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As coisas vão de mal a pior na Alemanha

09.11.2015 | Fonte de informações:

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Política de Merkel leva em conta impactos na economia do país; gestos de críticos lembram tempos sombrios

"A Alemanha está em um estado de emergência." Esta é uma das frases com que a reportagem do semanário Der Spiegel International, em inglês, caracterizava a situação do país em artigo desta segunda-feria (2) - "The Lonely Chancellor: Merkel under Fire as Refugee Crisis Worsens". Ou seja, a primeira-ministra Angela Merkel, já isolada, fica ainda mais acuada à medida em que a crise dos refugiados se agrava.

Por Flavio Aguiar, de Berlim, na Rede Brasil Atual:

A coalizão que sustenta o governo passa pela pior crise desde sua constituição. Ela é um tripé de duas pernas. Explico. Uma das pernas, a minoritária, é o SPD, o Partido Social Democrata, que, de acordo com a tradição, indicou o vice-chanceler, Sigmar Gabriel. A outra tem dois pés: a CDU, sigla em alemão da União Democrata Cristã, partido da chefe de governo Merkel, e que atua em 15 das 16 províncias e cidades-estado (Berlim, Hamburgo e Bremen) do país; e a CSU, União Social Cristã, que atua na região da Baviera.

O líder da CSU e primeiro-ministro bávaro, Horst Seehofer, é hoje o principal crítico de Merkel quanto à política para os refugiados que buscam a Europa e, em particular, a Alemanha. A Baviera recebe o maior número deles, vindos da fronteira austríaca, e Seehofer chegou ao ponto de dar ultimatos para que a chanceler fechasse a fronteira alemã. Também sugeriu que se organizassem "campos de triagem" nas fronteiras, o que foi rejeitado pelo ministro da Justiça, Heiko Maas, que é do SPD. Maas não disse o nome maldito, mas é óbvio que isso de "campos de triagem" lembra os campos de concentração do passado não tão remoto.

A tal ponto chegou a desavença, que Sigmar Gabriel, por sua vez, deu um ultimato aos dois - Seehofer e Merkel - para que chegassem a um acordo. No domingo os três se reuniram, sem resultado. Depois de suas horas de reunião, Gabriel se retirou, e mais tarde, sem acordo, Merkel e Seehofer suspenderam o encontro, que prosseguirá na quinta-feira.

A situação parece a de uma dupla sinuca de bico. Se Merkel recua, se desmoraliza perante a Europa e o resto do mundo; se Seehofer recua, se desmoraliza perante suas bases bávaras. Também há muita resistência dentro da própria CDU, e políticos insatisfeitos vêm dizendo que a atitude de Merkel só está favorecendo a extrema-direita, como o movimento Pegida (sigla em alemão para Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente) ou o neo-nazi NPD, ou ainda a direita com pedigree acadêmico, o recém-fundado AfD (Alternativa para a Alemanha).

No plano europeu, Merkel enfrenta muita resistência, particularmente no antigo Leste, onde vários políticos de direita, como o estrondoso Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria, vêm se erguendo em defesa da "Europa cristã" (sic), contra a horda alienígena que a está invadindo.

É a pior crise de identidade da União Europeia desde a sua fundação. E paradoxalmente Merkel vem dependendo da boa vontade de políticos que antes triturou, como o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras. Ou então vai depender também da boa vontade de líderes complicados, como Tayyip Erdogan, da Turquia, para conter os milhares de refugiados que ainda chegam sem parar. Também dependerá da boa vontade do social-democrata Matteo Renzi, da Itália.

Na Alemanha, a crise política do governo é a ponta do iceberg de uma crise mas profunda, social, cultural e identitária. Vozes se erguem contra a política de Merkel, dizendo que a abertura está destruindo a "matriz genética" do povo alemão e infraestrutura social e previdenciária do país. Os argumentos são falaciosos, pois todo mundo de bom senso sabe que, em matéria de previdência, a Alemanha pode cobrir essa leva de refugiados e muito mais. E todo mundo sabe que a população alemã envelhece a olhos vistos e encolhe, precisando de mão de obra variada em todas as frentes.

Vozes mais sensatas argumentam que em cinco anos os refugiados já terão compensado o investimento feito para recebê-los e começarão a contribuir positivamente para o equilíbrio econômico do país. Além disso, desde o fim da Segunda Guerra a Alemanha se beneficia dos fluxos migratórios contínuos, tendo à frente portugueses, depois turcos, a seguir os do antigo Leste, o que alimenta uma saudável diversidade social e cultural.

Porém, é exatamente essa diversidade que desagrada mais veementemente os insatisfeitos e "puristas" alemães. Os movimentos e as manifestações de extrema-direita têm sido cada vez mais constantes e violentos. Todas as noites abrigos para refugiados são incendiados criminosamente, sobretudo no antigo Leste, mas também em outros recantos. Nas manifestações do grupo Pegida, forcas têm sido levantadas com dizeres indicando que se destinam a Merkel e Gabriel. Na mais recente, um dos oradores disse que o ministro Maas era "pior do que Goebbels".

E atos se tornam mais violentos. Em Colônia, a candidata à prefeitura Henriette Reker (eleita), foi atacada a facadas por um "desempregado". Duas noites atrás um grupo de refugiados sírios foi emboscado à noite por um grupo neonazi armado com tacos e sarrafos. E recentemente o jornalista Helmut Schumann, do jornalTagesspiegel, que escreveu críticas ao crescimento da xenofobia na Alemanha, foi atacado numa rua de Berlim por um grupo enfurecido que o derrubou a pancadas e gritos de "porco esquerdista".

Vários analistas estão falando que o clima lembra perigosamente os dias da República de Weimar, que antecedeu a ascensão nazista nos anos 30.

Para completar esse quadro complicado e algo assustador, na última manifestação do grupo Pegida, ontem em Dresden, a polícia local teve um comportamento que muitos jornalistas qualificaram de "bizarro". Como é costume, manifestantes antipegida se reuniram em outro local. Enquanto a manifestação do Pegida não tinha acompanhamento policial, a manifestação dos contrários era vigiada por um enxame de policiais. Não se teve até agora nenhuma explicação oficial para a estranha atitude, que também lembrou, perigosamente, os dias de Weimar, em que as forças de segurança reprimiam duramente manifestações esquerdistas e não raro faziam vista grossa para as dos nazistas.

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