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HOMENAGEM - 80 anos da morte de Vladimir Ilitch Lênin

26.01.2004 | Fonte de informações:

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“O gelo cobre tudo, morte por toda parte, tudo jaz. Toda a vida parece dissipada uma vala comum o mundo inteiro, uma única vala. Nem mesmo as sombras de uma vida livre e luminosa. Mas ainda é cedo para que a noite triunfe sobre o dia para que o túmulo celebre sua festa de vitória sobre a vida. Ainda sob as cinzas prepara-se a fagulha”

Lênin/ primavera de 1907

Às 18 horas e 50 minutos do dia 21 de janeiro de 1924 parou de bater o coração do maior revolucionário do século XX, o fundador e consolidador do primeiro Estado socialista do mundo. Uma mensagem do Partido Comunista da Rússia (bolchevique) dirigida aos trabalhadores dizia: “Nunca desde Marx a história do grande movimento libertador do proletariado produziu uma figura tão gigantesca (...) cujo nome se tornou, do ocidente ao oriente, do sul ao norte, o símbolo do novo mundo”. Nos quatro dias que duraram os seus funerais uma multidão de cerca de 900 mil pessoas, sob uma temperatura de 30 graus negativos, foi dar o seu último adeus ao seu líder. Manifestações ocorreram em todas as partes do mundo. De Londres a Pequim, passando pelo Brasil, os trabalhadores se reuniram para homenagear Lênin.

O jovem revolucionário vietnamita Ho Chi Minh escreveu: “Lênin morreu! A notícia golpeou cada um de nós e como um raio ela se espalhou pelas ricas planícies da África e pelos verdes arrozais da Ásia. Os negros e os amarelos, é verdade, não sabem ainda com exatidão quem é Lênin nem onde fica a Rússia. Tudo fizeram para os impedir de saber. No entanto, foi passando de boca em boca que numa longínqua região do mundo existe um povo que soube derrotar seus exploradores e que agora dirige ele mesmo seus assuntos sem precisar de patrões nem de governos gerais.”

Máximo Gorki traduziu numa carta o sentimento profundo do povo russo: “Nunca senti tanta dor (...) Ainda agora a minha mão treme ao escrever (...) Sinto o coração amargurado. O capitão deixou o navio. Sei muito bem que o resto da equipe se compõe de homens corajosos e bem formados por Ilitch. Sei que não perderão a cabeça no turbilhão (...) A perda de Ilitch é a maior infelicidade que a Rússia conheceu desde há um século. Sim, a maior...”.

Os primeiros passos de um revolucionário

Vladimir Ilitch nasceu em 10 de abril de 1870 na cidade Simbirsk (depois transformada em Ulianovsk), localizada na região do Volga. Seu pai era inspetor escolar. Seu irmão mais velho Alexandre Ulianov se incorporou num grupo revolucionário, defensor de táticas terroristas, e acabou se envolvendo num complô contra o Czar Alexandre II. Descoberto o plano o grupo foi preso e quatro dos seus líderes foram enforcados em maio de 1887. Entre eles estava Alexandre. Sua irmã Ana também foi presa, acusada de pertencer ao mesmo grupo revolucionário. Lênin tinha apenas 17 anos de idade.

No mesmo ano entrou para o curso de Direito da Universidade de Kazan. Em poucos meses já estava organizando manifestações estudantis contra o Czar o que lhe custou a expulsão da Universidade. Na ocasião um esbirro policial lhe disse: “Estás a lutar contra um muro de pedra”. E o jovem Lênin, sem titubear, respondeu: “um muro de pedra sim, mas apodrecido e cairá com um pontapé”.

Depois disso passou a viver sob vigilância policial numa propriedade rural de sua família. Aproveitou a oportunidade para iniciar os seus estudos de marxismo, dedicando-se especialmente à obra de Plekhanov, o “pai do marxismo russo”. No seu exílio interno leu o 1º volume de O Capital de Karl Marx.

