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Vórtice do Conselho de Cooperação do Golfo

18.03.2014 | Fonte de informações:

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O estresse e o torvelinho que se vê no centro do mundo sunita estão arrastando outros membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para o mesmo vórtice.

O grupamento político, o CCG, liderado pela Arábia Saudita, está sendo pressionado, e literalmente desconjuntado[1] por pressões exercidas sobre ele pela repentina reconfiguração da política saudita - a saber, um decreto real que criminaliza os sauditas que estejam lutando fora do país e que classifica como 'terroristas' vários grupos jihadistas (mas, importante, não todos os grupos[2]) e, em separado, também inclui a Fraternidade Muçulmana. A Arábia Saudita (sentindo o despertar da Fraternidade Muçulmana depois do uso, pelo Egito, de força repressiva e munição viva) está pressionando todos os Estados do Golfo, e outros estados onde haja membros ativos da Fraternidade Muçulmana, a 'decretar' que o grupo é organização terrorista. Como observou um comentarista sobre o Golfo, a Arábia Saudita parece determinada a "varrer" a FM na região, de uma vez por todas.

A Arábia Saudita não está decidida a "varrer" só a Fraternidade Muçulmana, mas, também, a crítica indireta das políticas sauditas, particularmente as críticas que o Marechal de Campo Sisi vem distribuindo pelas ondas de televisão qataris. Qaradawi deve ser declarado persona non grata, e a rede al-Jazeera (da qual há muito tempo se diz que seria simpática à Fraternidade Muçulmana) contida, ou, preferentemente, fechada, insistem os sauditas.

A pressão sobre o Qatar é intensa. O Huffington Post noticia que os sauditas também exigem o fechamento de dois think-tanks norte-americanos baseados em Doha. Os embaixadores sauditas, do Kwait e dos Emirados Árabes Unidos, já foram retirados de Doha - e o governo egípcio, agora anunciado como futuro membro do GCC, alinhou-se, ombro a ombro,[3] com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos contra o Qatar e a Fraternidade Muçulmana.

Subjacentes contudo ao torvelinho no CCG, há duas questões separadas, nas quais a Arábia Saudita mudou de posição dramaticamente e repentinamente (de modo que vai bem além da específica rixa com o Qatar), que afetam de modos muito diferentes os interesses dos estados do Golfo, e que os põem em rota de colisão com a Arábia Saudita.

Quanto à Fraternidade Muçulmana, a Arábia Saudita, nos anos 60s e 70s usou os intelectuais da Fraternidade (exilados do Egito) para dar credibilidade e respeitabilidade intelectual ao wahhabismo. Foi conseguido, através de uma virada historicista dos ancestrais crentes (os salafistas) na direção de uma concepção ideológica que dava um contexto ao wahhabismo. A FM também foi usada como muito efetiva ferramenta de propaganda pró-sauditas, contra o nasserismo e o baathismo. Mas, nos anos 1990s, a Arábia Saudita virou-se fortemente contra os Irmãos, convencida de que a Fraternidade 'aproveitara-se' da Arábia Saudita (introduzindo-se na artéria dos petrodólares sauditas), e não considerando só interesses sauditas: também com vistas a objetivos específicos da própria Fraternidade Muçulmana. Ainda pior, a FM contestou a narrativa 'salafista', ao sugerir que a soberania pertence ao povo, não ao monarca saudita. Essa 'contestação' desperta temores especialmente fortes entre os nobres sauditas, não só por causa de movimentos da FM para minar diretamente o regime saudita, mas porque, sobretudo, aí está o mais poderoso desafio possível contra a legitimidade da própria família saudita reinante. Foi 'traição' pela qual a Arábia Saudita jamais perdoou a Fraternidade Muçulmana.

A experiência do Qatar (e do Kuwait) com a Fraternidade Muçulmana foi muito diferente: a FM qatari se autodissolveu em 1999, com o que foi removida qualquer ameaça interna (ou assim considerada) contra o emirado. O Kwait,[4] por outro lado, conseguiu conter o movimento islamista mediante seu próprio sistema constitucional de governo, que permite a manifestação de diferentes posições políticas e a realização de protestos. Resultado disso - e diferente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos - esses estados não se preocuparam com a FM instalar-se no Cairo nem com a crescente influência de islamistas na região. Assim também, o arranjo muito especial que se vê em Omã, onde os grupos e seitas não se organizam segundo categorias muito polarizadas, mitiga o impacto da rivalidade sunitas/xiitas, o que leva o país a preocupar-se muito menos com a Fraternidade Muçulmana que a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos.

