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Capital vs Relações Humanas

08.05.2016 | Fonte de informações:

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Por Que o Marketing É Canalha por Natureza

Não podemos mudar simplesmente o mundo. Mas sempre podemos começar a mudar este pedaço do mundo que somos cada um de nós. E se a maioria incorporar esse processo, daremos o salto quântico necessário para um novo paradigma de habitar a única Casa Comum que temos [o planeta Terra]

(Leonardo Boff)

Edu Montesanti

marketing, muito além da prática de simplesmente vender, apoia-se em mentalização, em uma série de atitudes e na visão de negócios que o profissional desta área desenvolve visando sempre à maximização dos lucros. 

Dentro disto, o ato da venda é consequência do que consiste em uma "filosofia" (isto é, o próprio marketing) segundo os burocratas e tecnocratas do mercadejo, seres que se portam como intelectuais, falam como intelectuais, são tratados como intelectuais, fazem amor como intelectuais, alguns até se creem piamente intelectuais enquanto passam a vida vomitando ignorância, jargões mercadológicos e excessiva baixeza moral, reduzindo as relações humanas a meros números, a muita barganha e às cifras marcantemente encrustadas em suas pupilas.

O objetivo essencial do marketing - oxigênio do capitalismo, razão deste sistema sobreviver enquanto promotor de lucros obsessivamente desenfreados e da necessidade de consumir cada vez mais, não importa o quê - é gerar no cliente o interesse por determinado(s) produto(s), convencê-lo de que este(s) produzirá (ou produzirão) satisfação, bem-estar e/ou, acima de tudo (em seu sentido mais amplo e irracional), que há a necessidade de consumi-lo(s). 

Sem o marketing, não haveria a menor chance de milhares de novas mercadorias inundarem com tanto vigor semanalmente o mercado, no subconsciente humano e nos lares globais sob a ideia preconcebida, sutilmente imposta a milhões de indivíduos de que são fundamentais para o bem-estar da humanidade. 

E mais: muitos desses produtos (incluindo alimentos) são altamente nocivos à saúde e ao meio ambiente, além dos mais diversos que acabam esquecidos e jogados fora com o passar de um tempo nem sempre muito longo - ou nem sequer utilizados. 

Nisso tudo, as práticas de marketing sustentam-se fundamentalmente na propaganda e na publicidade, exatamente as que tratam de impor o que é bom e o que não é às sociedades. Para que isso tudo seja possível dentro da lógica do marketing, que é ilógica, o consumidor não pensa, mas é pensado e deve viver para consumir, e consumir para ser feliz. 

Para tanto, enfraquecer a consciência do individuo e eliminar o senso crítico ao mesmo tempo que o bajula como pode, mexendo com a vaidade, são essenciais - sabedores de que a adulação sem limites cai muito bem aos consumidores de ilusões, ainda que os efêmeros minutinhos de baba ovo lhes custem um alto preço. 

Tais aiatolás do mercado oferecem as mais diversas tralhas, fossos do vazio, da depressão e do reducionismo humano dando a entender que fazem isso motivados por carinho e amor aos potenciais compradores, meio que inspirados na complacência, na devoção, no amor à pátria e à vida dela, dela mesma: Madre Teresa de Calcutá! 

É espantosa a capacidade que esse sistema das sutilezas - mas também profundamente agressivo nos mais variados aspectos - tem em fazer com que quanto mais o indivíduo consuma, mais vazio interior sinta e mais corra atrás atrás da felicidade - através do ato de consumir e das aparências, evidentemente. No fim de seus dias a vítima se vê em um buraco sem fim, e não consegue identificar o porquê... Mas a vida já foi jogada fora, e ela é uma só: tarde demais!

Canalha em Tom de Bom Moço

 

A cada minuto nasce um otário, e mais otário é quem não aproveita

(P.T. Barnum, empresário norte-americano do ramo de entretenimento do final do século XIX)

 


Cada indivíduo sabe exatamente o que lhe é necessário para viver, e na realidade a vida humana não requer uma ínfima parte do que o sistema oferece diariamente à sociedade hoje: ter o aparelho celular de última geração com câmera mais acurada; a TV com alguns botões mais sofisticados; calça com etiqueta mais destacada; veículo cujas janelas são abaixadas com "mais estilo"; seguros de vida, acidentes, desemprego e planos de jazigo "sem multa" em caso de desistência (quanta benesse!); computador portátil ou tablete com sistema mais original, etc, etc, etc... 

Este self-service da alienação é o meio que o convalescente sistema se utiliza para sobreviver convencendo pessoas - cada vez mais carentes, sedentas por sentido e saciamento interior - de que esses pertences são fundamentais para o bem viver. Mas não são - longe disso. O sistema fundamentado nas práticas de marketing nada mais cria necessidades e até problemas, para vender soluções.

