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O trabalho entre prazer e sofrimento

28.05.2009 | Fonte de informações:

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- “Mas não há nada que possa azedar isso tudo?”, pergunta incomodado o homem ao mexer nervosamente o corpo na cadeira.

- “Sim, querido secretário. Esta possibilidade existe, mas para se concretizar precisa de um elemento que anda escasso no seio do trabalhador coletivo: a cooperação. O entendimento do trabalho e de suas relações nunca pode ser limitado ao vínculo que se estabelece entre o indivíduo e as tarefas que lhe são designadas. Mesmo sem sair do perímetro da empresa, trabalha-se sempre para alguém, com alguém ou subordinado a alguém. Por isso, o sofrimento só pode ser rejeitado ou enfrentado coletivamente quando há confiança e cooperação entre as pessoas que passam a desenvolver seus macetes e quebra-galhos numa ótica diferente daquela que, via de regra, é assumida por quem embarcou na lógica da competição individual e vê o outro como concorrente que precisa ser derrotado em nome dos próprios sonhos, necessidades e aspirações.

No passado, o caminho das lutas que se desenvolveram no interior dos locais de trabalho não foi construído apenas aproximando um ladrilho de dignidade a outro de rebeldia, mas cada uma dessas peças só dava liga na medida em que relações de confiança, de amizade e de solidariedade constituíam a base sobre a qual assentar o descontentamento e a revolta coletiva. Neste contexto, o macete, o quebra-galho, enfim, o fruto do saber prático, não serviam apenas para uma eventual promoção, para não ter problemas com as metas ou para ganhar momentos de descanso no ritmo frenético da linha de produção, mas para se tornar a base concreta capaz de dar cor e forma a expressões do tipo esse chefe vai me pagar ou nosso patrão não perde por esperar que, ao externar a revolta diante do sofrimento diário, revelavam a ebulição da indignação diante da percepção da injustiça.

O problema é que esse tipo de cooperação não cai do céu. Ele é sempre uma construção difícil e precária na medida em que supõe boas doses de compromisso com o coletivo, desprendimento, gratuidade, disponibilidade para atender às necessidades do outro, confiança, cumplicidade e coragem para assumir com os demais os riscos de enfrentar o que gera sofrimento e nega a vida coletiva. Nestas condições, o sofrimento não é negado, mas sim afirmado e denunciado e o silêncio que marca longos períodos de calmaria nada mais é a não ser o tempo de gestação de uma resposta que busca frear o avanço da exploração.

Assim como num coral não é fácil harmonizar as vozes e transformá-las num único som, pois isso exige que cada componente controle seu poder vocal, a construção do sentimento de coletividade no interior do local de trabalho demanda uma disponibilidade igualmente complexa. Além da rotatividade dos funcionários que, sem pedir licença, altera a identidade que se estabelece em seu meio, e da complexa relação entre experientes e novatos, quem se dispõe a organizar a base precisa ter paciência e jogo de cintura suficientes para ouvir, para dialogar com as mais diferentes posições, para ajudar a evidenciar até a que ponto sonhos e desejos não passam de ilusões e em que medida aquilo que o indivíduo considera um valor não passa de algo que atende interesses de classes bem distantes dos seus.

Para que a relação dê os frutos desejados, não basta ter idéias, a disposição de não julgar como fútil o que, no momento, faz a vida do colega, mas é preciso também ter capacidade e preparo para inserir as demandas individuais num contexto mais amplo, coerência de vida e de princípios, sensibilidade para saber escolher o momento certo de intervir, tato para manter sempre aberto um canal de comunicação com os colegas de trabalho, coragem para mostrar abertamente possibilidades, limites e conseqüências de cada escolha, maturidade para saber apostar no envolvimento do coletivo e uma honestidade de fundo que os demais vão reconhecer não nas palavras, mas sim nas ações.

Agora, este conjunto de atitudes, mesmo quando presente nos organizadores, tem cada vez mais dificuldades de penetrar no indivíduo se este, como já vimos, optar por vencer sozinho, se realizar sozinho, enfim, tiver as pupilas grudadas no próprio umbigo, pois sua resistência a se deixar questionar, seus sonhos de consumo e seu espírito de adaptação às exigências da empresa tendem a mantê-lo isolado e a mergulhá-lo numa espiral que o sufoca na exata medida com a qual se entrega a ela em busca do que chama de ‘aproveitar a vida’ou de auto-realização”.

- “Se é assim, quais são os mecanismos que permitem explorar o sofrimento e as defesas individuais para elevar a produtividade e, de conseqüência, os lucros?”.

Satisfeita com o interesse do seu ajudante, Nádia franze as plumas do rosto e, ao balançar o corpo, se prepara a responder com a atitude de quem está disposto a ampliar a visão do ouvinte e a torná-lo atento à manifestação de processos tão simples e corriqueiros quanto carregados de novos desafios. Sem pressa, apóia as costas na pilha de livro e após, alguns instantes de silêncio, diz:

 
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