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Vítor Ramil e Petrônio Souza Gonçalves

02.07.2009 | Fonte de informações:

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Lançando o livro: “Satolep”. Dia 7 de julho, às 19:30h. Rua da Bahia 1466. Entrada franca. Informações: 3222-5764

Os primeiros 50 livros serão vendidos ao preço especial de R$ 5,00

Cantor e compositor com vários sucessos na música popular brasileira, Vitor Ramil chega a seu segundo romance, repetindo o mesmo sucesso alcançando como compositor ao lado da dupla de irmãos Kleiton & Kledir. Gaúcho de Pelotas, Vitor Ramil começou sua carreira artística ainda adolescente, no começo dos anos 80. Aos 18 anos de idade gravou seu primeiro disco: “Estrela, Estrela”, com a presença de músicos e arranjadores que voltaria a encontrar em trabalhos futuros, como Egberto Gismonti, Wagner Tiso e Luis Avellar, além de participações das cantoras Zizi Possi e Tetê Espíndola. Neste período, Zizi gravou algumas canções de Vitor e Gal Costa deu sua versão para “Estrela, Estrela” no disco Fantasia.

1984 foi o ano de “A paixão de V segundo ele próprio”. Com um elenco enorme de importantes músicos brasileiros, este disco experimental e polêmico, produzido por Kleiton e Kledir, proporcionou ao público uma espécie de antevisão dos muitos caminhos que a inquietude levaria Vitor Ramil a percorrer futuramente. As letras misturavam regionalismo, poesia provençal, surrealismo e piadas. Deste disco a grande intérprete argentina Mercedes Sosa gravou a milonga Semeadura.

Em 1987, tendo trocado o sul do Brasil, Porto Alegre, pelo Rio de Janeiro, Vitor lançou Tango. O letrista se afirmava e o compositor tornava-se mais sutil, proporcionando aos músicos e grandes improvisadores como Nico Assumpção, Hélio Delmiro, Márcio Montarroyos, Leo Gandelman ou Carlos Bala perfomances marcantes.

Na passagem dos anos 80 para os 90 Vitor afastou-se dos estúdios e passou a dedicar-se ao palco, pois quase não fizera shows até então. Foi quando nasceu o personagem Barão de Satolep, um nobre pelotense pálido e corcunda, alter-ego do artista. Dividindo alguns espetáculos com esta figura ao mesmo tempo divertida e mal-humorada, mesclando música, poesia, humor e teatro, Vitor começava a consolidar seu público e a aperfeiçoar sua interpretação.

Neste período não só definiu-se a música e postura do Vitor Ramil dos discos que viriam a ser gravados na segunda metade dos anos 90 como apresentou-se o Vitor Ramil escritor, através da novela Pequod, ficção criada a partir de passagens da infância do autor, de sua relação com o pai, de suas andanças pelo extremo sul do Brasil e pelo Uruguai.

A partir do lançamento deste primeiro livro, em 1995, de grande repercussão junto à crítica e recentemente lançado na França, o artista passou a ocupar-se duplamente: música e literatura.

Mas mais do que pela escritura de Pequod os anos 90 ficaram marcados para Vitor Ramil como os anos em que começou a refletir sobre sua identidade de sulista e sua própria criação através do que chamou de A estética do frio. A busca dessa “estética do frio” deu-lhe a convicção de que o Rio Grande do Sul não estava à margem do centro do Brasil, mas sim no centro de uma outra história. Neste momento, significativamente, ele deixava o Rio de Janeiro para voltar a viver no Sul.

Simultaneamente a Pequod aconteceu a gravação do cd À Beça. Tendo saído apenas como edição especial, em tiragem limitada, por uma revista de música de Porto Alegre, este disco representou seu primeiro esforço de realizar algo a partir das idéias da estética do frio.

