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Crónicas recifenses: Abelardo da Hora

01.12.2017 | Fonte de informações:

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São muitas as histórias sobre Abelardo da Hora. Uma delas, a mim foi contada pelo jornalista Ronildo Maia Leite, em 1991, quando o fotografei no seu apartamento, na Rua Maestro Nelson Ferreira, na praia da Piedade, em Jaboatão dos Guararapes.

Clóvis Campêlo

São muitas as histórias sobre Abelardo da Hora. Uma delas, a mim foi contada pelo jornalista Ronildo Maia Leite, em 1991, quando o fotografei no seu apartamento, na Rua Maestro Nelson Ferreira, na praia da Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. Contou Ronildo que em plena ditadura militar, Abelardo da Hora pendurava-se de cabeça para baixo na ponte Duarte Coelho, segurado pelos companheiros militantes, para pintar no parapeito da ponte a palavra liberdade. Isso hoje, pode parecer bobagem, mas naquele tempo exigia coragem e convicção política.

Umas outras histórias sobre Abelardo, eu li no livro Dicionário Amoroso do Recife, do escritor Urariano Mota. No livro, Abelardo é o verbete que o abre. A primeira, refere-se ainda aos tempos sinistros da ditadura, quando todo o Comitê Estadual do Partido Comunista, do qual o escultor fazia parte, foi assassinado. Apenas Abelardo escapou, por ser casado com a irmã de Augusto Lucena, então prefeito biônico do Recife e homem de confiança dos militares golpistas. A segunda história, mais amena e mais engraçada, embora de resultado desfavorável para o artista, deu-se na casa do empresário Ricardo Brennand, onde Abelardo, ainda adolescente, trabalhava e vivia. Todos os dias, pela manhã, deparava-se com as filhas do mecenas saindo para a escola. Impressionado com a beleza de uma delas, fez uma escultura, por ele mesmo chamada de A torre dos meus sonhos, onde dois cupidos brincavam com os cabelos de uma jovem em pé, enquanto um rapaz com a sua fisionomia abraçava-se às pernas da moça. O velho Brennand não gostou da ousadia e, por conta disso, Abelardo da Hora terminou por deixar a casa do empresário.

As mulheres, inclusive, sempre foram um tema predominante na arte do artista plástico. Basta observar nos prédios residenciais do Recife a quantidade de figuras femininas esculpidas pela arte de Abelardo.

Apenas uma vez fotografei mestre Abelardo. A fotografia foi feita em 1992, no Museu da Imagem e do Som de Pernambuco, na época dirigido por Celso Marconi, um marxista devoto de Nossa Senhora da Conceição. Infelizmente, a única fotografia de Abelardo da Hora feita por mim se extraviou. Este texto foi por nós pensado exatamente para dilvulgá-la. Confesso que estou pagando por minha falta de organização.

Durante anos passei diariamente na porta da casa de Abelardo, na Rua do Sossego, e, apesar da sua acessibilidade, nunca tive coragem de incomodá-lo no recesso do lar para tentar fotografá-lo.

Alguns anos antes do seu falecimento, quando lhe prestaram uma homenagem no carnaval do Recife, cruzei com ele no Galo da Madrugada. Estava eufórico e animado e essa foi mais uma boa oportunidade por mim perdida.

Abelardo da Hora nasceu na cidade pernambucana de São Lourenço da Mata, em 31 de julho de 1924, e faleceu no Recife, em 23 de setembro de 2014.

Sobre a sua obra, assim se coloca a Wikipédia: "A maneira de Abelardo da Hora se expressar através da escultura é única e forte. Não é superficial nem interessada em ser fácil para o mercado absorver. Na escultura, como nos desenhos, há nitidamente três vertentes que podem ser facilmente identificadas: a preocupação de sempre alertar para o descaso com relação aos menos favorecidos. São desenhos e esculturas denunciadoras de um estado de coisas insuportável, tal a miséria em que vive grande parte da população; o elogio da força e riqueza dos que se reúnem em maracatus, bumbas-meu-boi, frevos, etc., que nascem no interior nordestino e vêm para as cidades grandes mostrando ritmo, cores, organização. Fantasias ricas que encantam os centros urbanos. O artista traduz isso em desenhos extraordinários e, o que é mais difícil, transpõe para esculturas de concreto; a grande riqueza do planeta resumida num flagrante exemplo através do corpo feminino. Não é apenas a mulher que está viva, mas suas esculturas. É toda a natureza que explode no artista".

Como artista militante, participou ainda nos anos 60 do memorável Movimento de Cultura Popular (MCP), criado quando da gestão de Miguel Arraes de Alencar como prefeito do Recife. Segundo texto de Lúcia Gaspar, publicado no site da Fundaj: "O Movimento de Cultura Popular do Recife foi extinto com o golpe militar, em março de 1964. Dois tanques de guerra foram estacionados no gramado da sua sede, no Sítio da Trindade. Toda a documentação do Movimento foi queimada, obras de artes destruídas e os profissionais envolvidos foram perseguidos e afastados dos seus cargos".

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