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O trabalho entre prazer e sofrimento

28.05.2009 | Fonte de informações:

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O trabalho entre prazer e sofrimento

Aproveitando do instante em que Nádia permanece silenciosamente pensativa, o secretário levanta e dá uma gostosa espreguiçada. Entre o incômodo da tendinite, a tensão provocada pelas descrições do relato e a curiosidade em relação a seu possível desfecho, o corpo parece se recusar a continuar o trabalho. Para quem já estava acostumado com a escuridão do não-saber, qualquer raio de sol ganha as feições de uma arma que, ao ferir a cegueira antiga, provoca a desagradável sensação de que tudo o que parecia sólido começa a derreter sob os próprios pés.

Ao perceber a tentação do seu ajudante, a coruja limpa a garganta para atrair a atenção e, ao dirigir para si os olhares titubeantes do homem corpulento que está diante dela, aponta a asa para os papéis e, com voz firme, ordena:

- “Já pra mesa!”.

Intimidadas, as mãos puxam a cadeira e as pernas se dobram para que o corpo possa se apoiar no desconfortável assento de madeira, cujo único mérito é o de evitar qualquer cochilo do seu usuário.

Em seguida, a ave faz um sinal de aprovação com a cabeça e, ao piscar os olhos, diz:

- “Por incrível que pareça, é no trabalho que os seres humanos passam os melhores anos de suas vidas envolvidos por sentimentos contrastantes que misturam angústia, felicidade, medo, sofrimento, esperanças e ilusões. É neste turbilhão de sensações que cada pessoa pensa a sua relação com o trabalho, interpreta as condições de sobrevivência que esta lhe proporciona, socializa sua leitura da realidade, reage ao que percebe como ameaça, organiza-se mental e fisicamente para dar conta do que lhe é exigido e intervém no processo de produção com formas de comportamento que retratam o sentido dado aos vínculos que estabelece com os colegas.

Este sentido é fortemente influenciado pela forma na qual a rotina do trabalho se encaixa e entra em sintonia com as experiências passadas, com as expectativas atuais ou, ao contrário, representa algo tão novo e inédito que questiona suas percepções anteriores e projeta para o futuro novos sonhos e anseios de afirmação pessoal. Lidando, ou não, com tarefas que proporcionam um sentimento de auto-realização, o sujeito tem no trabalho um elemento essencial na construção de sua personalidade e da identidade social na qual se insere pelas condições de vida possibilitadas pelo salário recebido.

Além da resposta à luta pela sobrevivência, do medo de vir a integrar as estatísticas do desemprego, da pressão da chefia, da convivência com os colegas e da realização dos próprios sonhos, trabalhar implica sempre em assumir responsabilidades não-previstas, em tomar decisões que, independentemente do cargo, são fonte de sofrimento pelas incertezas que projetam em cada empregado. Isso se deve ao fato de que há sempre certa distância entre o trabalho prescrito e o real. Ou seja, uma coisa são as seqüências, as tarefas e as normas ditadas pela empresa e outra, bem diferente, é a forma pela qual são praticadas, moldadas, adaptadas ou negadas no cotidiano dos processos produtivos para que os funcionários possam dar conta das metas exigidas.

A condição para que o empregado realize o seu trabalho envolve quase sempre a transgressão das prescrições e das instruções recebidas dos superiores hierárquicos. Prova disso é que, em praticamente todas as categorias profissionais, uma das formas de manifestar o próprio descontentamento é cumprindo à risca o que foi ordenado pela empresa. Em várias cidades do Brasil, por exemplo, já conhecemos protestos de motoristas de ônibus que foram realizados tendo como base apenas a não-violação do Código de Trânsito e até mesmo manifestações de descontentamento da polícia federal através da operação padrão aplicada aos procedimentos de averiguação de passageiros no desembarque dos aeroportos. A paralisação das atividades, os atrasos e as situações de caos que resultaram do estrito respeito às normas prescritas são mais que suficientes para comprovar que ou o trabalhador coletivo usa as artimanhas, truques, macetes e quebra-galhos acumulados no exercício das tarefas e na lida diária com problemas inesperados ou o serviço pára, entra em pane, se torna inviável”.

- “Se é assim, quer dizer que a inteligência e a criatividade individuais e coletivas são mobilizadas a cada instante e isso pode até proporcionar um sentimento de satisfação e realização pessoal. Enfim, não vejo o que há de tão ruim nisso a ponto de causar sofrimento!”, afirma categórico o secretário ao fixar o olhar no rosto da coruja.

Ouvida a questão, Nádia se aproxima vagarosamente do seu ajudante, aponta a asa direita para os óculos e assumindo feições que mesclam provocação e reprovação retruca em tom irônico:

- “Se os cinco graus das lentes que cobrem seus olhos não servissem apenas para disfarçar sua feiúra, você já teria conseguido enxergar além do umbigo. De fato, é inegável que, sob a influência do medo da demissão e das demais pressões que tomam conta do local de trabalho, a maior parte das pessoas se revela capaz de mobilizar um verdadeiro arsenal de inventividade ora para cumprir as metas, ora para ficar em posição mais vantajosa em relação aos colegas.

 
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