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O trabalho entre prazer e sofrimento

28.05.2009 | Fonte de informações:

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- “Exatamente! Entre as formas de defesa mais comuns estão os comportamentos que levam o sujeito a se desvencilhar das responsabilidades, a se recusar a tomar qualquer iniciativa, a remeter toda decisão a uma posição oficial da chefia ou a se ater às normas que constam do regulamento. Neste caso, o funcionário viabiliza uma espécie de operação padrão solitária e intermitente na medida em que o fantasma da demissão ganha corpo diante das acusações de implicância e falta de compromisso com a empresa, o que desgasta sistematicamente a proteção com a qual procurava se cercar em caso de dificuldade.

Em sentido oposto, encontramos atitudes de fechamento numa autonomia máxima, de segredo, de silêncio diante dos superiores e dos próprios colegas. Apesar do caráter intrinsecamente coletivo do trabalho, nos deparamos aqui com empregados que fazem o impossível para evitar qualquer situação de confronto, de conversa, de discussão, de conflito, de envolvimento, a ponto de se recusar a cumprimentar os colegas. No lugar de almejar o encontro, o sujeito faz o impossível para privilegiar os momentos em que este é materialmente impossível e, no lugar de se confrontar com os demais, prefere se isolar num canto do refeitório, tomar café antes ou depois da turma, entrar e sair do vestiário quando este está mais vazio, se envolver em trabalhos que exigem esforço redobrado e tamanho grau de concentração que pensar em trocar idéias é algo simplesmente fora de lugar. Ao optar pelo ‘cada um por si’ (que não poucas vezes descamba para o ‘deixa correr frouxo para ver no que vai dar’), o indivíduo acaba dando sopa ao azar.

Estou me referindo, por exemplo, à ocorrência de tonturas ou desmaios provocados por produtos químicos (e que acometem o empregado em lugares onde ele não pode contar com a ajuda de ninguém), ou ao não apontar o desgaste de ferramentas e de peças do maquinário onde trabalha e cuja ruptura pode se reverter contra ele mesmo já que é praticamente impossível controlar a priori o momento exato em que tais incidentes podem ocorrer. Além disso, esta orientação tende a bloquear a construção de qualquer sentimento de coletividade na medida em que leva a desconfiar seguidamente da postura e das afirmações dos próprios colegas ou a interpretar suas respostas como expressão de hostilidade contra o próprio jeito de trabalhar.

Outra forma de defesa bastante comum consiste em passar por cima do chefe imediato para se dirigir diretamente ao superior deste. O problema é que, ao ser deixado deliberadamente de lado e ao ser colocado, assim, numa posição desconfortável, o primeiro pode reagir de forma a colocar em maus lençóis o trabalhador que menosprezou o seu papel. Ao perceber esta possibilidade, a maior parte dos colegas prefere enfrentar em silêncio o próprio sofrimento ou expressá-lo só no consultório médico, quando já não dá mais para agüentar os efeitos desse desgaste. Infelizmente, porém, são bem poucas as chances que os trabalhadores têm de encontrar profissionais que vão às causas remotas dos sintomas físicos que apresentam ou que, ao menos, se dão ao trabalho de perguntar, por exemplo: onde é que você trabalha? O que te deixa mais estressado na rotina das tarefas que você executa? Que produtos você manipula? Ou, ainda, se esta dor tivesse voz, que aspectos do seu trabalho apontaria como responsáveis?

Isso significa que, longe de poder contar com uma ajuda mais abrangente, a individualização do sofrimento e a leitura asséptica que dispensa a compreensão do contexto em que o sofrimento se manifesta, oferecem como resposta a absurda recomendação de se acalmar, não ficar nervoso, procurar dormir oito horas de sono restaurador, comer na hora certa, como se isso dependesse unicamente da vontade do sujeito. No máximo, para mostrar que a consulta valeu a pena, o consolo vem através de uma receita cujo conteúdo, na melhor das hipóteses visa reduzir a dor física e estabilizar a capacidade de segurar o tranco. E aqui quando não há despreparo dos médicos há, pelo menos, certa dose de conivência com uma realidade que se prefere desconhecer ou que, ao ser revelada nas consultas, não passa do segredo entre médico e paciente sem ter assim a menor chance de virar base para um diagnóstico mais completo até mesmo nos casos que teimam em se repetir com freqüência assustadora.

Outra reação igualmente comum entre os empregados consiste em se desfazer de trabalhos particularmente penosos repassando-os para os novatos ou para os terceirizados cuja inexperiência ou rotatividade facilitam à empresa a tarefa de apagar os vestígios das doenças profissionais ou dos acidentes mais graves. A esperteza de alguns, passa a ser paga por todos na medida em que o sistema de comunicação empresarial não enfrenta críticas consistentes na hora de falsear os dados sobre as ocorrências e o perigo representado pelo desempenho de determinadas tarefas nas condições próprias do processo de trabalho.

A soma destes elementos aponta a normalidade do aparecimento de atitudes defensivas que ganham formas diferenciadas a depender da personalidade e do histórico profissional de cada funcionário e que, não poucas vezes, resvalam em acusações gratuitas de incompetência ou em expressões de agressividade próprias de inimigos jurados e não de colegas de trabalho.

Em geral, o sofrimento experimentado na hora de preencher a distância entre o trabalho prescrito e o real, quando respondido pelas formas de defesa que apresentamos acima, leva as pessoas a mergulharem num ativismo tanto mais intenso quanto mais este permite deixar de pensar, de refletir sobre a realidade e de fazer passar desapercebido o próprio sofrimento. Trata-se de vencer a ansiedade e a tensão com afadiga física. Quanto mais horas e mais rápido se trabalha, mais o tempo passa depressa, mais se garante a aproximação dos próprios sonhos, menos se discute, menos se lembra do perigo existente, menor o esforço para esquecer dos desgostos e das situações desgastantes que permeiam o cotidiano”.

 
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