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Pequena Resenha Critica

11.10.2016 | Fonte de informações:

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As Sobras Humanas do Romance SOMBRAS SOBRE A TERRA de Francisco Espínola

Quem somos nós, autointitulados humanos, senão 
meros cavalos passando de mão em mão e servindo
como veículos para que a vida possa escorrer
por  meio de nossas existências? Roberto Damatta


-As vezes penso que escrever é alimentar algum monstro que mora em nossas escuridões. Outras vezes tento, desesperadamente, ser apenas uma alma humana tentando compreender e expor as dilacerações de percurso de outras almas humanas, nas suas difíceis e delicadas (quando não endiabradas) sobrevivências possíveis, e, volta e meia dou-me a compreender as dilacerações humanas expostas em quadros cênicos, como se o contar do romancista fosse (ou tentasse ser) um mero band-aid nas escurezas das sombras, das contundências das terras humildes ilustradas com nódoas de sangue, dizendo das almas que atravessam a árvore da vida, e como se também fossem meras tábuas empenadas, e ainda assim revelando flancos mal compostos, nós cegos, desajustes de veias e veios, imperfeições e tristices desamasiado humanas. Afinal, pensando na escrevivência do autor, tentamos entender que o talento também se forma na solidão, revelando então o caráter daquele que contempla o mundo em todas as suas mixórdias, rudezas, e zonas de conflito. Ah, a carne é fraca. E o ócio é duro de ruir.


Com SOMBRAS SOBRE A TERRA de Francisco "Paco" Espínola não poderia ser diferente, com sua alma também latina, e sua latinidade órfã. O autor junta cenas, encorpa-as, costura, pinça janelas, entrecortes, e, autobiográfico que o seja, vai contando do seu jeito como se floreasse um tango deslocado, um tango uruguaio, em insalubridades psicológicas de acomodação, feito escrever ser o fazer soar o seu bandoneon, a dizer de rufiões, prostitutas, cafetões, a marginária s/a, em que o personagem (autor?) tenta também encontrar-se a si de alguma maneira ou forma, numa busca consigo mesmo do narrar a vidinha merreca dos sofridos, como quem que se junta a eles, mas saca e revela as asperezas escarradas e mal cuspidas de amores corrompidos, companhias etílicas, amantes e namoradeiras de percurso e estadias.  Sabe da vida humilde dos baixos escalões buscando prazer, nem que seja a química paz na alma pra se coçar...


Milongas, frustrações, desassossegos, prostíbulos mal caiados, muambas, drinques avessos, tudo sob o enlevo do transitório, do mal acomodado, do lamento, das impurezas que aqui e ali se deslocam, mas continuam buscas, certas escondidezas de ser e de não ser de vidas solitárias sem fios desencapados, acomodadas no trivial de simplezas, ora uma realidade dolente, uma sofrência desafinada de feitio e meio, e as almas são levantadas como meros sabugos respigados do chão nas contações do autor; feito o relato de uma boêmica gente em sua sobrevivência possível naqueles cafundós ordinários de um quase desmundo ribanceiro. É um romance da alma paraguaia, diz o crítico literato da USP-Universidade de São Paulo Adelto Gonçalves, sobre o consagrado romance SOMBRAS SOBRE A TERRA do Francisco "Paco" Espínola.


Aliás, A própria vida-obra de Francisco Paco Espínola aqui e ali nos remete a Oscar Wilde, que nos diz: "Prezo as pessoas mais do que os princípios; e as pessoas sem princípios, mais do que tudo neste mundo. Todo o efeito que causamos nos arranja um inimigo. Só a mediocridade é popular. A vantagem das emoções é que elas nos desencaminham. Ser natural é simplesmente uma pose, a mais irritante que eu conheço. Os que são fiéis conhecem só o lado trivial do amor. A infidelidade é que sabe das tragédias do amor. As emoções alheias são mais divertidas que as ideias alheias. A mutilação do selvagem subsiste tragicamente na renúncia que nos estraga a vida. Peque o corpo uma vez e estará livre do pecado. Porque a ação tem um dom purificador. Nada restará então, salvo a lembrança de um prazer; ou a volúpia de um arrependimento. As criaturas vulgares não nos impressionam a imaginação. São seres esperando que a vida lhes desvende todos os segredos (...); Os seres sem egoísmo são incolores. Carecem de personalidade(...). A discordância está em sermos forçados a viver em harmonia com os outros. Civilizar-se não é fácil. Só se consegue por dois meios: cultivando-se ou pervertendo-se. Consciência e covardia, são, na verdade, a mesma coisa.(...)"


