome do seu trabalho, faz esta atitude passar por desprendimento em relação a si próprio ou, até mesmo, por dedicação á causa, à nação, a um suposto bem-comum.

O ingrediente principal que possibilita esta opção não é a coragem, mas sim algo bem mais simples e nefasto: a virilidade. É ela a fazer com que a pessoa não hesite em infligir dor e sofrimento aos demais em nome do exercício, da demonstração ou do restabelecimento do seu domínio sobre todos os valores éticos. Ao contrário da coragem (que não precisa de demonstrações espalhafatosas e pode ser até mesmo realizada no silêncio, na discrição e tem a própria consciência como único juiz), a virilidade demanda do indivíduo seguidas provas de visibilidade, de seu compromisso com o ambiente circunstante, precisa do reconhecimento alheio e está sempre disposta a chamar de fraco, frouxo, florzinha, bunda mole, mulherzinha, ruim de serviço, boiola, incompetente, covarde, medroso e assim por diante todos aqueles que resistem às suas exigências.

E, como você sabe, ninguém gosta de ser visto como incapaz e sem coragem, ou seja, sem aquela que, por sinal, é considerada a virtude por excelência.

 
Pages: 12345678910
50310

Fotos popular