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Eleições na Ucrânia

29.10.2004 | Fonte de informações:

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O discurso que proferiu pela televisão em Kiev e a sua prolongada visita que fez esta semana à Ucrânia testemunham que ele dispensa a este país uma atenção notoriamente maior do que a algumas regiões russas no decurso da campanha eleitoral.

O interesse da Rússia pelo destino da Ucrânia é compreensível. Mas enquanto Putin falava sobre a fraternidade entre os povos eslavos, outros "amigos" russos acirravam ainda mais os ânimos durante a campanha eleitoral na Ucrânia e recorriam aos métodos de divisão do eleitorado ucraniano em dois campos opostos usando as tecnologias de propaganda desonesta. As eleições do domingo são um exemplo de democracia na sua forma mais instável e variável. Estará pronta a Rússia para enfrentar as consequências desta sua ingerência nos assuntos internos do Estado vizinho e lidar com aquilo que ficará da Ucrânia na manhã da segunda-feira?

A Ucrânia com o seu sistema de tubulações que passam pelo seu território é um importantíssimo elo que assegura o trânsito de petróleo e gás russos para a Europa. O porto ucraniano de Sevastopol é base da Frota do Mar Negro, importante unidade estratégica da Marinha de Guerra da Rússia. A máquina bélica russa depende em muito de peças sobressalentes produzidas na Ucrânia. Já sem falar em séculos de parentesco que liga os dois povos eslavos pelos laços culturais e religiosos.

Moscovo receia que todos estes interesses sejam espezinhados em caso de vitória do líder da oposição Viktor Yuschenko. Por isso, o Kremlin luta pela manutenção da imutabilidade da actual situação na Ucrânia apostando no primeiro-ministro Viktor Yanukovitch apoiado pelo Presidente Leonid Kutchma. No início deste mês (no dia do nascimento de Putin), o favorito de Moscovo foi convidado à Rússia; as suas realizações são elogiadas nos painéis de publicidade colocados na capital russa. Correm boatos que nas casas de campo secretas nos arredores de Kiev se encontram os politólogos russos que têm por objectivo criar no dia das eleições uma situação favorável à vitória de Yanukovitch e, possivelmente, conseguir resultados ainda mais radicais que permitam ao Presidente Kutchma ficar no poder.

Apesar da impressão de que existe um perfeito esquema da participação russa nas eleições ucranianas, a Rússia encontra-se em face de determinados factores de risco.

Primeiro, este esquema poderá falhar. A campanha eleitoral, que continua a decorrer com grande tensão, torna-se cada vez mais escandalosa. O apoio prestado por Puitin a Yanukovitch, condenado por felonia e considerado há ainda alguns meses como político pouco popular, exercerá, possivelmente, uma influência sobre um determinado número de eleitores, mas repelirá os ucranianos que se julgarem peões nos jogos geopolíticos de Moscovo. Enquanto isso, o embaixador da Rússia na Ucrânia, Viktor Tchernomyrdin, comprometeu os planos de Moscovo tendo declarado que a visita de Putin à Ucrânia, marcada exactamente para o período eleitoral, não estava ligada de modo algum às eleições presidenciais.

A vitória de Yuschenko colocará também Putin numa situação incómoda em relação ao Ocidente deixando-o a sós com o Presidente bielorrusso Aleksandr Lukachenko, considerado ali como pária, enquanto a Ucrânia está a voltar para as forças mais progressistas da Europa.

Em caso de vitória da Yanukovitch não há plena certeza de que o novo Presidente fará sempre aquilo que dele se espera em Moscovo. Este político está ligado por sólidos laços aos magnatas ucranianos cujos interesses nem sempre coincidem com os dos seus colegas russos. A elite dos meios de negócios ucranianos não manifesta especial lealdade a Yanukovitch, faz troça dele nos corredores e, ao mesmo tempo, presta-lhe publicamente o seu apoio na esperança de que no futuro ele apoie a sua posição.

Yanukovitch promete também conceder direitos mais amplos aos cidadãos ucranianos de língua russa. No entanto, é preciso não esquecer que há dez anos Leonid Kutchma ganhou as eleições presidenciais tendo prometido igualmente restabelecer o estatuto merecido da língua russa, mas depois da sua eleição para o cargo de chefe de Estado esqueceu rapidamente todas as suas promessas. Nestes anos o ucraniano ocupou firmes posições na qualidade de idioma oficial na república e as perspectivas de que o Parlamento conseguirá rever facilmente a situação criada não são grandes.

Mesmo que a Ucrânia renunciasse ao seu objectivo de ingressar no bloco da NATO, Yanukovitch teria de seguir uma política flexível e moderada em relação a União Europeia para não prejudicar as vastas relações comerciais com os seus vizinhos ocidentais. Qualquer político ucraniano compreende perfeitamente que apostar unicamente na Rússia ou no Ocidente equivaleria ao suicídio para a Ucrânia.

Yuschenko, a favor do qual se manifestam os eleitores das regiões ocidentais da Ucrânia, e que é expoente da ideologia e interesses corporativos da União Europeia e dos EUA, é qualificado como candidato do Ocidente. No entanto, quando há quatro anos ele ocupava sob a presidência de Kutchma o cargo de primeiro-ministro, a sua táctica de superação da crise financeira na Ucrânia foi inteiramente copiada das experiências russas. Exercendo na década de 90 as funções de director do Banco Central, Viktor Yuschenko seguiu uma prudente política monetário-financeira que tanto lhe granjeou o elógio como o tornou objecto de críticas pela posição centrista em relação ao Leste e Ocidente.

A participação tão activa da Rússia na campanha eleitoral da Ucrânia trai o seu arraigado complexo de inferioridade em relação ao Ocidente. Na sua estratégia a Rússia parte da suposição de que o eixo transatlântico procura absorver os seus vizinhos. A União Europeia - e, especialmente, os seus novos membros que fazem fronteira com a Ucrânia como a Polónia e a Hungria - assim como os Estados Unidos estão evidentemente interessados também em obter determinados resultados das eleições de domingo. No entanto, o papel do Ocidente na campanha eleitoral é incomparável nem pela escala nem pela importância com o papel desempenhado nela pela Rússia.

A Ucrânia não deseja unir-se à Rússia, mas deseja continuar a ser a sua amiga, muito boa amiga. A tarefa do futuro Presidente do país consistirá em elevar esta amizade ao nível de política nacional. Por seu lado, a tarefa da Rússia deve consistir em aplicar uma política ponderável orientada para criar na sua vizinhança uma situação tranquila e não um ambiente de caos.

Angela Charlton © RIAN

 
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