Cada um vai ao supermercado e, sem nenhum marqueteiro para lhe auxiliar, sem necessidade de dizer ao cidadão o que se requer para viver bem, pode muito bem passar o mês satisfeito. Por que em outros lugares, ou mesmo durante as compras básicas são necessários os desserviços da profissão canalha? O sistema não explica isso sem ser contraditório recheado de típica fraseologia e evasão, mas nós seguiremos explicando de maneira clarividente neste espaço os porquês de práticas baixas predominarem, e se exacerbarem no ato de vender, em um mundo falido.

Para que se inculque às sociedades que sim, determinados produtos supérfluos são de suma importância e as farão felizes, a mentalização, a série de atitudes e a concepção que um agente de marketing se utiliza para realizar seus negócios e até para viver não são nada inteligentes e nem muito menos honestos, do contrário seu trabalho seria uma catástrofe dado que o único alvo é vender ao "cliente" seja lá o que for e, a qualquer custo, gerar lucros cada vez mais altos a fim de salvar a pele, e derrotar a selvagem concorrência. 

Dentro dessa selvageria humana com melancólico aspecto de avanço, jamais se defende o interesse do cidadão e nem a meta é gerar satisfação real, sendo que esta independe do que o sistema impõe. No marketing, transparência e leveza significariam a desgraça total dos seus resultados. São absolutamente incompatíveis, um lado vai naturalmente contra o outro: nada poderia anular com tanta eficácia as realizações de um marqueteiro, quanto simplesmente ser humano.

O "cidadão" não existe para os paupérrimos padrões (intelectuais e morais) do marketing, e nem pode existir, mas subsiste unicamente o "cliente". Enquanto vidas são reduzidas a meros números e os direitos são "esquecidos" pela arte do "bem dizer", a falsa bajulação que se apoia em enfeites e mentiras a fim de vender outras bugigangas e mentiras, é descartada, completamente esquecida, relegada aos mais "radicais" a real satisfação pessoal em seu sentido mais amplo dentro deste pobre sistema: vale apenas a multiplicação dos lucros, apropriar-se e não necessariamente se desenvolver, menos ainda compartilhar.

Muitas, muitas vezes o marqueteiro mesmo não acredita em suas palavras, naquilo que está vendendo - em muitos casos ele mesmo jamais consumirá o que está jogando, repleto de táticas da neurolinguística, ao consumidor, que acaba comprando uma série de ilusões e não de necessidades ou bem-estar - muitas vezes, a ilusão também de que ganhou um amigo, isto é, o canalha do marketing que o sugará energia e dinheiro tanto quanto puder, fazendo-o se sentir o preferido dos preferidos; adula-o de todas as maneiras enquanto por trás, tão cruelmente quanto o sistema a quem serve diretamente, ridiculariza-o, ironiza contra ele, mentalmente ou em público. 

Bem-vinda, bem-vindo ao mundo precariamente dirigido pelo marketing.

Entre o Deus do Mercado e as Relações Humanas

Jesus foi o primeiro socialista: dividiu o pão e o vinho; Judas foi o primeiro capitalista: vendeu Jesus por trinta moedas

(Hugo Chávez)

É por isso tudo, pela essência corrupta do sistema que um bom vendedor não pode ser solidário e nem defensor do direito cidadão. A não ser na arte de melhor enganar, tais termos são proibidos nos bastidores da arte das vendas: o indivíduo nada mais é que um consumidor a ser colocado na gananciosa contabilidade dos mercadejantes. Agir diferentemente no mundo mesquinho do marketing, ser humanitário levaria ao descartamento agressivamente sumário deste profissional.


Fruto da (i)lógica deste sistema, em uma equipe de vendas o que invariavelmente serve de "incentivo" ao "sucesso" é a competição entre seus próprios componentes, jamais estímulo à solidariedade que se configuraria, certamente, fracasso dos negócios. Na pós-ressaca entre vencedores e vencidos, estes geralmente aprendem muito bem a lição aplicada pelo sistema e não perdoam seu líder-marqueteiro que bolou a competição e distribuiu o prêmio aos vencedores - a carne às feras: voltar-se-ão correndo como dobermans raivosos babando, famintos sem a escassa carne jogada ao fundo do quintal para devorar a do próprio patrão o qual, dificilmente, terá para onde fugir a não ser tentar abafar a ferocidade dos sem carne à base de porrete (autoritarismo). Por isso também, é impossível uma horizontalidade nos mais diversos setores das sociedades em nosso mundo atual.

