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O trabalho entre prazer e sofrimento

28.05.2009 | Fonte de informações:

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- “Pelamesma razão pela qual o burro, após apanhar do dono, olha para a cenoura e apressa o passo toda vez que este faz o chicote assobiar no ar. Para evitar a dor no seu lombo, ele acelera o seu caminhar, ainda que esteja estafado. Isso não quer dizer que ele pode continuar assim indefinidamente. Mas o próprio dono sabe que, esgotado um burro, é sempre possível substituí-lo por outro sem grandes dificuldades”.

- “E a cenoura?!?”.

- “Ora! A cenoura é dada por outro mecanismo tão importante neste processo quanto a presença do chicote: o reconhecimento.

Nas páginas anteriores, vimos como este fator põe em movimento atitudes e formas de comportamento do indivíduo perante a sociedade. Na empresa, porém, as relações que se gestam ao redor deste elemento ganham características diferenciadas e, às vezes, opostas. Em primeiro lugar, podemos dizer que é no reconhecimento da qualidade do seu trabalho que o funcionário não encontra apenas um sentido para seus esforços, suas angústias, dúvidas, sucessos ou decepções, como é através dele que se torna capaz de estabilizar e estruturar sua identidade e personalidade.

Quando isso ocorre, o sujeito não ganha somente momentos de alívio para o seu sofrimento, mas sim uma mola propulsora que leva a transformar este mesmo sofrimento em estímulo para a contínua busca de soluções capazes de responder ao desafio de aproximar o trabalho prescrito do real e em prazer de usar o próprio talento nesta empreitada. O médico que no meio de uma cirurgia se vê obrigado a usar um procedimento não-convencional para salvar o paciente vivencia profundos momentos de angústia e de tensão. Se o doente se salva, o assumir os riscos daquela decisão tende a ganhar o sorriso, a aprovação e a admiração não só do paciente, como de seus familiares e da própria equipe de trabalho. Mas, se o resultado for outro, o cirurgião, provavelmente, será processado, recriminado pelos colegas, julgado incompetente pela direção do hospital, podendo vir a perder o emprego e o registro de médico. Ele fez o impossível para salvar uma vida, mas fracassou. A falta de reconhecimento do seu esforço tende a transformar o seu sofrimento em algo absurdo e alimenta um círculo vicioso de sensações que podem desestruturá-lo.

Do mesmo modo, por exemplo, inúmeros mecânicos de manutenção vivenciam diariamente uma situação parecida. Na falta de peças de reposição, são obrigados pelas pressões da chefia a ‘dar um jeito’, a ajustar o impossível para prolongar a vida útil daquele mecanismo, mas, ao fazer isso, sabem estar se colocando na corda bamba. Como no caso do médico, seu esforço e sua criatividade serão reconhecidos se tudo der certo, mas eles mesmos acabarão execrados e desqualificados perante todos se algum acidente vier a ocorrer em função do mau funcionamento do equipamento em questão.

Em graus e formas que diferem a depender da função e da responsabilidade do cargo, podemos dizer que quem trabalha é chamado a tolerar este sofrimento até que o caminho encontrado para superar os obstáculos tenha sido analisado, aceito e incorporado como prática corrente pelos setores responsáveis. Neste processo, o reconhecimento torna-se peça-chave para que o indivíduo continue tentando, experimentando, mantendo seu talento voltado à busca constante de novas saídas para a plena realização das tarefas exigidas.

Ao vencer este desafio, o sujeito se transforma e, de certa forma, torna-se alguém mais inteligente, mais hábil e mais competente do que era antes. Ou seja, trabalhar não é apenas produzir e ganhar a vida, mas sim entrar de corpo e alma num processo que vai construindo a própria personalidade. Nele, a identidade do indivíduo não se ergue apenas a partir de sua relação com o trabalho, mas da confirmação e da aprovação que vêm do olhar do outro pelo reconhecimento do esforço despendido na solução dos problemas deixados em aberto pela organização dos processos produtivos.

Nas empresas, esta aprovação se expressa ora através de prêmios em dinheiro, viagens, elogios públicos à utilidade social, econômica ou técnica do trabalho realizado, exposição da foto do funcionário do mês, ora através de simples expressões informais tais como você fez um belo trabalho, o que você conseguiu fazer vai fazer a diferença aqui dentro e assim por diante, mas sempre focalizada ao que foi realizado e não ao seu autor para que os colegas de profissão não recebam o julgamento positivo de alguém que conhecem como uma injustiça contra si próprios, sentindo-se menosprezados em seu próprio esforço.

Além de manter elevado o entusiasmo pessoal na cooperação com a empresa, o reconhecimento que vem das chefias estimula o orgulho de pertencer à organização, fortalece a auto-estima, eleva a capacidade de tolerar o sofrimento, reforça os vínculos com uma cultura ou filosofia gerencial que, pouco a pouco, passa a guiar o indivíduo até nos projetos e momentos fora do ambiente de trabalho, alterando substancialmente as convicções e os critérios de análise a partir dos quais realiza sua inserção na sociedade e faz a leitura de tudo o que está em volta dele. Ou seja, apesar de ter sua raiz no âmbito dos processos produtivos, os efeitos do reconhecimento invadem os demais espaços de vivência diária e levam o sujeito a se entregar corpo e alma a quem deu sentido a seu sofrimento, apostou em sua capacidade e reconheceu suas realizações. Quando concretizado com coerência e sutileza, este investimento empresarial tende a moldar um funcionário mais confiável, disposto a dar sua contribuição pessoal não apenas suando a camisa, mas sim lutando ao lado da empresa como um verdadeiro militante do capital”.

 
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