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Não fossem os franceses, Hezbollah seriam sírios

13.03.2014 | Fonte de informações:

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Não fossem os franceses, Hezbollah seriam sírios. 19970.jpeg

Não fossem os franceses, todos no Hezbollah seriam sírios, lutando lado a lado com seu próprio governo, no seu próprio país.


2/3/2014, Robert Fisk, The Independent, UK - http://goo.gl/WGLSc9


As fronteiras estão-se tornando bem esquisitas no Oriente Médio. Sempre foram, é claro. Desde que Mark Sykes e François Georges Picot - esse último, cônsul da França em Beirute, por falar dele; e seu consulado custou a muitos bravos libaneses a própria vida, pelo desleixo com que ele lacrava as cartas antiotomanas deles por trás do muro da embaixada - dividiram Líbano, Síria, Iraque, Palestina, etc., muitos árabes (ou os netos deles) acabaram tendo de viver como refugiados detestados, poucas milhas distantes de seus lares originais, amaldiçoados e maltratados e às vezes mortos por outros muitos árabes que acabaram por ser - em alguns casos, para sua própria surpresa - ou libaneses ou sírios.

Então se chega à questão de um estado chamado Israel que existe numa terra que era chamada Palestina, 22% da qual - e porcentagem que encolhe dia a dia - supõe-se que se chame "Palestina". É, talvez seja.

O que me leva ao de que se trata. Porque semana passada, o ministro de Assuntos Estratégicos - será que alguma outra nação na Terra tem ministério disso?, pergunto aos meus botões - de Israel, avisou o Líbano de que deve tratar de impedir que o Hezbollah (armado pelo Irã, apoiado pela Síria, vocês conhecem os clichês, batidos e verdadeiros) ataque Israel, como retaliação pelo ataque de Israel a um comboio de armas - ataque que, como acontece muitas vezes, Israel sequer admitiu ter executado.

Vejamos do que realmente se trata. E começo com uma esquisitíssima citação, que recolhi da agência Reuters de notícias:


"Na 6ª-feira, Israel avisou o Líbano de que impeça retaliação [sic] pelo Hezbollah, por causa de um suposto [sic] ataque israelense na fronteira síria."


O quê?! Os editores da Reuters viram-se às voltas com um problema fatual, é claro. Os israelenses não admitiram que bombardearam o comboio dentro do Líbano, portanto a agência teve de dourar a pílula - porque Israel não admitiu o ataque e, sem a confirmação por Israel, ninguém pode afirmar fato algum no Oriente Médio. Mas, ao mesmo tempo, a Reuters não podia deixar de noticiar o ataque aéreo que centenas de libaneses no Vale do Bekaa viram com os próprios olhos. Por isso escreveram "suposto ataque". Curiosamente, nem o Hezbollah noticiou o ataque, para começar.

Sem problemas, suponho, se o ataque aéreo tivesse acontecido dentro das fronteiras sírias - como outros três, nenhum dos quais confirmado pelos israelenses.

Mas voltemos a Yuval Steinitz - o supracitado ministro israelense - que disse que "é autoevidente que nós consideramos o Líbano responsável por qualquer ataque a Israel que parta de território libanês". Sempre segundo a mesma matéria da Reuters, Israel ameaçou destruir "milhares" de prédios residenciais que, diz Israel, o Hezbollah usa como bases. É ainda mais esquisito.

Por muitos anos - e já testemunhei cinco dessas guerras, embora Israel diga que só combateu três delas - vi milhares e milhares de prédios "residenciais" reduzidos a cacos por Israel e que não eram bases do Hezbollah. Então, o sr. Steinitz estará sendo mais contido que seus predecessores? Estará ele dizendo que Israel pode atacar só os prédios residenciais que o Hezbollah está usando - e não outros prédios residenciais que haja na mesma área? E isso, claro, só se o Hezbollah retaliar depois de um ataque aéreo que talvez - talvez sim, talvez não - tenha acontecido?

E só para encerrar, também dos enlouquecidos editores da Reuters, a agência tem mais uma linha sensacional que tenho de partilhar com vocês. "Israel está tecnicamente em guerra contra o Líbano e a Síria". Uau! Essa acabou comigo.

Legenda: Foto tirada da vila libanesa de Adaysseh mostra soldados patrulhando a fronteira Israel-Líbano, dia 20/1/2014 (Getty Images)

Assim sendo, voltemos às fronteiras. Há muitas décadas, havia várias vilas no Líbano que os franceses deram aos britânicos - quando os britânicos mandavam na "Palestina" e os franceses controlavam o Líbano e a Síria (o Líbano sendo parte da Síria até que os franceses o amputaram, como aliado útil para anos futuros).

Muitos libaneses, nascidos no Império Otomano, acordaram um belo dia e descobriram que já não eram libaneses - mas palestinos. E quando os israelenses chegaram à Galileia e empreenderam o serviço de limpeza étnica (sobre isso, vejam o trabalho do excelente historiador israelense Ilan Pappe, dentre outros), alguns desses ex-libaneses - já então palestinos - foram assassinados. Os demais foram expulsos de Israel (ex-Palestina), mandados para o Líbano - onde muitos deles haviam nascido - como refugiados palestinos. Há poucos anos realmente receberam passaportes libaneses - e assim ficaram sabendo que deixavam de ser palestinos.

Não pode haver muitos deles ainda vivos, mas - se tivessem dirigido algumas milhas rumo norte, a partir de suas atuais casas no Líbano, semana passada - poderiam ter testemunhado o ataque aéreo contra o Líbano que só "supostamente" aconteceu. Assim, veriam com os próprios olhos um ataque executado pelo país que os expulsou da "Palestina" para o país onde realmente nasceram. Veriam pois um ataque aéreo que talvez não tenha acontecido ("suposto ataque"), porque o país no qual eles não nasceram não declarou que realmente atacou o país do qual eles são agora (outra vez) cidadãos.

E você, leitor, que pensava que o Oriente Médio era lugar difícil de entender... Experimente viver aqui.

OK, voltemos para a Síria, por um momento. Como vocês sabem, há guerra aqui há mais de dois anos. O Hezbollah está combatendo ao lado do governo de Bashar al-Assad - ofensa terrível aos olhos dos governos ocidentais que permitiram à França amputar o Líbano, da Síria, depois da 1ª Guerra Mundial.

Se os franceses não tivessem feito isso, é claro que no Hezbollah seriam todos sírios
lutando lado a lado com seu próprio governo, no seu próprio país, e o Hezbollah não nos ofenderia tanto, por cruzar a fronteira que os ocidentais criaram contra a vontade dos avós do Hezbollah. Nesse caso, os israelenses não teriam de 'avisar' o Líbano sobre retaliações pelo Hezbollah contra ataque aéreo que talvez - talvez sim, talvez não - os israelenses executaram contra o Líbano, mas ataque que - se o ocidente não tivesse inventado o Líbano - seria o quarto ataque de mesmo tipo por Israel contra a Síria... Sempre supondo que Israel "declare" que, antes de tudo começar, Israel atacou a Síria ("primeiro ataque").

Daqui em diante é com vocês, pessoal! (...)

 

 
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