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No 54º aniversário do nascimento das FARC

04.06.2018 | Fonte de informações:

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No 54º aniversário do nascimento das FARC

Escrito por Conselho Político Nacional - Farc

 

"Em lugar da guerra e da violência, apostamos hoje na reconciliação, no fim dos ódios"


Manuel Marulanda (sentado) falando com seus companheiros de armas


Há 54 anos que se produziu em Marquetalia o primeiro combate entre os campesinos que se declararam em resistência e as tropas do Estado colombiano enviadas para aniquilá-los. Eram os tempos da chamada Guerra Fria, nos quais o governo dos Estados Unidos, em aplicação de suas Doutrinas de Segurança Nacional e Contra Insurgência, arremetia em todo o continente e fora dele, contra qualquer manifestação de inconformidade a que qualificava de inimigo interno.

A tese da aniquilação física do contraditor político, proveniente de Washington, caía em terreno fértil num país como Colômbia, no qual a classe dirigente liberal e conservadora havia feito do crime político sua arma favorita de dominação por mais de um século. Os conflitos pela terra e pelos direitos à vida, o trabalho e condições dignas de vida se haviam resolvido sempre mediante a violência contra os de baixo e Marquetalia voltava a confirmá-lo.

O Plano LASO, ou Operação de Segurança para a América Latina, destinava uma vez mais às forças militares e de polícia a tarefa de extermínio, que no interior do país atiçavam as vozes dos senadores Álvaro Gómez Hurtado e Victor Mosquera Chaux, proeminentes figuras dos partidos conservador e liberal, que se revezavam no governo mediante a denominada Frente Nacional. O presidente Guillermo León Valencia cumpria prazerosamente com sua vontade.

A resistência dos 48 campesinos marquetalianos, encabeçada pelos imortais Manuel Marulanda Vélez e Jacobo Arenas, se encarregaria de demonstrar ao imperialismo e à oligarquia colombiana que seus planos de fácil vitória se achavam fora da realidade. Uma formidável organização político-militar, de profundo enraizamento popular, nasceria daquela rebeldia e se ergueria invencível durante mais de cinco décadas.

Isso jamais poderá ser borrado da história, por mais que a infâmia e a calúnia tenham se encarregado de apregoar a suposta perversão da luta guerrilheira em Colômbia. As FARC-EP nos proclamamos profundamente revolucionários desde nosso Programa Agrário e, durante 10 Conferências Nacionais celebradas a partir do ano de 1965, não somente voltamos a ratificá-lo como também a dirigir qualquer desvio isolado de nossas ideias e convicções humanistas.

Conscientes de que o levantamento em armas exigia preparação e planejamento, com vistas a um futuro triunfo popular, nos traçamos um plano estratégico de guerra que fomos edificando na realidade com as unhas, sem contar nunca com apoio econômico ou armado de nenhuma nação forânea. Simultaneamente projetamos a urgência de evitar ao país um inútil derramamento de sangue, mediante a busca de uma saída civilizada e dialogada às causas da confrontação.

Transcorreriam quase vinte anos de conflito armado para que um governo nacional aceitasse por fim se sentar a uma mesa de conversações a buscar uma solução política. Dela surgiriam os Acordos de La Uribe, onde as FARC acordamos inclusive uma desmobilização de nossa força, em troca de uma série de reformas institucionais que contemplam a criação das condições materiais e políticas para nossa paulatina conversão em organização exclusivamente política.

Na memória nacional ficarão gravadas a falta de vontade real do poder legislativo para implementar o acordado em La Uribe e a onda criminal desdobrada por outro lado contra a União Patriótica, a proposta política de mudança e convergência que fizemos então ao país, recolhida com entusiasmo por milhares de colombianos de diversos partidos e ainda sem partido, que logo seriam eliminados miseravelmente numa política criminal de Estado.

Aquele mar de sangue não nos fez, no entanto, desistir de nossos propósitos de paz durante o governo de Virgilio Barco, com o qual seguiram se adiantando contatos em Casa Verde. Até que o governo de César Gaviria Trujillo entrou com uma nova arremetida militar que apostou uma vez mais no extermínio, encontrando por sua vez a resistência invencível da insurgência. A tentativa de conversações em Caracas e Tlaxcala se afundou no fracasso quando negamos a nos render.

Sobreviriam então dois governos que, em sua obsessão por nos subjugar, abriram as portas à decomposição das forças militares e de polícia, que terminaram aliadas com poderosos setores econômicos no impulso e fortalecimento do fenômeno paramilitar, que assolou o país de maneira aterrorizadora, numa suposta guerra contra a insurgência, que se dirigia, na verdade, contra a população das áreas rurais numa obstinação de desterro e despojo.

A confrontação subsequente terminaria por conduzir o governo de Andrés Pastrana a umas novas conversações de paz, assinadas de antemão pela firma do Plano Colômbia que apontava seus destinos à reengenharia militar do Estado colombiano e ao aprofundamento do plano de arrasamento militar. O Caguán passaria assim a se converter no espaço para ganhar tempo por parte do Estado, fazendo ouvidos moucos ao clamor nacional crescente pela paz.