Tambong, seu trabalho seguinte, foi gravado em Buenos Aires, sob a produção de Pedro Aznar. Seu resultado é a confirmação da idéia de estar “no centro de uma outra história”, com a musicalidade e poesia brasileiras combinadas com as dos países do Prata a fluir naturalmente em quatorze temas cujos arranjos fazem deste um dos trabalhos mais originais da moderna música brasileira.

Além de seu livro Pequod, suas canções vem sendo distribuídas na Europa em coletâneas inglesas, espanholas e portuguesas. Sobre Vitor Ramil escreveu o produtor londrino John Armstrong: “Why hasn’t this genious dominated the world of music yet?”

Outubro de 2004 é a data de lançamento de Longes, seu sexto álbum, também gravado em Buenos Aires e produzido por Pedro Aznar. Se em Ramilonga chamava a atenção a unidade em torno de temas e timbres e se a marca de Tambong era a diversidade sonora e poética, Longes pode ser definido como uma síntese dessas qualidades, por mais paradoxal que isso pareça, e um avanço a partir delas.

Em março de 2006 Vitor Ramil reuniu-se ao percussionista carioca Marcos Suzano para uma temporada de shows no Centro Cultural Carioca, no Rio de Janeiro. O êxito artístico e de público dessa colaboração motivou-os a gravar um disco em duo, para o qual Vitor compôs uma série de novas canções.

Satolep Sambatown é o nome desse trabalho, que chegou às lojas de todo Brasil na primeira semana de setembro de 2007. Como o próprio nome indica, trata-se do encontro dos universos muito particulares desses dois artistas. Satolep, anagrama de Pelotas, cidade natal de Vitor, que está presente de forma recorrente tanto em sua literatura como em sua música, é também o nome do selo através do qual ele costuma lançar seus discos. Da Satolep de Vitor veio a “estética do frio”, com arpejos em cordas de aço, harmonias abertas, melodias hipnóticas, letras cheias de poesia.

O livro

Satolep é um livro ao qual Vitor dedicou oito anos de laboriosa manufatura para contar a história onírica de um fotógrafo que, em um tempo indefinido nas primeiras décadas do século 20, volta a Satolep, essa cidade recorrente nas ficções e nas canções do autor, seu terreno particular de invenção e memória. Sua Pelotas (ao avesso)inventada.

Ramil faz uso de uma prosa vagarosa, que infiltra o que está narrando em seu leitor aos poucos, quase como a névoa úmida que ele descreve como símbolo dessa identidade difusa de Satolep, a cidade.

São duas instâncias narrativas que convivem na prosa do romance: uma série de curtos textos poéticos (quase contos, inspirados nas imagens de um álbum de fotos da Pelotas de 1922, um livro real, da Pelotas real, organizado por Clodomiro Carriconde) e a história propriamente dita, um homem em princípio desconhecido e sem nome que decide, de inopino, ao se ver sozinho e inadaptado às vésperas de completar 30 anos no desconfortável sol do Norte do país, voltar para o frio de sua Satolep natal.

No caminho para o Sul, a paisagem ganha o peso dos sonhos. A cerração, a planície, o vento frio. Tudo isso se intensifica quando nos aproximamos de Satolep, cidade que o gaúcho Vitor Ramil construiu a partir de sua Pelotas natal. A história do romance Satolep, de Ramil, começa com um retorno. No dia do seu aniversário de trinta anos, o fotógrafo Selbor volta à cidade onde nasceu, a úmida e fantasmática Satolep.

No início da década de 90, depois de cinco anos morando no Rio de Janeiro, Ramil fez movimento similar e voltou a viver no Sul. Foi o momento em que começou a refletir de maneira mais vigorosa sobre sua identidade gaúcha, e lançou as bases do que viria a chamar de "estética do frio". As palavras de Selbor ("voltar... Saiba que, seja o que for, significa muito") encontram eco no famoso conto de Borges, "O sul", em que o personagem retorna à estância de seus avós maternos e, durante a jornada austral, suspeita que viajava também ao passado.

