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Vitória de Corbyn desmascara o jornalismo falso democrático do Guardian

22.09.2015 | Fonte de informações:

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Vitória de Corbyn desmascara o jornalismo falso democrático do Guardian. 22974.jpeg

"Desde a eleição de Jeremy Corbyn como novo líder dos Trabalhistas britânicos, o noticiário em Israel está em surto. 

"Novo líder trabalhista britânico: Antissionista" – lia-se na manchete de Yisrael Hayom, o jornal mais lido em Israel, que pertence ao fiel apoiador de Benjamin Netanyahu e rei dos cassinos Sheldon Adelson." 

(NEVE GORDON, 18/9/2015, "Israel em armas contra a ameaça Corbyn", Counterpunch)*

No outono de 2002 Ed Vulliamy, correspondente do jornal britânicoSunday Observer, tropeçou numa terrível verdade, da qual muitos de nós já suspeitávamos.

Em entrevista exclusiva, ele persuadiu Mel Goodman, antigo alto funcionário veterano da Central Intelligence Agency, CIA, que ainda tinha visto para livre acesso a documentos secretos, a declarar sem pedir anonimato que a CIA sabia que não havia armas de destruição em massa no Iraque. Tudo que os governos de EUA e Grã-Bretanha diziam aos cidadãos para justificar o ataque iminente ao Iraque eram mentiras.

Então, aconteceu algo mais extraordinário. O Observer não publicou a matéria.

Em seu livro Flat Earth News, Nick Davies reconta que Vulliamy, um dos repórteres mais confiáveis que trabalhavam para o Observer, reapresentou a matéria outras seis vezes, sempre em diferentes roupagens narrativas durante o meio ano seguinte. O Observer rejeitou sempre.

Vulliamy nunca denunciou esse crime monumental contra o verdadeiro jornalismo (será que se deve inaugurar uma seção para julgar crimes de guerra cometidos pela mídia-empresa na Corte Criminal Internacional em Haia?). O supostamente tão liberal de esquerda Observer nunca foi levado aos tribunais por essa grave traição contra a boa fé dos leitores e da comunidade mundial.

Mas no final de semana, é possível que algumas mesas tenham-se movido, pelo menos um pouco. O Observer deu uma plataforma a Vulliamy na página de comentários do jornal, para que ele discordasse de um editorial publicado na semana anterior e que criticava violentamente a eleição de Jeremy Corbyn como líder do Partido Labour.

Em tom muito compreensivelmente cauteloso, Vulliamy chamou de "simplória" [orig. "churlish"], a posição do jornal, alertando que haviam deixado passar a oportunidade de conquistar espaço próprio dentro da imprensa britânica, rigorosamente igual, toda ela. E toda ela pôs-se violentamente contra o novo líder trabalhista, desde os primeiros dias da candidatura.

"Nos unimos ao coro com nossa versão – admito que mais progressista – dessa obsessão com estratégias eleitorais e praticamente sem dar qualquer atenção ao que Corbyn diz sobre princípios de justiça, paz e igualdade (ou menos desigualdade)."

O que essas duas confrontações entre Vulliamy e o Observer – com 13 anos a separar uma da outra; uma pública, outra não – indicam sobre o status mutável da imprensa-empresa liberal de esquerda?

Para compreender o que se passa, temos também de considerar a cobertura que o Guardian dá a Corbyn –, o Guardian, jornal diário irmão do Observer, e mais conhecido.

Todo o círculo interno de comentaristas do Guardian, de Jonathan Freedland a Polly Toynbee, declararam que estavam absolutamente contra Corbyn desde o instante em que começou a parecer que ele poderia vencer. Enquanto Corbyn existia simplesmente para 'comprovar' pretensões de que o Partido Trabalhista seria igrejinha ampla e tolerante, esses comentaristas manifestavam-se a favor dele. Mas no instante em que começou a se destacar como provável novo líder, os mesmos 'especialistas' autoproclamados liberais de esquerda dedicaram-se a falar mais mal dele, e com mais sarcasmo e ira, do que jamais haviam feito contra qualquer líder de qualquer partido na história recente.

Em poucos meses, Corbyn já recebera contra ele mais desprezo daqueles zelosos e valentes fiscais esquerdistas da coerência da esquerda, do que o atual primeiro-ministro conservador, David Cameron, ao longo de muitos anos.