É desnecessário dizer que todos os segmentos da vida do individuo com uma mente viciada desta maneira, acabam contaminados pela obsessão da competitividade patológica: o próximo é sempre um potencial concorrente, seja para o que for. Eis o cenário caótico, tragicômico dos bastidores do mercadejo cujo ápice são as patéticas "filosofadas" (em tom pejorativo, evidentemente) do mesquinho marketing.

Tudo isso pode muito bem explicar recentes estudos que apontam 4 vezes mais psicopatas nas empresas que na sociedade em geral (leia reportagem Psicopatas S.A.). O sistema leva à frieza, incentiva a concorrência a qualquer custo e a sede de consumir cada vez desesperadamente, treina as pessoas para a capacidade de argumentar e convencer ao invés de conscientizar, além de parecer ser com muita "esperteza" em detrimento do real conteúdo em questão, o qual conta cada vez menos - ou muitas vezes nem conta, até porque conteúdo é o que menos se tem na praça da vida moderna, montada cuidadosamente pelo marketing

O que vale mesmo é ter, fazer e poder ao invés de ser, e tudo isso tendo o próximo como referência, não a si mesmo a fim de se superar, aprimorar-se, satisfazer-se e produzir de maneira salutar. Sobressair-se no mundo das aparências e das posses descomedidas é o que faz o ser contemporâneo! Jamais compartilhar...

Melhor que Parecer Ser, É Ser de Verdade

Enquanto no reino animal os indivíduos da maioria das espécies preocupam-se com a detenção apenas do indispensável 

à sua sobrevivência, possui o ser humano uma estranha vocação para a apreensão individual de bens supérfluos 
(Robério Nunes dos Anjos Filho)

O programado subproduto deste mundo perverso nada mais é que a escravidão do século XXI: escraviza as pessoas não apenas ao próprio sistema dominador e explorador com seus princípios e métodos de consumo, mas se configura uma escravatura também mental que tem levado milhões e milhões de pessoas à depressão, até ao suicídio e, antes de mais nada, à mediocridade do puxa-saquismo e das aparências em seu estágio mais avançado. 


É esse sistema que incita ao individualismo cada vez mais declarado, à acumulação material descomedida e à inveja sem disfarces, que potencializa a exploração e a competitividade até mesmo entre ideias, culturas e costumes em um mundo onde amizade, solidariedade, caráter e valores em geral contam cada vez menos. A ordem destes tempos é vender, lucrar, ser o melhor, sobressair-se, aparentar, tudo isso impulsionado pela extremamente agressiva, impiedosa arte do mercadejo, da competição em antítese à colaboração. 

Tal meio tem relação direta com a falta de educação, informação e cultura: quanto menos capacidade intelectual, mais o ser humano está propenso a mergulhar de cabeça e se perpetuar neste universo sinistro que não tem o menor espaço para as diferenças, para a tolerância, para a crítica e nem para a transformação. A apatia do "deixar como está" e a preguiça intelectual de se seguir a corrente preponderante são matéria-prima do sistema enfeitado pelo marketing.

Já dizia Mahatma Gandhi: "Há o suficiente na Terra para suprir as necessidades de todo mundo, mas não para suprir as ganâncias de todo mundo". Pois em meio a este pobre e crescente monoteísmo do mercado, entre os fúteis deuses do capital não seja consumista, não se prostre diante deles guiando-se pela vulgar propaganda e nem pela patética moda aprisionante. Sociedades solidárias e não competitivas que primam pelo bem-estar e pela felicidade plena antes de qualquer estereótipo como bem mais precioso que se possuem, é condição imprescindível para que o indivíduo seja livre de verdade, e mais que nunca, para a salvação do planeta dado que, apenas para se citar um exemplo se cada brasileiro, chinês e indiano levasse o estilo de vida norte-americano, precisaríamos de 3 planetas. 

Definitivamente, nossa Casa Comum apontada por Leonardo Boff não comporta o medíocre universo domarketing da competitividade e da acumulação de riquezas desenfreada, universo de horizontes tão estreitos quanto gananciosos.


Porque as pessoas nos empreendimentos das cooperativas de economia solidária são muito mais felizes. Quer dizer, você não tem competição, é uma comunidade, as pessoas ajudam-se mutuamente, não há hierarquia. Tudo é feito com participação, tudo é comunitário. Essa é a razão, as pessoas querem ser felizes. É um tipo de empreendimento em expansão. Estamos propondo há vários anos uma lei de economia solidária

(Paul Singer, secretário de Economia Solidária do Ministério do Trabalho do governo Dilma Rousseff, em entrevista à revista Caros Amigos. Setembro de 2013)

Edu Montesanti

 

 
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