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Preliminar: o E.I. é uma criação ocidental

05.09.2014 | Fonte de informações:

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Preliminar: o E.I. é uma criação ocidental

A unanimidade no Conselho de segurança contra o Emirado islâmico (E.I.) e a votação da resolução 2170 não passam de uma atitude de fachada. Elas não conseguem fazer esquecer o apoio estatal de que o E.I. dispôs até agora, e dispõe ainda.

Olhando apenas para os recentes acontecimentos no Iraque, todos puderam constatar que os seus combatentes entraram no país a bordo de colunas de flamejantes Humvees, novos em folha, saídos directamente das fábrica norte-americanas da American Motors, e armados de material de guerra ucraniano, igualmente novíssimo. Foi com este equipamento que eles capturaram as armas americanas do Exército iraquiano. Do mesmo modo toda a gente ficou espantada por este E.I. dispôr de administradores civis capazes de tomar em mãos, instantaneamente, a gestão dos territórios conquistados, e de especialistas em comunicação aptos a promover a sua actuação na Internet e na televisão; um pessoal claramente formado em Fort Bragg.

Embora a censura norte-americana tenha interdito qualquer recensão sabemos, pela agência de notícias, britânica Reuters, que uma sessão secreta do Congresso votou, em janeiro 2014, o financiamento e armarmento do Exército Sírio livre (E.S.L.), da Frente Islâmica, da Frente Al-Nosra e do Emirado Islâmico até 30 setembro de 2014 [1]. Alguns dias mais tarde a Al-Arabiya vangloriava-se que o príncipe Abdul Rahman era o verdadeiro chefe do Emirado Islâmico [2]. Depois, a 6 de fevereiro, o secretário da Segurança Interna dos EUA reuniu com os principais ministros do Interior europeus, na Polónia, para lhes pedir para manter os jihadistas europeus no Levante, impedindo-lhes o regresso aos seus países de origem, de modo a que o E.I. tivesse suficientes efectivos para atacar o Iraque [3].

Finalmente, em meados de fevereiro, um seminário de dois dias juntou numa sessão do Conselho Nacional de Segurança dos EUA os chefes dos serviços secretos aliados implicados na Síria, claramente para preparar a ofensiva E.I. no Iraque [4].

(Reportagem de Agosto de 2012 sobre o fanatismo religioso da suposta «oposição democrática»)

É extremamente chocante observar os média (mídia-Br) internacionais, de repente, denunciarem os crimes dos jihadistas quando estes se verificam, sem interrupção, há três anos. Não há nada de novo nas degolas em público e nas crucificações: a título de exemplo, o Emirado Islâmico de Baba-Amr, em fevereiro de 2012, havia estabelecido um «tribunal religioso» que condenou à morte por degolamento mais de 150 pessoas, sem levantar a menor reacção ocidental, ou das Nações Unidas [5]. Em maio de 2013, o comandante da Brigada Al-Farouk do Exército sírio livre (os famosos «moderados») difundiu um vídeo no decorrer do qual ele esquartejava um soldado sírio e comia o seu coração. À época os Ocidentais persistiram em apresentar estes jihadistas como «oposicionistas moderados» mas, desesperados, batendo-se pela «democracia». A BBC ainda deu a palavra ao canibal para que este se justificasse.

Não há nenhuma dúvida que a diferença estabelecida por Laurent Fabius entre jihadistas «moderados» (o Exército Sírio livre e a Frente Al-Nosra, isto é a al-Qaida, até ao início de 2013) e jihadistas «extremistas» (a frente Al-Nosra a partir de 2013, e o E.I.) é um puro artifício de comunicação. O caso do califa Ibrahim é esclarecedor: em maio de 2013, aquando da visita de John McCain ao E.S.L, ele era ao mesmo tempo um membro do estado-maior «moderado» e líder da facção «extremista» [6]. Identicamente, uma carta do general Salim Idriss, chefe do estado maior do E.S.L, datada de 17 de janeiro de 2014, atesta que a França e a Turquia forneciam munições na quantidade de um terço para o E.S.L e dois terços para a al-Qaida, via ESL. Apresentado pelo embaixador sírio no Conselho de Segurança, Bashar Jaafari, a autenticidade deste documento não foi contestada pela delegação Francesa [7].

 

Dito isto, é evidente que a atitude de algumas potências da Otan e do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo-ndT) mudou no decurso do mês de agosto de 2014, passando de um apoio secreto, maciço e contínuo, para uma hostilidade declarada. Porquê?

