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Trabalho, competição e sobrevivência

26.02.2007 | Fonte de informações:

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A vida nos impõe sempre várias cobranças, e as profissionais costumam ser constantes. Esse tensionamento a que são submetidos tantos trabalhadores, especialmente em tempos de globalização, já levou ao suicídio três executivos da empresa francesa Renault, segundo o jornal The Guardian de 22 de fevereiro. É possível, no caso de funcionários cujo trabalho pode ser realizado também fora da empresa, que a sobrecarga se dê de maneira sutil, progressiva.

Uns com prazos absurdos a cumprir, enquanto a outras categorias de trabalhadores são impostas metas crescentes de desempenho, nem sempre guardando relação com a capacidade individual, bastante variável, de suportar exigências cada vez maiores, advindas não só da infindável competição entre as empresas, mas também da “portabilidade” dos postos de trabalho, que, hoje, podem transferidos para qualquer ponto do globo, fisica ou virtualmente.

A busca pela eficiência está se transformando num paradoxo: de um lado, permite a fabricação de produtos cada vez mais baratos e acessíveis; de outro, submete trabalhadores à concorrência de pessoas que aceitam salários baixíssimos, praticamente sem quaisquer direitos, gente que não tinha nada e agora passou a ter um pouco, mão-de-obra barata, traduzida em produtos de preços igualmente irrisórios.

A China, tentando implantar uma legislação trabalhista mais humana, sofre boicote e ameaças das grandes corporações estrangeiras, que se recusam a pagar um pouco mais e dar maiores direitos a seus empregados, o que talvez seja apenas blefe, já que até as griffes francesas estão levando sua produção para a Ásia sem, no entanto, reduzir os preços de seus artigos. Buscam tão-somente aumentar seus ganhos, quer dizer, sua eficiência.

Um trabalhador de nível superior passa quase vinte anos se preparando, estudando; depois, restam-lhe, até a aposentadoria, cuja idade mínima é cada vez mais alta - 67 anos em alguns países -, na melhor das hipóteses 47 anos de vida útil, se tiver saúde e a grande sorte de permanecer empregado todo o tempo, durante o qual terá de criar e educar os filhos, comprar uma casa, investir na reciclagem profissional, fazer uma poupança para cobrir eventualidades e complementar a pensão. Na prática, poucos conseguem uma nova vaga após atingir a idade da “obsolescência”, a partir dos 40 ou 50 anos.

Mas o fato é que sempre haverá gente disposta a fazer mais por menos, e a Índia tem quase quatrocentos milhões de pessoas vivendo na mais absoluta pobreza, potenciais trabalhadores prontos para substituir os chineses numa eventual e ainda remota subida dos custos da mão-de-obra.

Os ventos sopram cada vez mais a favor do capital, as empresas aumentam seus lucros enquanto os ganhos do trabalho, quando muito, permanecem estagnados, ao contrário das infinitamente crescentes pressões por melhores resultados. Os salários, transformados em simples mercadorias, commodities, seguem a Lei da Oferta e Procura. Trabalhadores têm família, sonhos, envelhecem, mas tudo isso soa piegas quando exposto à lógica diabólica imposta pela ditadura do capital. Nada a ver com devaneios ideológicos, mas apenas ganância, a natureza humana em um de seus piores aspectos.

Mas não é este mesmo o modo como fomos ensinados, a essência de nossa cultura, e no final das contas, o modus operandi da própria natureza, a eterna competição que redunda na evolução das espécies? E quem aproveita a lição; quantos não encaram o fato de ser vencido numa modalidade qualquer de esporte como uma derrota, uma ofensa pessoal? Quem ousa ter a elegância e a generosidade de cumprimentar o adversário, seja quando este perde ou quando vence?

Estamos longe de vislumbrar uma alternativa a esta competição feroz cujos inversos são a cooperação, a generosidade, a solidariedade, a paciência, virtudes que não combinam com a urgência com que buscamos, sempre em vão, a felicidade atráves da satisfação imediata de nossos desejos. Nesta ininterrupta azáfama nos afastamos da prática da reflexão, do pensamento filosófico, que representam o sentido maior da vida.

Luiz Leitão luizleitao@ebb.com.br
 
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