Mas os EAU, por sua vez, veem suas ameaças internas como derivadas diretamente da FM: a partir das células que implantaram no Golfo há décadas, quando a FM gozava da alta benevolência dos sauditas, e quando os intelectuais da FM estavam firmando pé em instituições educacionais e de imprensa em todo o Golfo.

Qatar, diferente da Arábia Saudita, assumiu a liderança (com a Turquia) no início dos levantes de 2011 na promoção da Fraternidade Muçulmana na Síria e em outros pontos da região - mas, dito claramente, o foco do Qatar jamais se limitou só à Ikhwan, mas estendeu-se também ao apoio a grupos jihadistas radicais. Depois, a Arábia Saudita deslocaria o Qatar, para instalar seus próprios salafistas favoritos, de orientação saudita, em posições chaves na oposição síria. A íntima relação entre o Qatar e o CentCom [Comando Central dos EUA] e com o general Petraeus, quando esteve no comando, pode ter convencido Riad de que o Emir falava diretamente aos norte-americanos, e passava a comandar o chamado 'Despertar". Mas, na sequência, os EUA pareceram ter formado a convicção de que o Emir estava 'enganando' os EUA: por um lado, apoiava movimentos islamistas de reforma 'democrática'; por outro lado, apoiava grupos sunitas (antidemocráticos). Até que a competição armada entre grupos jihadistas que acontecia na Síria produziu uma reação norte-americana - e a tentativa de reorientar a infraestrutura de segurança na região, para passar a combate o jihadismo.

Os principais gatilhos para toda essa comoção foram basicamente o Egito e a associação dos sauditas à condenação da FM pelo marechal de campo egípcio; e, em segundo lugar, o dramático decreto saudita, que desautorizou os jihadistas - para grande fúria dos jihadistas 'abandonados no altar' na Síria, aos seus colegas salafistas e da Fraternidade e facilitadores no Líbano.[5]

Mas ainda há muita coisa que ainda não sabemos sobre esse movimento articulado no CCG contra o Qatar. Qual o conteúdo do acordo escrito entre sauditas-qataris (mediado pelo emir do Kuwait) e assinado em Riad, ano passado, e acordo cujos termos o governo do Qatar está sendo acusado de ter renegado? No Egito, o Qatar opôs-se ao golpe de 3 de julho; Arábia Saudita e EAU apoiaram sem restrições, na linha de que o sucesso e a estabilidade do novo regime egípcio (com repressão contra a FM) são vitais; e não podem de modo algum ser abalados por qualquer tipo de crítica. O Qatar diz que sua posição no caso do Egito não constitui qualquer interferência em assuntos internos sauditas ou dos EAU - o que sugere fortemente que o Acordo sauditas-qataris assumisse o apoio ao golpe egípcio, especificadamente, como imperativo interno do CCG - mais do que cuidava de alguma questão de política externa. Só isso explica que se exija agora total adesão a decisões do CCG.

O segundo gatilho foi, provavelmente, a indicação do príncipe Mohammad bin Nayef para substituir o príncipe Bandar, para conduzir a nova política saudita para a Síria.  Talvez caiba concluir aqui que a perspectiva da próxima visita do presidente Obama a Riad[6] tenha catalisado o 'reset' nas políticas sauditas, para dirigi-las contra o jihadismo takfiri.

O príncipe  Mohammad é, ao mesmo tempo, preferido dos EUA; e traz credenciais no campo do contraterrorismo - nova prioridade ocidental. Mas, e significativamente, ele e o pai são muito conhecidos por detestarem a Fraternidade Muçulmana. 

É possível que a Arábia Saudita esteja concedendo, tacitamente, algo à Síria,[7] mas simultaneamente está aumentando a aposta a favor de 'varrer' a Fraternidade Muçulmana. Se a Arábia Saudita persuadir outros na região a tornar proscritos os Irmãos,[8] Mohammad bin Nayef pode estar pensando corretamente ao assumir que os europeus, tão afinados sempre aos interesses do Golfo, podem ser contados entre os aliados, e seguirão os seus passos.

Não é lógico supor que Qatar, Omã (e até o Kuwait, que está sob pressão das demandas sauditas de que implemente um acordo de segurança amplo) possam permanecer como parte da mesma organização de segurança que Arábia Saudita e EAU, quando há entre os grupos divergências tão fortes no diagnóstico de de onde vêm os perigos para uns e outros.