Sombras Sobre a Terra enquanto romance, são parágrafos com contações feito afetos trigueiros de figurinhas carimbadas de baixio chão, sombras da terra, sobras, carcaças,  refugos, como pequeninos cães. Professor, crítico literário e teatral, comunista de carteirinha e utopia, mesmo sendo de origem "blanca", Paco escreve como se narrasse a cena inteirinha e com detalhes para ser montada num palco alhures, num filme em que esmiuça idas e vindas, e este seu romance diz dessas histórias que fulguram na obra como seu melhor livro, a sua cara, ápice de seu oficinário criativo, tendo sempre aqui e ali, um "de que" en passant de Dostoievski tropical, numa narrativa peculiar, bem elaborada, meio indolente que seja, vivendo suas erratas de vícios e arremedos de buscas de um cerne existencial que seja, dado a própria impossibilidade de ser feliz nesse seu jeito de "aleijado por dentro" até mesmo de ter esse defeito incurável e pertinente de querer ser feliz...


Galo cego, gato pardo, ele evoca-(se):
"Oh noite, que ocultas ao homem as leis dos homens e fazes de cada beco um caminho seguro até a burla dos juízes, até o descanso e o esquecimento, cegando a vista de olhos altivos que não te frequentam! A quem temem os que te dormem, os de muitos ferrolhos, os que deles te afugentam com lâmpadas poderosas, porque lhes traz de longe, entre tuas dobras, esses clamores gemebundos que os estremecem sobre o travesseiro. Oh, noite, onde as sombras baixam ao coração do homem; por onde sobem as sombras do coração do homem; onde o homem envolve em sombras o coração"". (pg. 77).
Ah a dura realidade que cerca os infelizes, os sensíveis, que forma os sentidores em buscadores, entre a miserabilidade de abismos intrigueiros, queixumes, mais as carências, os sofrimentos de perdas, o dezelo íntimo nas quebradas do mundaréu em que vagam, bebem, se dopam, dormem, sonham praias distantes, almejam viagens sem fim, recontam paixões prazenteiras, tentam sonhar impossibilidades rasteiras, ou feitos futurais sem saber como, como fugas, escapadas, bebemorações de cantos, valas, barrancos e barracos, com a base da vidinha entre noiteadeiros, os notívagos, cavando purgações, tentando se livrar dessa ferida que é sobreviver, lambendo fissuras, feridas, ressacas, papos homéricos, entre isolamentos de sombras e companhias de sobras corrompidas.


O abandono de um ideal, a fuga de um remorso, a inaceitação de ser como é em situação de ausência, para a busca de uma zona de conforto nesse caos existencial que é a vida e, pior, a sobrevida nessas paragens de relatos, pois Juan Carlos, perdidão, cego de alguma maneira, busca uma família perfeita e certa na evocação da morte e seus chamamés de encordoamentos de imagens, miragens, revisitanças, em situações que trazem névoas e o ambiente pesado de um café periférico, uma bodega de flanco, uma baiuca de quebrada, numa zona de meretrício iluminada de sombras da terra... Há uma ambição humilhada num mundo desfavorável? E a dor de escrever o que é? Um grande romance.


Haruki Murakami disse "Quando paramos para escrever um romance, quando usamos a escrita para criar uma história, queiramos ou não, um tipo de toxina que jaz nas profundezas de toda humanidade sobe à superfície. Todo escritor precisa ficar cara a cara com essa toxina e, consciente do perigo envolvido, descobrir um jeito de lidar com ela". Pois Paco em Sombras Sobre a Terra faz isso com garbo, com estilo, porque o romance dele é crivado de olhares profundos, contemplativos, investigatórios e cheios de ilusão, pondo (dando) petiscos de prosas aos seus monstros, face aos seus humildes, feitios ao seu tempo, espaço e lugar,  revelando-os a seus privilegiados leitores de sua literatura de quilate. O underground regurgitando vagidos letrais. Acende luzes-parágrafos entremeados de arremedos de retalhos de gente, contando daqueles que se esqueceram de si mesmos, de suas cruzes, de suas broncas, amarras e perdições. Sombras sobre a Terra é sombra sobre a noite, é a sombra sobre almas, e, talvez, a própria alma do autor repaginada, assim também revisitada numa obra de peso, de vulto, onde ele mesmo é, nessa névoa toda que ascende em bela prosa, um vulto de si mesmo se passando a limpo, se passando a limo, a húmus, aqui no caso se passando a livro, das sombras da terra sobre a terra.


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Silas Corrêa Leite - Professor, Jornalista Comunitário e Conselheiro em Direitos Humanos. Ciberpoeta e blogueiro premiado, escritor membro da UBE-União Brasileira de Escritores, Autor entre outros de GUTE-GUTE, Barriga Experimental de Repertório, romance
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SOMBRAS SOBRE A TERRA - Francisco Espínola, Editora LetraSelvagem, SP, Coleção Gente Pobre, Organização Nicodemos Sena,  2016 - 360 Páginas - www.letraselvagem.com.br - E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br

 

 
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