É este encontro, do narrador e seu passado, que está em jogo em Satolep; uma espécie de encruzilhada onde a herança dos tempos idos e as tensões do presente convergem sem encontrar um equilíbrio ("às vezes, o lugar onde queremos chegar fica exatamente onde estamos", reflete Selbor). Além de uma paisagem de vento, noites brancas e telhas enegrecidas, uma cidade "amiga dos silêncios e dos vazios", o protagonista do romance se depara com personagens reais da história pelotense, caso do escritor João Simões Lopes Neto, autor dos livros Contos gauchescos e Lendas do sul; do poeta, jornalista e boêmio Lobo da Costa; e do cineasta Francisco Santos, autor de um dos primeiros filmes de ficção realizados no Brasil.

O próprio narrador, Selbor, tem uma origem real. Foi inspirado em um fotógrafo que documentou amplamente a cidade de Pelotas no início do século XX. Essas fotografias, publicadas originalmente em um livro chamado Álbum de Pelotas, organizado por Clodomiro Carriconde, em 1922, foram recolhidas por Ramil e serviram como ponto de partida para o romance. Em Satolep, elas ocupam um lugar central. Selbor é o autor das fotos, "uma espécie de diário de viagem, um relato indireto dessa minha volta a Satolep". Essas imagens surgem intercaladas à narrativa, sempre acompanhadas de textos breves, instantâneos de neblina, lirismo e alucinação. Estes excertos são encontrados por Selbor dentro de uma pasta, esquecida por um rapaz na estação de trens. De maneira fantástica e misteriosa, eles parecem complementar os cliques de Selbor. "Os textos da pasta haviam sido tirados pelo rapaz a partir de imagens futuras de minha autoria", espanta-se o personagem. Esses curtos relatos seguem os passos do narrador-fotógrafo pela cidade, reservando a ele uma espécie de narrativa poética de sua trajetória.

Explorar esses escritos, sua relação com as fotos, revela-se para Selbor como uma espiral vertiginosa de busca por si mesmo. "Nascer leva tempo", sentencia Ramil. Entender o passado faz parte deste processo. A identificação entre o narrador e a cidade, que é transferida da "fotografia", do espaço, para a memória, é o motor do romance ("o homem faz a cidade, a cidade faz o homem", diz o escritor João Simões). Satolep se interpõe no caminho do narrador; está enraizada, é irremovível e condiciona os atos e sentimentos deste protagonista. O narrador e a cidade parecem feitos da mesma substância, uma certa neblina e vento frio, a "umidade que sai de noite e dorme de dia".

Além de livro, Satolep é também nome de uma música, de um disco ("Satolep Sambatown", de 2007) e de um personagem de Ramil, o Barão de Satolep, um nobre pelotense pálido e corcunda, alter-ego do músico e escritor. Pedaço de um Brasil muito particular, Satolep é presença fixa na obra de Vitor Ramil, um lugar a qual ele recorre, percorre e busca recriar para constituir a si próprio e "tornar nítido até o que não existe".

Na Flip de 2008, a influência dos cenários do cone sul em diferentes abordagens literárias foi o tema que reuniu os escritores Vitor Ramil, o argentino Martín Kohan (Ciências morais, Cia das Letras) e o norte-americano Nathan Englander (O ministério de casos especiais, Rocco) ao redor da mesa "A estética do frio" (com mediação de Samuel Titan Jr.), na programação da 6a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP 2008).

O título da seção é referência direta ao ensaio escrito por Ramil em 2004 sobre as especificidades do povo gaúcho, "os mais diferentes em um país feito de diferenças". Kohan e Englander ambientaram seus romances no período ditatorial argentino e este detalhe os aproxima também de Ramil, uma vez que Argentina e Uruguai guardam enorme semelhança em seus modos de vida com o sul do Brasil.

No bate-papo, chamou a atenção do público a relação que faz Vitor Ramil entre a escrita e fotografia - para criar Satolep, ele baseou-se em fotos antigas de Pelotas. O gaúcho falou de sua "imaginação visual" e da influência do repertório de imagens em seu projeto literário.

Petrônio Souza Gonçalves

 
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