A maioria dos estados do CCG entende que a "ameaça iraniana" - supostamente a própria razão de ser do CCG - pode ser mediada com eficácia via EUA e seu continuado empenho na segurança do Golfo, o que o secretário de Defesa dos EUA jamais deixa de sublinhar. 

Em resumo, a Arábia Saudita está em campo oposto ao de outros estados do Golfo sobre a natureza e a extensão de alguma 'ameaça' que venha do Irã; em campo oposto ao do Qatar,[9] em várias questões; em campo oposto a Omã, por sua rejeição aos movimentos do CCG na direção da união e por sua mediação com o Irã; em campo oposto ao do Kuwait por tumultuar o compacto de segurança; e o reino está em oposição até aos EAU, porque rejeitaram a Arábia Saudita como sede do Banco Central do Golfo. 

É visível que a Arábia Saudita está em estado de humor irascível e volátil, e os estados do CCG estão visivelmente preocupados.

O que significa isso em termos de geopolítica? Em primeiro lugar, parece que essas tensões no CCG repercutirão diretamente na Síria, onde as fricções entre estados do Golfo tendem a se manifestar nos antagonismos e conflitos entre diferentes gangues armadas - o que beneficia o exército sírio. 

Em segundo lugar, a perda de coesão do CCG enfraquecerá a própria organização como tal, e, por outro lado, afetará a posição política dos sauditas, que é decorrência do controle sobre o próprio CCG.

Em terceiro lugar, as hostilidades contra Omã e Qatar, longe de operar como fator que os desestimule de se aproximarem do Irã, estão, precisamente, empurrando-os naquela direção.

Em quarto lugar, o assalto contra a Fraternidade Muçulmana está aprofundando a solidão do primeiro-ministro Erdogan da Turquia[10] e sua vulnerabilidade política.

Por fim, a Arábia Saudita realmente se excedeu, ao depositar parte tão significativa de sua credibilidade sobre os ombros do marechal de campo Sisi e no curso imprevisível dos eventos no Egito.

Claro, EUA e Europa estão recorrendo à retórica da Guerra Fria no caso da Ucrânia e mostram-se determinados a fazer todo o possível para separar a Ucrânia do campo russo, o que está impondo um outro fator, que se sobrepõe às tensões na região: como a Rússia responderá? Um embaixador russo já sugeriu[11] que o caso da Ucrânia muda tudo. E o que tudo isso implicará para a Síria e o Irã, e o bloco mais adesivo no 'front' rival?

Se a Rússia se torna mais assertiva, talvez alguns estados do CCG sintam-se tentados a olhar naquela direção - dada a percepção generalizada na região de que a Rússia mantém forte constância em suas políticas - e na direção dos amigos da Rússia.****

 


[1] http://www.atlanticcouncil.org/BLOGS/NEW-ATLANTICIST/BREAK-UP-IN-THE-GULF

[2] http://www.al-monitor.com/pulse/security/2014/03/saudi-terrorism-list-syria-spark-new-conflicts.html

[3] http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/03/08/Egypt-hails-Saudi-on-Brotherhood-terror-tag.html

[4] http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2014/03/muslim-brotherhood-kuwait-saudi-terror.html

[5] http://english.al-akhbar.com/content/lebanon-islamists-tripoli-question-saudi-decree

[6] http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/gulf-arabs-in-crisis

[7] http://english.al-akhbar.com/content/riyadh-puts-isis-al-nusra-front-muslim-brotherhood-and-houthis-list-terrorist-organizations

[8] http://english.alarabiya.net/en/perspective/analysis/2014/03/09/Saudi-s-Brotherhood-ban-could-send-shockwaves-worldwide.html

[9] http://english.al-akhbar.com/content/qatar-signals-strategic-shifts-iranian-diplomacy-sways-eu

[10] http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2014/03/turkey-gcc-hamas-erdogan.html

[11] http://english.al-akhbar.com/content/russian-ambassador-upbeat-over-lebanon-and-syria-warns-west-over-ukraine

 

Conflicts Forum
14/3/2014, Comentário semanal 28/2-7/3/2014
http://www.conflictsforum.org/2014/conflicts-forums-weekly-comment-28-feb-%E2%80%93-7-march-2014/

 

 
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