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Colbert Report e os Conservadores

25.12.2014 | Fonte de informações:

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O que o 'The Colbert Report' ensinou-nos sobre a psicologia dos conservadores 

18/12/2014, Leslie Savan, The Nation
http://www.thenation.com/blog/193281/what-colbert-report-taught-us-about-psychology-conservatives


Ninguém supôs que Stephen Colbert, o personagem, duraria tanto. Aquele tom moralista, direitista, autocomplacente, autoelogiativo, grandiloquente, metido a 'ético' [cróóóóóóóóózes! O tom do Colbert, em programa cômico, é exatamente igual ao tom dos 'jornalistas' do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), querendo falar sério! :-D)))))) ] um maneirismo que se aguentaria, no máximo, por um, dois anos.

Como o próprio Colbert disse na 2ª-feira, a Michele Bachmann, que está saindo, aposentada: "O tempo voa, Michele, como voa! Não posso acreditar que você mantém essa empáfia de conservadora racista, já, por oito anos... Oito anos!" 

Mas já lá vão oito anos, e Colbert nunca parou de nos fazer lembrar que a política - sobretudo a política conservadora (para conservar) é puro espetáculo, não passa de um tipo de desempenho cênico. 

Para esse último show, o Grim Reaper vai tirá-lo da bancada. É o que se sabe. Mas se deve agradecer pela longevidade do programa, pelo menos em parte, aos reinados muito mais longos de suas fontes de inspiração ["Papa Bear" Bill O'Reilly, claro, mas também Sean Hannity, Rush Limbaugh, Steve Doocy e a própria forma mentis da Fox News].

Também se pode agradecer por esses últimos nove anos à própria 'coisa' que os tornava tão improváveis: como personagem, não só como mero crítico, da direita, Colbert guardava com ele uma raríssima chave que lhe permitia decifrar o enigma do conservadorismo moderno: Como é possível que essa gente continue a safar-se, fazendo sempre o que sempre fez? Por que tantos conservadores converteram-se em perfeitas cavalgaduras, racistas, militantes do ódio, negadores da ciência e da realidade? Os eleitores nem sempre concordam com aquelas políticas deles, mas... continuam a elegê-los. Por quê?

Nós progressistas batemos cabeça na parede contra a ausência total de lógica no que eles dizem e fazem, e frustrados, só fazemos berrar a única explicação que encontramos "São doidos... Esses caras são malucos... São LOUCOS!"

Em vez de tentar usar a chave de fora para dentro da muralha - como mais críticos da direita deveriam também aprender a fazer, Colbert mete e gira a chave de dentro para fora da muralha, por falsa que seja a chave que ele encontrou e domina. Porque aprendeu a habitar o interior da cabeça dos conservadores servindo-se do seu personagem, Colbert conseguiu mostrar, quatro noites por semana, como funciona a psicologia da direita reacionária.

E foi assim que em seu último segmento "Inimigo Formidável" [Formidable Opponent, o Stephen direitista iradíssimo, furioso, indignado com tantas 'calúnias' disse que os EUA jamais torturaram. O Stephen mais moderado contra-argumentou que já não havia como desmentir. Que o Relatório do Senado comprova que sim, torturaram. Ao que o primeiro Stephen respondeu:


"Ah, mas eu não estou falando do país real! Estou falando da ideia de EUA. A ideia de EUA nunca torturou ninguém. Por isso, meu amigo, é que escolhi viver aqui, na ideia de EUA."


É impossível assistir a esse tipo de personagem, que se ancora nessa franqueza sem véus, sem sentir alguma simpatia por ele e, claro, também pelo próprio conservadorismo.

Colbert expressou essa simpatia mostrando que, por baixo da afirmação de onipotência e certeza-sem-fim do personagem, há uma fraqueza, um fundo falso instável, enterrado em praticamente todos os bolsonaros e seus porta-vozes televisionais.

Enquanto não para o aplauso, Sininho continua. Se os acenos de concordância param, a força acaba. Se você para de correr na mesma direção em que vai a manada, você está morto, esmagado.