A cobertura noticiosa do Guardian, entrementes, seguia exatamente a mesma fórmula antagonista de toda a mídia-empresa de direita: ignorar as questões políticas que Corbyn levantasse; concentrar-se em falhas triviais de personalidade percebidas 'em geral'; e modelar todas as matérias sobre ele de modo a sempre reforçar a imagem de 'homem doestablishment'.

No Guardian também tivemos de sofrer as mesmas matérias patentemente ridículas, inventadas, manipuladas sobre Corbyn, pintando-o como sexista, antissemita, não patriota e muito mais.

Deve-se esperar que a imprensa-empresa de direita explore todas as oportunidades para desqualificar e desacreditar Corbyn, mas se se liam as cartas do leitor que chegavam ao jornal era bem claro que os leitores do Guardian esperavam muito mais do seu jornal do que aquele grosseiro, reles assassinato de caráter.

Os neoliberais vermelhos 

A realidade é que Corbyn está impondo desafio muito sério a imprensa-empresa suposta liberal de esquerda como o Guardian e o Observer, motivo pelo qual aquelas empresas tentaram garantir que a candidatura dele não prosperasse; não conseguiram; e agora, com o homem na liderança dos Trabalhistas, aqueles supostos liberais de esquerda foram apanhados num dilema terrível.

Com o Guardian e o Observer a venderem-se aos consumidores como se fossem mídia-empresas comprometidas com a justiça e a igualdade, mas que nada fazerem além de promover o mais sujo amancebamento das próprias empresas com a presente e imensamente injusta ordem neoliberal, a retórica de Corbyn sugere que é chegada a hora de mudar a ordem estabelecida das coisas.

Se nada conseguir, a campanha de Corbyn pelo menos já iluminou uma verdade sobre o sistema político britânico vigente: que, pelo menos desde Tony Blair, os dois maiores partidos no Parlamento estiveram igualmente comprometidos com promover o neoliberalismo. O Partido Azul Neoliberal (os conservadores) e o Partido Vermelho Neoliberal (os trabalhistas) delimitam o curto horizonte da atual política britânica. Pode-se escolher: ou neoliberalismo linha duríssima, ou neoliberalismo de linha um pouco menos duríssima.

Corbyn mostra que deve haver mais, na vida política, que essa falsa escolha, motivo pelo qual centenas de milhares de militantes de esquerda voaram de volta aos Trabalhistas, na esperança de conseguirem elegê-lo. Ao fazê-lo, atropelaram e superaram o Partido Trabalhista Parlamentar [ing. parliamentary Labour party (PLP)] que se opunha vigorosamente a eleger Corbyn para a liderança.

Mas e onde tudo isso deixa o Guardian e o Observer, ambos aplicados apoiadores de elementos "moderados" no PLP? Se Corbyn está mostrando a face mais vermelha do Partido Vermelho Neoliberal, o que fará o Guardian, tradicional house organ do trabalhistas no Parlamento?

Corbyn não está ameaçando expor apenas a farsa que é o PLP, como 'alternativa' aos Conservadores; está também ameaçando expor a farsa que é a chamada mídia-empresa liberal de esquerda na Grã-Bretanha, que se apresenta como 'alternativa' aos barões-ladrões da mídia. Por isso os Freedlands e Toynbees – guardiões da chama-griffe "Guardian" e de uma nunca merecida reputação do como bússola moral de toda a esquerda – manifestaram antipatia instantânea, no instante em que Corbyn começou a ganhar proeminência.

Trataram de acompanhar a mídia-empresa de direita (que manteve o foco sempre no próprio Corbyn, sem jamais reconhecer a verdade mais óbvia: nunca se tratou só de um indivíduo; tudo sempre teve a ver com muito mais que isso. 

A repentina onda de apoios para Corbyn refletiu simultaneamente que os ingleses abraçaram a autenticidade e os princípios do personagem, além de uma ira muito generalizada contra as injustiças, as desigualdades e a degradação moral da vida pública, que são o legado do neoliberalismo.

Corbyn capturou uma emoção social que exige mudança real, não mais ilusões de mudança. Corbyn está surfando uma onda. Desacreditar Corbyn é desacreditar a onda que o traz.