A doutrina Brzezinki do jihadismo

É preciso, aqui, voltar 35 anos atrás para compreender a importância da viragem que a Arábia Saudita e, talvez, os Estados Unidos estão fazendo. Após 1979, Washington por iniciativa do conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, decidiu apoiar o Islão (Islã-Br) político contra a influência soviética, revivendo a política adoptada no Egipto de apoio à Irmandade Muçulmana contra Gamal Abdel Nasser.

Brzezinski decidiu lançar uma grande «revolução islâmica» do Afeganistão, (então governado pelo regime comunista de Muhammad Taraki), e do Irão, (onde ele próprio organizou o retorno do imã Ruhollah Khomeini).

Posteriormente esta revolução islâmica devia espalhar-se, por todo o mundo árabe, e varrer os movimentos nacionalistas associados com a URSS. A operação no Afeganistão foi um sucesso inesperado: os jihadistas da Liga anti- comunista mundial (WACL) [8], recrutados no seio dos Irmãos muçulmanos e dirigidos pelo bilionário anti-comunista Osama bin Laden, lançaram uma campanha terrorista que levou o governo a apelar para os soviéticos. O Exército Vermelho entrou no Afeganistão e ficou atolado lá por cinco anos, acelerando a queda da URSS.

A operação no Irão foi, pelo contrário, um desastre: Brzezinski ficou espantado ao constatar que Khomeini não era o homem que lhe tinham referido-um velho aiatola tentando recuperar as suas propriedades rurais confiscadas pelo Xá- mas, sim, um autêntico anti-imperialista. Considerando um pouco tardiamente que a palavra «islamista» não tinha, de todo, o mesmo sentido para uns e para outros, ele decidiu distinguir os bons sunitas (colaborantes) dos maus xiitas(anti-imperialistas) e confiar a gestão dos primeiros à Arábia Saudita.

Por fim, considerando a renovação da aliança entre Washington e os Saud, o presidente Carter anunciou, durante o seu discurso sobre o Estado da União a 23 de janeiro de 1980 que, daqui em diante, o acesso ao petróleo do Golfo era um objetivo da segurança nacional dos EUA.

Desde então, os jihadistas foram encarregados de todos os os golpes sujos contra os Soviéticos, (depois os Russos), e contra os regimes árabes nacionalistas ou recalcitrantes. O período indo da acusação lançada contra os jihadistas, de ter fomentado e realizado os atentados do 11 de setembro, até ao anúncio da pretensa morte de Osama bin Laden no Paquistão (2001-11) complicou as coisas. Tratava-se, ao mesmo tempo, de negar qualquer relação com os jihadistas e de usá-los como pretexto para intervenções. As coisas clarificaram-se em 2011, com a colaboração oficial entre os jihadistas e a Otan na Líbia e na Síria.

A viragem saudita de agosto de 2014

Durante 35 anos, a Arábia Saudita financiou e armou todas as correntes políticas muçulmanas desde que (1) fossem sunitas, (2) que afirmassem o modelo económico dos Estados Unidos compatível com o Islão, e (3 ) que-no caso em que o seu país tivesse assinado um acordo com Israel-eles não o questionassem.

Durante 35 anos, a grande maioria dos sunitas fechou os olhos para o conluio entre os jihadistas e o imperialismo. Ela manifestou a sua solidariedade com tudo o que eles fizeram e com tudo o que lhes atribuíram. Finalmente, legitimou o wahhabismo como uma forma autêntica do Islão, apesar da destruição dos locais santos na Arábia Saudita.

Observando com surpresa a «Primavera Árabe», para cuja preparação ela não fora convidada, a Arábia Saudita inquietou-se com o papel dado por Washington ao Catar e aos Irmãos muçulmanos. Riade não demorou a entrar em competição com Doha para patrocinar os jihadistas na Líbia e, sobretudo, na Síria.

Assim, tanto o rei Abdallah salvou a economia egípcia que, quando o general Abdel Fattah al-Sisi se tornou presidente do Egito, enviou-lhe, e aos Emirados Árabes Unidos, a cópia completa dos registos (registros-Br) policiais dos Irmãos Muçulmanos. Deste modo, no quadro da luta contra a Irmandade, o general Al-Sissi descobriu e transmitiu, em fevereiro 2014, o plano detalhado da Irmandade para tomar o poder em Riade e em Abu Dhabi. Em alguns dias os conspiradores foram presos e confessaram, enquanto a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos ameaçavam o Catar, o padrinho dos Irmãos, de o destruir, se ele não abandonasse imediatamente a irmandade.