Lênin assim se desvinculou teórica e politicamente da influência populista, abraçou o marxismo e ingressou num grupo de socialistas dirigido por Fedoseyev. Em 1892 as autoridades russas autorizaram que ele se tornasse um estudante “externo”, ou seja, um estudante que não podia freqüentar a universidade regularmente, apenas podia prestar exames. Lênin em poucos meses fez todas as provas de um curso de Direito de quatro anos e foi classificado em primeiro lugar. Neste mesmo período traduziu o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.

Após a sua formatura seguiu para São Petersburgo onde iniciou uma ativa vida política, entrando em contato com os círculos revolucionários social-democratas. Entre 1893 e 1894 escreveu seus primeiros panfletos destinados aos operários.

A primeira grande batalha dos marxistas

A primeira grande batalha do marxismo russo para se consolidar entre as massas trabalhadoras foi travada contra os populistas. Mas, o que era o populismo? Era uma corrente socialista pequeno-burguesa que se constituiu no início da década de 1860. Os seus dois principais expoentes foram Alexandre Herzen e Tchernychevsky. A primeira organização populista foi fundada em 1862 e se chamava “Terra e Liberdade”.

A base social do populismo era a pequena-burguesia urbana e teve um de seus grandes momentos em 1874 quando milhares de jovens abandonaram seus cursos universitários para se integrar aos camponeses, buscando educá-los, organizá-los e colocá-los em luta contra o czarismo. A experiência não foi bem sucedida e ocasionou uma dura repressão contra os participantes do movimento.

Os teóricos populistas defendiam que a Rússia poderia transitar diretamente para o socialismo sem passar pelo capitalismo. Isto seria possível graças à existência das comunidades rurais russas. Eles se baseavam em uma afirmação feita pelo próprio Marx.

Rapidamente os populistas se dividiriam em duas tendências: Liberdade do Povo e Partilha Negra. A primeira defendia o terrorismo como método principal de luta contra a autocracia. Por isso, organizou dezenas de atentados, inclusive contra o próprio Czar. Mas, nos primeiros anos da década de 1880, a maioria dos seus dirigentes já havia sido presa e executada.

O segundo grupo rejeitava o terrorismo como arma política e defendia a realização de um trabalho maior de propaganda e organização entre os trabalhadores. Vários membros deste grupo, como Plekhanov, Vera Zassulich e Axelrod, avançaram rapidamente para posições marxistas. Graças a eles nasceu o primeiro grupo social-democrata russo: Libertação do Trabalho.

Os marxistas russos, incluindo o jovem Lênin, tinham consciência de que o capitalismo já era uma realidade na Rússia e juntamente com ele vinha se desenvolvendo uma nova classe, o proletariado. Seria justamente a este jovem proletariado urbano que caberia o papel de vanguarda no processo de transformação social na Rússia.

Em 1894 os marxistas revolucionários russos estabeleceram uma aliança tática com uma corrente denominada “marxismo legal”. O seu principal expoente era Struve. Os marxistas legais, como o nome já diz, afirmavam-se marxistas, mas no fundo eram os porta-vozes de um setor da oposição liberal-burguesa, defensores exclusivamente de métodos legais (reformistas) no combate ao czarismo. Justamente por isso haviam conseguido autorização para publicar seus jornais e livros.

O acordo com esta corrente possibilitou que os marxistas revolucionários burlassem a censura a publicassem textos mais conseqüentes contra os populistas e o czarismo. Não demorou muito tempo para que a polícia descobrisse a artimanha, passando a estabelecer uma censura mais rígida ao material publicado.

Os social-democratas tinham pelo menos um ponto comum em relação aos marxistas-legais: a compreensão de que o capitalismo na Rússia era uma realidade incontestável e, portanto, a idéia de um comunismo assentado nas comunas camponesas passava a ser uma utopia conservadora. Entre 1892 e 1893 começou a escrever o trabalho Quem são os “amigos do povo” e como lutam contra os social-democratas.

Nele fez uma crítica abrangente ao populismo russo.