Assassinato de caráter 

O Guardian e o Observer, cúmplices há tanto tempo dos Neoliberais Vermelhos liderados por Tony Blair, Gordon Brown e Ed Miliband, supuseram que conseguiriam matar a campanha de Corbyn, unindo-se às agressões e à vileza da mídia-empresa inglesa em geral. Acreditaram que conseguiriam continuar a policiar os quintais da esquerda política – do que passa por confiável na esquerda britânica – e assim conseguiriam enxotar Corbyn com firmeza para longe daqueles limites.

Mas Corbyn vencem apesar deles – e com enorme vantagem à frente dos concorrentes. Na verdade, o assassinato de caráter promovido peloGuardian contra Corbyn, em vez de desacreditar Corbyn, serviu exclusivamente para desacreditar o jornal na avaliação dos seus próprios leitores.

A vitória de Corbyn coroou um vastíssimo fracasso, não só da classe política e de todas as suas estreitas 'variações' neoliberais, mas fracasso também da mídia-empresa, jornais e jornalistas e 'especialistas' e todas as suas rasas variações neoliberais. Foi sinal de que a credibilidade do Guardian está evanescendo continuamente, aos olhos de seus próprios leitores.

As sessões de cartas do leitor no Guardian mostram que a perseguição implacável, violenta, sórdida, que a empresa moveu contra Corbyn meteu uma perigosa semente de desconfiança na mente de grande parcela dos seus leitores leais de antes. Muitos daquelas centenas de milhares de lutadores da esquerda que se integraram ao Partido Trabalhista, seja para eleger Corbyn seja para o apoiar daqui em diante são leitores atuais ou potenciais do Guardian. E o Guardian e o Observer só fizeram ridicularizar, os próprios eleitores e a escolha que fizeram.

Tardiamente, os dois jornais estão agora começando a sentir que seus leitores mais fieis sentiram-se traídos. O editorial oferecido a Vulliamy deve ser visto sob essa luz. Não foi gesto magnânimo ou 'democrático' do Observer, nem foi indicação de algum compromisso com o pluralismo. Foi um dos primeiros sinais claros de uma desesperada operação para tentar conter o estrago

O mais provável é que se vejam mais dessas "reavaliações" nas próximas semanas, com a mídia-empresa britânica liberal de esquerda tentando resgatar a própria cara, ante o núcleo de seus leitores-consumidores.

Talvez não seja golpe fatal para o Guardian ou o Observer, mas é sinal de tendência acelerada que se observa para toda a velha mídia-empresa e para a mídia-empresa liberal de esquerda, mais especificamente.

Jornais como Guardian e Observer já não compreendem os próprios leitores, porque já não têm comando sobre o que os leitores percebem como verdadeiro; e porque a realidade – para começar, a desigualdade que se polariza rapidamente e a degradação do meio ambiente – vai-se tornando cada dia mais difícil de novelizar.

Mídia-empresas como o Guardian estão ligadas por um cordão umbilical comercial e ideológico à ordem neoliberal – a mesma ordem neoliberal que já está cansando radicalmente larga faixa dos leitores, ou completa e absolutamente os horroriza.

Em 2003, o Observer ocultou deliberadamente a verdade sobre o Iraque e as armas de destruição em massa, para propagandear/promover uma guerra "preventiva" ilegal. Essa ocultação/propaganda/promoção de guerras é precisamente o que a lei internacional define como o supremo crime de guerra.

Naquele momento – o equivalente da Idade das Trevas, em termos digitais, comparado com o presente –, mal ou bem o jornal-empresa conseguiu safar-se e nem chegou a ser julgado por cumplicidade num crime contra a humanidade. O Observer nunca sentiu que tivesse de dar a Vulliamy a tarefa de fazer emendas reais em material publicado nem lamentou os leitores que a empresa traiu.

Mas na era das novas mídias digitais, empresas como Observer eGuardian estão percebendo que a evolução não é exclusivamente 'técnica' ou 'tecnológica': as próprias regras do jogo político estão mudando perigosamente para ela, sob os pés da velha empresa-imprensa. Corbyn é mensagem alta e clara dessa mudança.*****

21/9/2015, Jonathan Cook, Counterpunch 

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* Epígrafe acrescentada pelos tradutores [NTs].

 
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