A brutalidade da guerra de extermínio se poria evidência durante os dois períodos presidenciais de Álvaro Uribe, cujo saldo em vítimas fatais, feridos, deslocados, despojados, perseguidos judicialmente e executados extrajudicialmente alcançaria níveis exorbitantes, convertendo nosso país numa nação falida, condenada ao terrorismo de Estado e em aberta hostilidade com o resto do continente envolvido num processo democratizador.

A necessidade de fazer da Colômbia um Estado diferente, unida à impossibilidade comprovada de uma vitória militar sobre a insurgência, conduziu ao estabelecimento de um novo processo de conversações a partir da chegada de Juan Manuel Santos à presidência. Se necessitou 6 anos de diálogos, discussões e debates para que as FARC e o governo da Colômbia presenteassem a seu país e ao mundo a grata surpresa de um Acordo Final de Paz aclamado em todo o orbe.

As FARC, agora convertidas em força exclusivamente política, temos cumprido sagradamente com nossa palavra. Deixamos as armas, não se apresentou um só colombiano morto ou ferido por obra de nosso acionar, tomamos parte num debate eleitoral e nossa militância permanece organizada nos ETCR, pontos de agrupamento e algumas urbes à espera dos feitos de governo que deem conta do cumprimento fiel do acordado. Porém trabalhando dia a dia o sustento de nossas famílias e para consolidar este sonho de paz.

São várias dezenas de ex-combatentes os caídos desde a firma do Acordo Final, assim como já somam centenas os líderes sociais e políticos assassinados, apesar do compromisso governamental de garantias e proteção firmado em Havana. Partes essenciais do Acordo, como a própria anistia e a JEP, foram modificadas arbitrariamente pelo Congresso da República, enquanto outros, como a Reforma Rural Integral, foram burlados por reformas neoliberais do agro.

A substituição voluntária de cultivos ilícitos aprovada em Havana marcha a passo paquidérmico, enquanto a erradicação forçada e as políticas repressivas contra os campesinos crescem aceleradamente. A segurança jurídica dos ex-combatentes cambaleia por conta de incisos introduzidos pelo legislativo e das montagens judiciais que ameaçam se converter em prática mediante o contubérnio entre a Promotoria Geral da Nação e o Império norte-americano.

Dissemos e continuamos sustentando que sabíamos que não seria fácil que uma oligarquia como a colombiana, historicamente dada ao descumprimento e à vingança, do que são prova os Comuneiros de Galán, Guadalupe Salcedo, Jamie Pardo Leal e Carlos Pizarro, se nivele a cumprir o prometido. Sabíamos e seguimos sendo conscientes de que há que fazê-la cumprir. Contamos para isso com o apoio de milhões de colombianos e da comunidade internacional.

Também somos conscientes de que existem no país poderosos interesses para que a confrontação persista e se renove em grande escala. O que se vive na Colômbia de hoje não é outra coisa que um pulso histórico entre as forças que estão por um país em paz, democrático, civilizado, tolerante e em progresso, e as forças violentas enriquecidas historicamente com a guerra, indiferentes à dor de um povo que põe os mortos e as vítimas e que o atiça diariamente para a hecatombe.

Estamos convencidos de que a nação colombiana alcançou um nível que impedirá a volta ao passado. Não estamos interessados de nenhum modo na guerra e ratificamos uma vez mais que não voltaremos à via das armas, porém lutaremos, sim, ombro a ombro, com os colombianos e as colombianas que ansiam pela mudança social e democrática de nosso país. Reivindicamos a unidade de todos e todas, os quais veem nos Acordos de Havana a possibilidade de começar a construir um país diferente. Nos burlaram a reforma política, não há outro remédio que trabalhar todos unidos para alcançá-la.

Em lugar da guerra e da violência, apostamos hoje na reconciliação, no fim dos ódios. Por isso pedimos perdão por todos e cada um dos erros que hajam de imputar-se a nosso acionar e voltaremos a fazê-lo a cada vez que seja requerido. Por isso nosso compromisso de comparecer ante a JEP e nos submeter a seus vereditos. Pensamos que nossos contraditores na guerra, tal e como se pactuou em Havana, devem atuar do mesmo modo.

Ou ser, pelo contrário, repudiados pela nação colombiana ansiosa de paz. Vivemos momentos cruciais para nosso devir. Algumas forças reconhecidamente vinculadas ao passado de horror e obcecadas em repeti-lo se enfrentam com outras que clamam por um país distinto que olhe para o futuro com otimismo e tolerância. Estamos claramente com estas últimas e convidamos nosso povo a demonstrar isso nas urnas. Por isso lutamos incansáveis durante 54 anos.

 

CONSELHO POLÍTICO NACIONAL

FORÇA ALTERNATIVA REVOLUCIONÁRIA DO COMUM FARC

Bogotá, 27 de maio de 2018.

 

Tradução > Joaquim Lisboa Neto

 

 
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