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O trabalho entre prazer e sofrimento

28.05.2009 | Fonte de informações:

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- “Mas além de alivio, isso pode vir a ser um tiro no pé”, prorrompe o homem ao perceber a ambigüidade das formas pelas quais trabalhadores e trabalhadoras buscam se proteger do sofrimento.

- “Na mosca!”, confirma Nádia com um gesto que parece unir as peças do quebra-cabeça num conjunto que esboça uma imagem ainda fragmentada e nebulosa. “De fato, ao mesmo tempo em que as estratégias defensivas buscam fortalecer as condições que permitem a um indivíduo ou grupo de resistir aos efeitos prejudiciais do sofrimento sobre o seu equilíbrio mental, ela pode funcionar como uma armadilha na qual as pessoas são anestesiadas e se tornam insensíveis a tudo aquilo que as faz sofrer. Ao proporcionar certo grau de adaptação ás pressões que vêm de todos os lados e estabilizar a relação entre o empregado e a organização do trabalho, as estratégias de defesa acabam alimentando uma resistência à mudança tanto maior quanto mais delicada, difícil e psicologicamente sofrida foi a construção destas mesmas estratégias. Ou seja, quando trabalhadores e trabalhadoras conseguem estruturar e sustentar suas formas de reação ao sofrimento, eles e elas não só hesitam em questioná-las como buscam transformar sua manutenção em objetivo a ser conquistado a qualquer preço e não titubeiam em direcionar seus esforços para afastar quem ameaça desestabilizá-las.

Mas isso não é tudo. Ao aplanar o caminho para que o sujeito se acostume aos desafios do trabalho, as reações que descrevemos acima o levam a se adaptar aos riscos, a deixar de perceber a gravidade dos perigos que o cercam e a impedir, ao menos parcialmente, que ele tome consciência da exploração. Neste contexto, as denúncias sindicais produzidas sem o devido conhecimento da realidade e de como esta é apropriada pelos empregados, com uma linguagem agressiva ou incompreensível a quem não integra qualquer organização e com baixíssimo envolvimento da base diretamente interessada, pode produzir o efeito oposto ao desejado ou, quando isso não acontece, um fortalecimento dos próprios mecanismos de defesa.

Esta reação aparentemente contraditória dos empregados torna-se compreensível na medida em que sua postura defensiva leva-os a interpretar o sofrimento não mais como fruto da exploração do trabalho, mas sim como resultado do enfraquecimento das estratégias com as quais pretendem enfrentá-lo. Na medida em que vai se apagando a percepção desta relação com o processo produtivo, cresce, contraditoriamente, a defesa dos mecanismos de proteção contra o sofrimento que passam a ser vistos como promessa de alívio imediato e seguro. Dobrado sobre si mesmo, o empregado experimenta uma gostosa sensação de afastamento da realidade e de relaxamento tão sensivelmente eficaz que o faz se sentir bem consigo mesmo. Em função disso, ele passa a estruturar suas ações, sonhos e desejos em volta de algo que nasceu para defendê-lo de uma realidade que precisa ser eliminada e não para que cessem as ameaças, os desconfortos, as dores e as frustrações que vem dela e lhe proporcionam uma constante sensação de insegurança.

Ao servir-se dos mecanismos de defesa para se adaptarem às pressões do trabalho e ao defendê-los de espada na mão, homens e mulheres desqualificam, afastam e até mesmo agridem aqueles que questionam estes mecanismos ou se mostram reticentes em adotar as posturas assumidas pelos demais. Neutralizados os elementos contrastantes, as estratégias de defesa deixam aberto o caminho para a auto-aceleração do ritmo de trabalho por parte dos indivíduos e das equipes envolvidas (o que favorece as políticas de produtividade das empresas), para a elevação das pressões de cumprimento das metas e, por sua vez, para um ulterior fortalecimento dos mecanismos de defesa como forma de suportar o peso das novas demandas.

Trocado em miúdos, podemos afirmar que esta forma de reação espontânea diante do sofrimento leva pessoas e equipes a levantar uma barreira protetora. Esta cerca, porém, ao proporcionar uma aparente defesa individual ou coletiva conduz a uma adaptação às ameaças e aos desafios do trabalho. Graças aos mecanismos e às relações que se desenvolvem, trabalhadores e trabalhadoras começam a não ver claramente a exploração que pesa em seus ombros e a gravidade das formas pelas quais esta se manifesta. Anestesiados por suas reações espontâneas, chegam a acreditar piamente que o jeito é reforçar a cerca e não lutar contra a realidade em função da qual foi erguida.

Esta é a razão pela qual entram em choque com quem questiona e enfraquece a impressão de alívio e segurança que os mecanismos de defesa proporcionam. Empenhados nesta tarefa de exorcizar o retorno da ansiedade e da insegurança, os empregados não percebem que o patamar de adaptação ao trabalho assim atingido torna-se ponto de partida de um novo aperto por parte da empresa cujas relações aprimorarão as possibilidades de explorar em benefício próprio o que os empregados construíram para se proteger do sofrimento vivenciado no cotidiano do trabalho”.

- “O que não consigo entender – diz o ajudante ao coçar a cabeça – é porque as pessoas não conseguem se dar conta disso...”.

 
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