Riade não demorou muito para descobrir que o Emirado Islâmico também estava contaminado e se aprestava a atacá-la, depois de se ter apoderado de um terço do Iraque.

O ferrolho ideológico, pacientemente construído durante 35 anos, foi pulverizado pelos Emirados Árabes Unidos e pelo Egito. A 11 de agosto, o grande imã da universidade Al-Azhar, Ahmad al-Tayyeb, condenou severamente o Emirado Islâmico e a al-Qaida. Ele foi seguido, no dia seguinte, pelo grande mufti do Egipto, Shawki Allam [9]

A 18 de agosto, e novamente a 22, o Abu Dhabi bombardeou, com a assistência do Cairo, terroristas em Tripoli (Líbia). Pela primeira vez, dois estados sunitas aliaram- se para atacar extremistas sunitas num terceiro Estado sunita. O seu alvo, não era outro senão, uma aliança incluindo Abdelhakim Belhaj, antigo número três da Al Qaida, nomeado governador militar de Trípoli pela Otan [10]. Parece que esta ação foi realizada sem Washington ter sido disso, préviamente, informado.

A 19 de agosto, o grande mufti da Arábia Saudita, o xeque Abdul-Aziz Al al-Sheikh, decidiu-se-por fim- qualificar os jihadistas do Emirado Islâmico e da al-Qaida «de inimigos número 1 do Islão» [11].

As consequências da reviravolta saudita

A reviravolta da Arábia Saudita foi tão rápida que os actores regionais não tiveram tempo de se adaptar e, portanto, apresentam posições contraditórias, segundo os diferentes dossiês. Em geral, os aliados de Washington condenam o Emirado Islâmico no Iraque, mas ainda não na Síria.

Mais surpreendentemente, enquanto o Conselho de Segurança condenava o Emirado Islâmico, na sua declaração presidencial de 28 de Julho e na sua resolução 2170 de 15 de Agosto, ficava claro que a organização jihadista dispunha, ainda, de apoios de Estados: em violação dos princípios anunciados, ou relembrados, por estes textos, o petróleo iraquiano pilhado pelo E.I. transita pela Turquia. Ele é bombeado no porto de Ceyhan para petroleiros que fazem escala em Israel e, depois, voltam a partir para a Europa. Por enquanto, o nome das sociedades comanditárias não foi estabelecido, mas a responsabilidade da Turquia e de Israel é óbvia.

Por seu turno, o Catar, que continua a acolher muitas personalidades da Irmandade Muçulmana, nega apoiar ainda o Emirado Islâmico.

 

Reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, dos Emirados árabes unidos, do Egipto e... do Catar em Jeddah, a 24 de agosto de 2014, para fazer face ao Emirado islâmico. A Jordânia estava representada nesta cimeira.

Aquando das conferências de imprensa coordenadas, os ministros das Relações Exteriores(Negócios Estrangeiros-Pt) russo e sírio, Sergey Lavrov e Walid Moallem, apelaram para a construção de uma coligação (coalizão-Br) internacional contra o terrorismo. No entanto, os Estados Unidos, preparando operações terrestres em território sírio, junto com os britânicos (a «força de intervenção Negra-Black» [12]), recusou aliar-se com a República Árabe da Síria e persiste em exigir a demissão do presidente eleito Bashar al-Assad.

O choque que acaba de pôr fim a 35 anos de política saudita transforma-se em confronto entre Riade e Ancara. Desde logo o partido curdo turco e sírio, o PKK, que ainda é considerado por Washington e Bruxelas como uma organização terrorista, é apoiado pelo Pentágono contra o Emirado Islâmico. Com efeito, e contrariamente às apresentações equivocadas da imprensa atlantista, são estes combatentes do PKK turcos e sírios, e não os peshmergas(nome lendário dos combatentes curdos-ndT) iraquianos, do Governo Local do Curdistão, que repeliram o Emirado Islâmico nestes últimos dias, com a ajuda da Aviação norte-americana.

Conclusão provisória

É difícil saber se a situação actual é uma encenação ou é realidade. Têm os Estados Unidos realmente a intenção de destruir o Emirado Islâmico que eles próprios formaram, e que lhes teria escapado, ou será que eles vão, simplesmente, enfraquecê- lo e mantê-lo como um instrumento de política regional? Ancara e Telavive apoiam o E.I. por conta de Washington ou contra, ou, ainda, jogam eles com dissidências internas nos Estados Unidos? Irão os Saud, para salvar a monarquia, até à aliança com o Irão e a Síria derrubando o dispositivo de proteção de Israel?

Thierry Meyssan

Tradução
Alva

 

 
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