Em 1895 Lênin, ao lado de Martov, fundou a “Liga da Luta para a Libertação da Classe Trabalhadora”. Participou ativamente da agitação entre os operários de São Petersburgo e acabou sendo preso. A sentença foi passar um exílio de três longos anos na gélida e desolada Sibéria. No seu exílio siberiano ele escreveu O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, que foi publicado em 1899.

Naquele momento Lênin havia se colocado a tarefa de realizar uma crítica teórica e política ao populismo, reduzindo assim a sua influência junto às massas trabalhadoras. Esta era uma condição essencial para a construção de uma tática e de uma estratégia conseqüentes para o movimento operário revolucionário na Rússia.

O desenvolvimento da idéia de Partido e da teoria como elementos centrais do movimento revolucionário

A primeira fase de produção teórica de Lênin é pouco conhecida, particularmente sua elaboração sobre o problema do partido e da relação entre consciência e espontaneidade. Na sua obra Projeto e Explicação do Programa do Partido Social-Democrata, de 1895, a consciência de classe (revolucionária) nasceria das próprias lutas operárias, viria da própria luta econômica contra os patrões dentro das fábricas. Através da luta econômica os operários necessariamente adquiririam a consciência política de classe socialista. O papel da Social-Democracia seria unir as lutas isoladas a fim de acelerar o processo de formação da consciência revolucionária e socialista dos trabalhadores. Lênin, nesta fase, se aproximou bastante de algumas formulações de Rosa de Luxemburgo com quem mais tarde travaria uma rica polêmica.

Sem dúvida, o jovem Lênin estava, de um lado, influenciado pelas grandes greves operárias de 1895-1896 e, de outro, pelo “primitivismo” teórico dominante nos círculos social-democráticos russo. Mais tarde chegaria à conclusão de que não era correta a idéia de que a consciência política socialista pudesse se produzir inevitavelmente da luta econômico-corporativa, por mais extensa e radical que pudesse ser.

As grandes greves de 1895-1896 não produziram automaticamente nem a consciência socialista e nem uma organização partidária sólida. O resultado deste processo foi Lênin ter rompido definitivamente com toda e qualquer influência economicista que ainda pudesse existir no seu pensamento e passou a estudar com maior atenção os problemas da relação entre a luta econômico-corporativa dos operários e o processo de constituição de uma consciência revolucionária e socialista. O problema do Partido começou a ganhar relevo na construção teórica de Lênin. Consolidou-se a idéia de que só o Partido revolucionário poderia assegurar às lutas econômicas uma saída política adequada: a via revolucionária.

Em 1899 escreveu Uma tendência Regressiva na Social-Democracia, no qual anteciparia algumas das teses que estariam presentes em Que Fazer?. Afirmava Lênin: “Em todos os países europeus o socialismo e o movimento operário, em seu início, existiram separadamente. O movimento operário não sendo iluminado pela ciência de vanguarda de sua época continuava reduzido, fracionado, sem adquirir nenhuma importância política. Por isto em todos os países vimos manifestar-se com força a tendência de fundir-se o socialismo com o movimento operário num único movimento social-democrático, essa função dá origem a uma forma superior do movimento operário e socialista, o Partido Social-Democrata independente”.

A segunda grande batalha do marxismo russo: contra o revisionismo e o economicismo

Enquanto Lênin estava no exílio, em 1898, realizou-se em Minsk o congresso de fundação do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR). O processo de formação do partido socialista russo se deu no momento em que o marxismo sofria seu primeiro grande ataque provindo de suas próprias fileiras. Este fenômeno estava ligado ao próprio desenvolvimento do capitalismo europeu no final do século XIX.

O crescimento relativamente pacífico do capitalismo alemão e europeu e a conquista de maiores liberdades democráticas propiciaram avanço eleitoral sem precedente para a social-democracia. Isto levou a que muitos dirigentes acalentassem a esperança de que houvesse outra alternativa para a conquista do socialismo que não fosse a via revolucionária. O principal teórico dessa via reformista foi Bernstein, dirigente do PSDA e, até então, considerado herdeiro de Engels do qual havia sido amigo.