Todas as noites, o personagem Colbert blinda-se completamente para andar pelo fio reto e estreito onde o medo não existe. Quanto mais se faz de valentão, menos se vê que não passa de bebezão covarde. (Nisso o personagem mais próximo de Colbert seria Lawton Smalls, velho personagem direitista de Marc Maron que caía em lágrimas quando não conseguia salvar suas fantasias políticas.) Vez ou outra, Colbert escondia-se sob a mesa, ou punha-se aos berros (porque temos de extinguir da face da Terra todos os ursos!) "Ursos", como se sabe, significa "Rússia", mas também o comercial de Reagan "Bear in the Woods", ou mesmo, "Papai Urso" [Bill O'Reilly]. 

Mas o mais provável é que o medo de ursos, em Colbert, fosse medo do medo em si, um terror irracional de algo que jamais vimos, com o que jamais cruzamos, como painéis da morte doObamacare ou bandidos que saem do mato para receber armas que os EUA lhes enviamos. Será que levam para entregar lá a "Doçura", a pistola que Stephen acaricia e que, tanto quanto se conhece é o único interesse amoroso sério da vida dele [como na de tantos bolsonaros, né-não?]

Mais frequentemente porém, Colbert cavalga destemido sempre avante, sem retroceder, enunciando os maiores absurdos, sem tomar conhecimento de problemas e consequências. Era o traço "Inspetor Clouseau" de Colbert. É a impenetrável inocência do personagem e o coração do ator que combinam, me parece, para gerar tanta afeição, amor, de fato, por Colbert.

Sempre disse que aprecio Jon Stewart (e, sim, aprecio muito, muito, John Oliver), mas AMO Stephen. Rio tanto, tanto, que choro. Ao chorar, saio do plano 'crítico' e me redimo.

Pensa-se em geral que Stewart faz a sátira política que bate mais forte. Mas Colbert, sob um fino véu de ficção, pode, sim, morder muito mais fundo. Colbert de fato é uma ameaça a O'Reilly - que dá sinais ativos de que não gosta dele -, e O'Reilly e Stewart apoiam-se mutuamente.

Colbert também faz coisas mais próximas do ativismo conservador, que Stewart tanto despreza. Como quando Colbert depôs numa subcomissão de Justiça da Câmara de Representantes a favor de garantias para empregos de norte-americanos, em vez de proteção à mão de obra de imigrantes. Ou quando, num dos momentos mais brilhantes da comédia em todos os tempos, foi mestre de cerimônias do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca em 2006. Ali, a um passo do presidente George W. Bush, Colbert, o personagem, disse:


"Não somos assim tão diferentes, ele [o presidente] e eu. Chegamos lá. Não somos cérebros, a patrulhar nerds. Não somos da gangue do facticídio. [Apontando para o dono da Fox, presente: "Direitos autorais são meus! Se fizerem isso, processo a Fox!"]. Nós dois falamos com as tripas, certo, senhor presidente? A maior coisa sobre esse homem é que ele é firme. Você sabe o que ele defende. Acredita sempre na mesma coisa, na 4ª-feira, que acreditava na 2ª-feira, não importa o que aconteceu na 3ª-feira. Eventos mudam. Esse homem, nunca!"


Mas Colbert mordeu ainda mais profundamente nos jornalistas presentes, os quais, como se soube depois, não acharam graça nenhuma:


"Ao longo dos últimos cinco anos, vocês foram ótimos - a favor de cortar impostos que só ricos pagam, aquela inteligência toda sobre armas de destruição em massa, a favor do aquecimento global. Nós norte-americanos não queríamos saber, e vocês nos fizeram a gentileza de nada investigar e nada descobrir. Bons tempos aqueles... pelo menos foi o que vocês disseram. 

Mas, escutem... Vamos acertar essas regras. As coisas funcionam do seguinte modo: o presidente decide. Eis o Decididor-em-chefe. O secretário de imprensa só anuncia aquelas decisões, e vocês, turma 'da mídia', só digitam aquelas decisões. Decidir, anunciar, digitar. É passar lá o corretor ortográfico e ir p'rá casa. Localizem a família de vocês. Façam sexo com a mulher de vocês. Escrevam aquele romance que vive chutando dentro da cabeça de vocês. Lembram? Aquele, sobre o intrépido jornalista em Washington que tem coragem de investigar. Sacomé... E vão ganhar a vida vendendo FICÇÃO."


Não se sabe se o Stephen Colbert de ficção diria alguma coisa desse tipo a convidados do The Late Show. Mas nunca se sabe. Já nos surpreendeu antes.

 

 
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