Bernstein elaborou uma nova tática para o movimento socialista alemão, que se concentrava quase exclusivamente na ação institucional. Segundo ele, seria através do voto que o trabalhador se elevaria “da condição social de proletário àquela de cidadão”. A luta sindical por melhores condições de trabalho e salários seria o instrumento privilegiado para conduzir a sociedade capitalista, através das reformas econômicas, para o socialismo. Na verdade, estas reformas já seriam a própria realização molecular da nova sociedade socialista. É de Bernstein a famosa frase: “o movimento é tudo e o fim nada significa”.

Lênin, desde o primeiro momento, engrossou o coro contra o revisionismo e escreveu, em 1899, o artigo Protesto dos Social-Democratas Russos. Mas, a social-democracia russa não ficou imune ao surto revisionista. Neste período desenvolveu-se no interior do movimento socialista russo uma corrente que seria denominada “economicista”.

No combate político-teórico ao economicismo Lênin escreveu Que Fazer?. O livro foi publicado em março de 1902. Ele sabia que para se construir um partido verdadeiramente revolucionário, que pudesse cumprir as tarefas colocadas pela revolução, seria preciso derrotar em todos os campos as concepções que negavam: 1°) o papel da teoria revolucionária; 2º) a importância de construção de uma sólida organização partidária; e 3º) a necessidade de colocar no centro da tática e da estratégia socialista a luta política revolucionária contra a autocracia czarista. A vitória do economicismo no interior do partido significaria a derrota da revolução russa.

A obra de Lênin representou um momento importante na elaboração da política de organização marxista e foi um dos marcos na construção do Partido bolchevique, da separação dos elementos oportunistas que se organizariam mais tarde na corrente menchevique.

Lênin analisou a complexa relação entre o fator consciente e o movimento espontâneo das massas. Afirmou ele: “a classe operária, pelas suas próprias forças, não pode chegar senão à consciência sindical, isto é, à convicção de que é preciso unir-se em sindicatos, conduzir a luta contra os patrões, exigir do governo essas ou aquelas leis necessárias aos operários etc”.

É justamente devido aos limites estruturais da luta econômica que a consciência política de classe não poderia nascer diretamente dela. A consciência política de classe só pode nascer da sua luta no campo da política, na relação “de todas as classes e categorias da população com o Estado e o governo, o domínio das relações de todas as classes entre si”. Continua Lênin: “A consciência da classe operária não pode ser uma consciência política verdadeira, se os operários não estiverem habituados a reagir contra todo abuso, toda manifestação de arbitrariedade, de opressão e de violência, quaisquer que sejam as classes atingidas (...) Todo aquele que orienta a atenção, o espírito de observação e a consciência da classe operária exclusiva ou preponderantemente para ela própria não é social-democrata; pois para conhecer a si própria, de fato, a classe operária deve ter um conhecimento preciso das relações recíprocas de todas as classes da sociedade contemporânea”.

Em 1903 realizou-se o 2º Congresso do POSDR. O objetivo era constituir um partido social-democrata unificado e aprovar seu programa e estatuto. O principal e mais polêmico ponto do debate foi sobre o famoso artigo primeiro dos estatutos do Partido que definia quem poderia fazer parte da organização. Martov defendia uma organização mais fluída em que todo grevista poderia se dizer membro do Partido e agisse sob direção de um organismo partidário. Para Lênin estas condições eram insuficientes para um partido revolucionário, especialmente sob um regime ditatorial. Só poderia ser considerado militante aquele que se dispusesse a pertencer a uma organização partidária e a ela se submetesse. Lênin e seu grupo embora fossem vitoriosos no Congresso acabariam perdendo esta votação para o grupo de Martov.

Neste congresso a social-democracia russa se dividiria em duas alas: a menchevique e a bolchevique. As posições de Lênin foram expostas no livro Um passo adiante, dois passos atrás.

*Augusto César Buonicore, Historiador, doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp, membro do Comitê Estadual de São Paulo, do Comitê Central do PCdoB e do Conselho de Redação da revista Debate Sindical. Publicado no Diário Vermelho

 
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